Grande História

Com quase 10 mil mortos por covid-19, Bolsonaro agenda churrasco

Jair Bolsonaro

A nota de Bôas, o chilique de Regina, a PF arrebentada, o xingamento de Weintraub, a molecagem de Bolsonaro, e muito mais.

Desde o Natal do ano passado, o perfil de Eduardo Villa Bôas no Twitter foi atualizado por apenas onze oportunidades. É compreensível, uma vez que ex-comandante do Exército sofre de esclerose lateral amiotrófica em estágio avançado. Há pouco mais de mês, contudo, o general havia se pronunciando em concordância com a narrativa presidencial de que é preciso acabar com o isolamento social. Hoje, publicou nota sobre a entrevista concedida por Regina Duarte.

Como essa coluna comentou ontem, a secretária de Cultura protagonizou uma peça grotesca. Dentre as várias bizarrices, disse que não caberia a ela fazer “obituário” dos artistas mortos durante a pandemia; fingiu não saber que os apresentadores de São Paulo também fariam perguntas; relativizou os assassinatos cometidos pela ditadura militar; e, diante de um vídeo em que a atriz Maitê Proença cobra tais posicionamentos, decidiu interromper a entrevista em um chilique novelesco.

Até Anitta

De imediato, as redes sociais foram tomadas por críticas ao episódio. Até a cantora Anitta, que evita manifestações políticas, cobrou satisfações. Mas, para o ex-comandante do Exército, Regina teve uma performance encantadora, e só da parte dos jornalistas teria havido deslealdade, desrespeito, desonestidade e deselegância.

De que lado

Villas Bôas calou-se sobre as participações recentes de Jair Bolsonaro em manifestações golpistas. Mas achou que um trio de entrevistadores agiu “como membros de um tribunal de inquisição“. Coube até citação a Augusto Heleno, contra quem já há mais certezas do que dúvidas. O ex-comandante do Exército quis se manifestar a favor da secretária de Cultura, mas só confirmou que se alinha à agenda de um presidente golpista.

Arrebentando a PF

Se eu sair, ele arrebenta a PF“. A frase foi dita pelo próprio Sergio Moro um dia antes de pedir demissão. Fazia uma referência, claro, a Bolsonaro. Que queria acesso a relatórios de inteligência para se armar contra adversários políticos. Em especial, Wilson Witzel, governador que tem poderes sobre a Polícia Civil fluminense – aquela que chegou a envolver o nome do presidente da República no caso Marielle Franco.

Sem pesar

Já se sabe que partiu do próprio Bolsonaro a ordem para que um auxiliar pegasse uma das principais provas apontadas por Moro. O cartão de memória foi formatado antes de devolvido, mas a SECOM costuma ter cópias. Alguns personagens do vídeo sonegado adiantaram à imprensa que se trata de uma reunião tumultuada, regada a xingamentos contra a China, ameaças aos ministros e anúncios de distribuição de cargos ao centrão. Em dado momento, o presidente reclama até da publicação de uma nota de pesar em homenagem a um integrante da Polícia Rodoviária Federal morto pela covid-19.

Onze filhos da…

O trecho mais polêmico, no entanto, sai da boca de Abraham Weintraub. Ao saber de medidas tomadas pelo STF, o “sinistro” da Educação, sem medo de recorrer ao termo aqui evitado, reclama que o Supremo seria composto de onze filhos de meretrizes. Nas redes sociais, argumentaria que a versão seria fantasiosa pois ele próprio se trataria de alguém “bem educado” – algo que as testemunhas dos erros de grafia do dito cujo hão de achar “imprecionante“.

Pisando em ovos

Weintraub precisa calcular bem os movimentos. Ainda na quarta-feira, contrariando o chefe, vetou a indicação de um nome de Ciro Nogueira para administrar os R$ 58 bilhões de orçamento do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. O centrão já havia sido agraciado com o bilionário Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, e passaria a controlar uma verba total superior a R$ 78 bilhões. Mesmo assim, Bolsonaro reagiu à insubordinação acusando o funcionário de “dar uma de gostoso“. A crise foi contida por Arthur Weintraub, que sustentou ao presidente que o vazamento à imprensa não tinha sido coisa do irmão, mas da ala fardada do Palácio do Planalto.

Presepada suprema

Entretanto, Bolsonaro nem pode reclamar da boca suja de Weintraub. Após ter o mandato mais uma vez salvo por obra de Dias Toffoli, arregimentou uma trupe de empresários para, além de cobrar poderes contra o isolamento social, largar a culpa da recessão econômica nos membros do Supremo. Em resposta, alguns togados adjetivaram o flash mob presidencial como “presepada” e “molecagem“.

Molecagem criminosa

E olha que os membros de STF nem analisaram o churrasco convocado por Bolsonaro para este sábado no Palácio da Alvorada. Contrariando as recomendações da Organização Mundial de Saúde, o maldito prometia ontem reunir por volta de 30 convidados. Hoje, multiplicou a aposta, chegou a falar 1,3 mil confirmações, e prometeu que “bota pra dentro” qualquer um que aparecer.

Carnificina

A festa estranha com gente genocida ocorrerá enquanto brasileiros choram a morte de pelo menos 9.897 vítimas da covid-19. Em novo recorde nacional, foram confirmados 751 óbitos nas últimas 24 horas. Mas a subnotificação é gritante e –nem chega a ser leviano cravar– desejada pelo presidente da República. Que escreve uma das páginas mais obscuras da história nacional. E, como alertou essa coluna ontem, carregará consigo todo mundo que se omitir diante da carnificina.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Crusoé, Época, Estadão, Estado de Minas, Exame, Folha de S.Paulo, G1, Nexo Jornal, O Antagonista, O Globo, Poder 360, R7, UOL e Veja.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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