Coronavírus na Itália
11 de março de 2020

Os trovões da tempestade perfeita

Ainda ontem, Jair Bolsonaro disse que o novo coronavírus não é “isso tudo que a mídia propaga“. Hoje, a Organização Mundial de Saúde declarou que a covid-19 se espalhou de tal forma que já é considerada uma pandemia.

Apesar do termo assustador, o trabalho das autoridades deve seguir o programado, e a população deve evitar entrar em pânico.

Mas situação é complexa de tal forma que um conferência que discutiria o impacto do coronavírus no ambiente de negócios foi cancelada em decorrência do avanço da doença em Nova York. Na Alemanha, especialistas calculam que cerca de 70% da população será infectada a longo prazo.

Por aqui, a Agência Nacional de Saúde decidiu que os planos de saúde bancarão os testes para identificar os portadores da doença. No Rio de Janeiro, um decreto de Wilson Witzel permitirá a internação compulsória de pessoas sob suspeita de contaminação.

No pior cenário traçado pelo Ministério da Saúde, os registros aumentariam exponencialmente no Brasil em até duas semanas e meia, dando início a uma drama que duraria dois meses. Mas este é o pior dos cenários.

De acordo com o balanço mais recente, a covid-19 acumula 118 mil casos em 114 países, contabilizando 4.291 óbitos. O Brasil confirmou 52 casos distribuídos entre São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo, Alagoas, Rio Grande do Sul e Distrito Federal.

Entre Aspas

“Jamais passou pela minha cabeça abandonar, desistir. Mas de vez em quando me pergunto ‘o que eu estou fazendo no meio desse vendaval?'”

Jair Bolsonaro, presidente da República, perguntando o que nenhum brasileiro sabe responder.

Vale o risco?

Apesar de a fase contagiosa da doença durar duas semanas, e os sintomas surgirem após uma média de 5 dias, o Ministério da Saúde recomenda que apenas a população com sintomas evite aglomerações como eventos esportivos, eventos culturais e mesmo a manifestação golpista marcada para o próximo domingo.

Reforma sonegada

Manifestação golpista que segue divulgada até pela Secretaria Especial de Comunicação. Ao final da tarde, Fabio Wajngarten, chefe da SECOM, surgiu no noticiário com suspeita de coronavírus. Quanto à reforma que justificaria o ato, já está supostamente pronta, mas o presidente não tem pressa de enviá-la ao Congresso.

Desenhou

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aquela fala

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Gonzaga x Bebianno

Admar Gonzaga, que integrava o Tribunal Superior Eleitoral nas eleições de 2018, e hoje advoga para Jair Bolsonaro, disse que o presidente “deve ter alguma prova” da suposta fraude nas urnas eletrônicas denunciada há dois dias. Gustavo Bebianno, que coordenou a campanha vencedora, mas rompeu com Bolsonaro em fevereiro de 2019, duvida. Ainda em janeiro, o TSE rechaçou a tese de que Bolsonaro teria vencido em primeiro turno.

Como se não houvesse PGR

A CPMI das Fake News já identificou a origem de ao menos quatro perfis que promovem ataques a parlamentares e membros do judiciário. A Yacows, que esteve no centro do depoimento mais polêmico dado à comissão, vendia milhões de números de celular atrelados a CPFs para disparos em campanhas eleitorais. Noutra frente, o polêmico inquérito tocado pelo STF chegou a empresários que não só apoiam o governo Bolsonaro, como ajudam na convocação da manifestação golpista do próximo domingo. Enquanto isso, Carlos Bolsonaro dava expediente no “gabinete do ódio” como se o Brasil não tivesse procurador-geral da República – o que é uma sensação cada vez mais real.

Curto-circuito

Ontem, os mercados reagiram à forte turbulência da segunda-feira, com as bolsas fechando em alta. Hoje, a coisa voltou a desandar, com a Bovespa mais uma vez acionando o circuit breaker por superar os 10% de queda (chegaria a -12%, mas fechou o dia em -7,6%). Ainda que reduzindo a projeção, o governo segue prometendo que o crescimento do PIB será o maior desde 2013. O lucro recorde do BNDES talvez explique o otimismo. Ou a menor inflação para fevereiro em 20 anos. Ou porque o cálculo foi feito antes de o Congresso derrubar o veto de Bolsonaro à ampliação do BPC, uma pauta bomba que impactará as contas públicas nos próximos 10 anos em R$ 217 bilhões – o equivalente a um quarto da economia conquistada com a reforma da Previdência.

Sorte ou azar?

Armínio Fraga reconhece que o governo Bolsonaro atrapalha a economia. José Serra disse que o presidente é o “principal fator de desestabilização política do país“. Tiago Mitraud pensa de forma semelhante. Rodrigo Maia garante que o problema não é o Congresso. Para sorte de Jair Bolsonaro, uma maioria de 49% ainda se diz contrária a um eventual impedimento do presidente. Para azar, com apenas 15 meses de mandato, já há pesquisas medindo o interesse do eleitor num processo de impeachment.

Um Pio

Curtas

  1. Como se humilhar publicamente uma deputada federal fosse parte do jogo político, o relator no Conselho de Ética da Câmara votou pelo arquivamento da representação contra Eduardo Bolsonaro.
  2. A Aliança pela Brasil, que pelas contas presidenciais deveria ter se formalizado em apenas um mês, só conseguiu até o momento 1,6% das assinaturas necessárias.
  3. Segundo o ministro do Interior do Paraguai, a prisão de Ronaldinho Gaúcho, que foi ao país vizinho a convite de um investigado pela Lava Jato, desagradou Sergio Moro.
  4. Após negociações infrutíferas com a CNN Brasil, Alexandre Garcia virou comentarista de um canal especializada em gado.
  5. Provando que a teoria da ferradura faz sentido, Lula reclamou em Berlim que “a Amazônia não é da França, não é internacional, a Amazônia é do Brasil”.
  6. Sérgio Cabral contou à PF que, a pedido de Lula, atuou para que a empresa de Fábio Silva, filho do ex-presidente, assinasse um contrato de R$ 30 milhões com a Prefeitura do Rio de Janeiro.
  7. Desde ontem, é permitido vender no Brasil produtos à base de cannabis – com fins medicinais, o que costuma ser um primeiro passo rumo à legalização da maconha.
  8. Drauzio Varella reformulou e melhorou o próprio o posicionamento sobre o abraço dado na trans homicida, e de novo contou com o apoio da Rede Globo.
  9. Em mais uma prova de que o país vive um momento obscuro, o deputado federal Boca Aberta, do PROS do Paraná, apresentou um projeto que prevê a amputação das mãos de políticos corruptos, o que jamais será aprovado – é preciso fé.
  10. Tudo indica que Joe Biden, que por oito anos foi vice-presidente de Barack Obama, estará no “segundo turno” da eleição presidencial americana, tornando um pouco (mas só um pouco) mais difícil a reeleição de Donald Trump.

Vale Seguir

Mario Vitor Rodrigues está acompanhando de perto a eleição presidencial dos Estados Unidos. E adianta no próprio Twitter detalhes que o noticiário enfocará só um tempo depois.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BBC, Bloomberg, BR Político, Correio Braziliense, Crusoé, Estadão, Exame, Extra, IstoÉ Dinheiro, Folha de S.Paulo, G1, Globo Rural, Metrópoles, O Antagonista, O Globo, Teleguiado, Terra e UOL.

Coronavírus na Itália

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 11 de março de 2020 e liberada para uso pelo município de Veneza, na Itália. Nela, a prefeitura local prossegue com a atividade de higienização da cidade.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque já dá para ouvir os trovões da tempestade que se aproxima.

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Publicado por

Marlos Ápyus

Mais do que jornalista, um fã do jornalismo.

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