Eduardo Bolsonaro e PSL
6 de março de 2020

Tudo por um pibinho

Desculpa não faltou. Paulo Guedes argumentou que o Brasil já tinha praticamente estagnado entre os governos Temer e Bolsonaro. Embanando-se com a própria narrativa de que um dólar alto seria positivo para o país, disse que a moeda americana só superaria os cinco reais caso o governo fizesse “muita besteira“. E, como não poderia deixar de ser, culpou a imprensa por mais uma cotação nominal recorde – o que carece de lógica.

Ao final do dia, o próprio ministro da Economia protagonizou um pronunciamento nas redes sociais defendendo o trabalho realizado pela pasta. Mas a ressaca do “pibinho” era perceptível no tom de voz.

Nada se compara, contudo, ao que a SECOM cometeu na mesma noite com o próprio ME de comparsa.

A volta da contabilidade criativa

Economistas contestam a contabilidade criativa ao menos desde dezembro de 2019. Mas, já que o próprio presidente da República agiu como se fosse necessário rir para não chorar, Renato Terra, em blog da Folha de S.Paulo, resumiu: o Governo Federal lançava a mamadeira de PIB.

Piadas à parte, o Credit Default Swap de 5 anos, um termômetro da confiança dos investidores, deu o alerta disparando 14,4% ontem, na maior alta diária desde quando Joesley Batisa surgiu no noticiário grampeando Michel Temer. Hoje, o Ibovespa despencou abaixo dos 100 mil pontos. Em menos de três meses, estrangeiros já sacaram R$ 44,8 bilhões da Bolsa, algo que não aconteceu nem mesmo na crise de 2008. Soma-se ao cenário o tombo de 20,8% na produção de veículos em fevereiro.

Contrariando o discurso do chefe, Mansueto Almeida defendeu que o governo aumentasse o investimento público, mas ressalvou que só um bom ajuste fiscal pode tornar possível a mudança de postura.

A fala do secretário do Tesouro harmonizou com a avaliação de Luiz Masagão, diretor da Tesouraria do Santander, para quem a alta do dólar já estaria impactando negativamente a confiança na economia.

Cerco se fechando

Com a quebra do sigilo dos computadores usados em ataques ao STF, descobriu-se que os IPs usados pertencem a um provedor público de SP. A investigação apura se o gabinete de Douglas Garcia, deputado estadual ligado a Eduardo Bolsonaro, montou na ALESP um braço do “gabinete do ódio” do Palácio do Planalto.

Antes tarde

Com um ano de atraso, a imprensa atentou à gravidade de o filho do presidente da República ter buscado montar no Palácio do Planalto uma espécie de “Abin paralela“. Na Crusoé, Fabio Serapião cobra a devida apuração, e adianta que Carlos Bolsonaro conseguiu emplacar na Abin oficial um dos policiais que integrariam a versão clandestina da agência de espionagem.

Don’t be evil

Preocupa a presença de Fábio Coelho, presidente do Google Brasil e vice-presidente Google Inc, na lista de empresários que paparicavam Jair Bolsonaro na FIESP ontem. A SECOM tem conseguido pressionar veículos de mídia mais tradicionais, mas a internet gozava de alguma independência. Contudo, já há Analytics de críticos do governo estranhando uma abrupta queda nas buscas orgânicas.

A dor e a delícia

Ainda no encontro organizado por Paulo Skaf, Jair Bolsonaro defendeu que os empresários boicotassem os veículos críticos ao governo. O Google Brasil conhece o amargo do boicote. Em 2014, após denúncias de espionagem resultarem no pedido da presidente para que os Correios lançassem um serviço de e-mail nacional, as verbas publicitárias destinadas pelo governo Dilma ao gigante das buscas caíram mais de 70 por cento. Em 2016, chegou ao processo de impeachment em zero.

Follow the money

A investigação sobre as milícias cariocas finalmente raspou o nome do prefeito. O ouro dos milicianos não é o “gatonet”, ou o pó, mas a grilagem que Marielle Franco combatia. Liderado por Adriano da Nóbrega, o Escritório do Crime erguia prédios irregulares em Rio das Pedras e Muzema. Para tanto, fazia uso de três empresas que usavam laranjas como sócios. E um contador que pagava “propina a um suposto funcionário da Prefeitura do Rio”.

Entre Aspas

“O presidente, quando erra, tem que ser criticado. Isso precisa ser pontuado. Não essa idolatria cega, não criar uma seita. Se não, vai ser um PT, uma CUT azul.”

Kim Kataguiri, deputado federal, chamando de adesistas os grupos que organizam a manifestação do próximo 15 de março.

Curtas

  1. O real já é a moeda que, no mundo, mais se desvaloriza perante o dólar.
  2. A Brink Mobil, contratada pelo MEC para fornecer kits escolares a estudantes, está envolvida em esquema que desviou mais de R$ 130 milhões da saúde e da educação na Paraíba.
  3. A bancada evangélica não quer saber da legalização dos jogos de azar, o que é bem-vindo, uma vez que o tema é por demais delicado para se tocado por um governo tão indelicado.
  4. Dada a dificuldade que a Aliança pelo Brasil enfrenta para se consolidar como partido, conclui-se que é muito bom ter um partido, ou o Brasil não contaria com 33 deles.
  5. Mirando renovação, João Amoêdo deixou o comando do Novo – porque não pode haver uma única nota sobre o partido sem trocadilho com o nome.
  6. A bancada do PT no Senado despertou e cobrou ao TCU explicações sobre o que fez o Nordeste receber apenas 3% dos novos benefícios do Bolsa Família.
  7. Mariana Ximenes quer abolir a expressão “tomara que caia“, mas ela bem que poderia voltar à moda – if you know what I mean.
  8. Tem republicano salivando pelo Twitter, o que não deve melhorar o clima tóxico que há tempos tomou a rede.
  9. Os obstáculos enfrentados pelos Estados Unidos no combate ao novo coronavírus deveriam servir para os brasileiros valorizarem mais o SUS – mas não servirão.
  10. Porque, por exemplo, enquanto o novo coronavírus infectava 13 pessoas no Brasil, a dengue acumulava 32 mortes em mais de 180 mil casos – um aumento de mais de 70% em relação ao mesmo período do ano passado.

Um Pio

Vale Seguir

Jun’s Kitchen traz Junichi “Jun” Yoshizuki, um japonês de 31 anos que apresenta a culinária oriental e um pouco do estilo de vida do Japão a seus três gatos. Destaque para a habilidade ninja ao manusear facas.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BBC, CBN, Crusoé, Época, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, O Antagonista, O Globo, Poder 360, Valor Econômico, Valor Investe e UOL.

Eduardo Bolsonaro e PSL

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 19 de fevereiro de 2020 por Luis Macedo, fotógrafo da Câmara Federal, e apresenta o deputado federal Eduardo Bolsonaro fazendo um gesto de banana no plenário da casa.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque, nessa semana, uma piada fez a economia chorar. Mas a piada estava no piadista.

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Publicado por

Marlos Ápyus

Mais do que jornalista, um fã do jornalismo.

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