27.11.2018 - Brasília/DF - Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro durante entrevista à imprensa, no CCBB. Foto: Wilson Dias/Agência Brasil
18 de maio de 2020

O que PF e MPF fizeram na eleição passada

A fim de evitar a exploração eleitoral dos interrogatórios, seja qual for a perspectiva, reputo oportuno redesignar as audiências”. Com essas palavras, em 15 de agosto de 2018, Sergio Moro adiou para novembro daquele ano o depoimento que Lula, na condição bizarra de presidiário presidenciável, daria à Lava Jato. A operação, segundo um dos integrantes que a chefiava, via em Jair Bolsonaro um mal menor. Faltando cinco dias para a votação do primeiro turno, contudo, o mesmo juiz federal derrubou o sigilo da delação premiada de Antonio Palocci, uma colaboração excepcionalmente acordada com a própria Polícia Federal.

O depoimento do ex-presidente findou colhido por Gabriela Hardt, uma vez que, naquele novembro, Moro já havia aceito o convite para se tornar ministro da Justiça do candidato que se beneficiou do que Palocci contara à PF. No ano anterior, a operação mais famosa da corporação tinha virado filme sob a lenda de que “a lei é para todos“. A continuação, entretanto, poderia se chamar “aos amigos, tudo, aos inimigos, a lei.“.

Aos inimigos, a lei

Porque, em parceria com Ministério Público, as corporações não descansaram. Dentre as muitas manchetes daquela campanha, destacaram-se a prisão de Beto Richa, que vinha confirmando uma vaga como senador, e as ações contra Fernando Haddad e Geraldo Alckmin, adversários de Bolsonaro. Desde janeiro de 2018, no entanto, o Coaf havia alertado da movimentação atípica nas contas de Fabrício Queiroz, assessor de Flávio Bolsonaro cuja filha trabalhava para o líder na corrida presidencial. Mas PF e MPF optaram por deflagrar a operação Furna da Onça apenas em novembro, já após a vitória do atual presidente da República.

Aos amigos, tudo

No domingo, Paulo Marinho confirmou o que estava nítido desde que se sabe que Nathália Queiroz, filha de Fabrício, foi exonerada do gabinete de Jair Bolsonaro no mesmo 15 de outubro em que o pai dela era demitido do gabinete do Zero Um. Segundo o suplente de Flávio, um delegado da PF vazou para a família que os assessores seriam pegos pela Furna da Onça. E que, na condição de eleitor bolsonarista, batalhava internamente para que a operação fosse adiada para depois da eleição. Ainda de acordo com relato, assim que soube do vazamento, o presidenciável caminhou com a burocracia necessária para se livrar dos assessores.

Bolsonaro abortou

Também chegou à imprensa que, contrariando a narrativa de que a família Bolsonaro não contatava Queiroz desde a exoneração, sabe-se agora que Flávio e Jair tiveram participação ativa na estratégia da defesa do ex-assessor. Por exemplo, partiu do presidente eleito a ordem para que o investigado faltasse ao depoimento que daria em dezembro de 2018 ao Ministério Público do Rio de Janeiro.

Provas

Marinho tem provas da existência do encontro em que ouviu os relatos do próprio Flávio. Mas não registrou a conversa em si. Para evitar que sofra um infarto fulminante como o de Gustavo Bebianno, já conta com a segurança fornecida por Wilson Witzel, atual governador do Rio de Janeiro e um dos principais desafetos do presidente da República.

Estranha coincidência

Chamou atenção que a operação Cadeia Velha, que daria origem à Furna da Onça, foi coordenada por Alexandre Ramagem, o fantoche que Carlos Bolsonaro tentaria emplacar no comando da PF. O atual diretor-geral da ABIN encerrou a participação na força-tarefa um mês antes de o relatório do Coaf encontrar o nome de Queiroz. Mas se tornou o coordenador da segurança do presidente eleito apenas duas semanas após o vazamento resultar na demissão dos assessores bolsonaristas.

Estranhíssima coincidência

No Rio de Janeiro, o Ministério Público Federal já iniciou uma investigação. A PF também abriu um inquérito para apurar um eventual desvio de conduta. Mas a denúncia é tão grave que Augusto Aras, procurador-geral da República que se confunde com o advogado-geral da União, prometeu analisar se, no inquérito em que apura as acusações feitas por Moro, investiga o vazamento. Seria de grande valia se o PGR buscasse também entender se o vazamento da Furna da Onça tem alguma ligação com a denúncia anônima que, no mesmo 15 de outubro de 2018, acertou o nome do assassino de Marielle Franco, mas errou o do mandante.

Supremável

Seria, mas dificilmente será. Pois, como um cego que não quer ver, Aras tenta enxergar normalidade na reunião ministerial de 22 de abril passado, aquela em que Bolsonaro ameaçou demitir Moro caso não trocasse o comando da PF. Talvez porque o PGR esteja mais interessado em uma das indicações que o presidente da República fará para as duas vagas que surgirão no STF até o ano que vem. A sorte do país é que Celso de Mello aparentemente quer se despedir do gabinete do Supremo derrubando um presidente sociopata. E está hoje mesmo conferindo a tal bala de prata que pode acabar com Bolsonaro.

Desenhou

Curtas

  1. A natureza dele | Jair Bolsonaro está com ciúme até do destaque que a ala fardada do Palácio do Planalto tem tido ao blindar as lambanças cometidas pelo presidente da República.
  2. Vestiram a camisa | De tanto defender o chefe, alguns gestos dos militares já se confundem com os desmandos presidenciais sob investigação — o que é um perigo para todos os envolvidos.
  3. Chantagem | Em plena pandemia, o governo Bolsonaro evita socorrer estados e municípios caso os socorridos tenham ações na Justiça contra a União.
  4. Sem vacina | O governo Bolsonaro é tão nocivo que o Brasil nem chegou a ser convidado a participar de uma iniciativa internacional para a produção de uma vacina contra o novo coronavírus, o que deve atrasar a chegada de uma solução do tipo por aqui.
  5. Sem remédio | O Brasil de Bolsonaro também ficou de fora da lista de 127 países para os quais a patente do remdesivir, medicamento que de fato apresenta alguma eficácia contra a covid-19, foi liberada.
  6. Impeachment | Mesmo sem concordar que há chance de um impeachment de Bolsonaro prosperar, Lula apoiou a iniciativa de o PT pedir a abertura de um processo a Rodrigo Maia.
  7. Medalha de bronze | Com 254 mil casos confirmados, o Brasil superou o Reino Unido e se tornou a terceira nação com mais vítimas de covid-19.
  8. Desperdício | Mesmo sem eficácia comprovada, mas com riscos conhecidos, o Exército pagou pela matéria-prima da cloroquina quase seis vezes mais que o valor pago um ano antes.
  9. De novo | Donald Trump, que havia deixado para atrás o discurso em defesa da cloroquina, a exemplo de Jair Bolsonaro, ignorou os alertas da CIA sobre os riscos do medicamento, e agora diz estar tomando o remédio preventivamente, o que contradiz as recomendações da vigilância sanitária americana.
  10. À origem | Liderada pela Austrália, uma coalizão de 116 países, incluindo o Brasil, quer uma investigação independente para entender a origem da pandemia, o que irritou a China.

Um Pio

Abre Aspas

“E o pior de tudo é sair de um plantão caótico e ver gente nas ruas como se nada estivesse acontecendo. Pessoas bebendo, aglomerando, fazendo festinhas... Aí sim eu me sinto uma imbecil. Sinto que to enxugando gelo.”

Conclusão de um desabafo de uma médica que precisou trancar o próprio perfil após receber críticas dos governistas da vez — e por isso tem aqui a identidade preservada.

Vale Seguir

Lilly Wachowski tem mandado a real para quem usa referências de Matrix em benefício do neofascismo.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BBC, CBS, CNN Brasil, El País, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, IstoÉ, O Antagonista, O Globo, Infomoney, Poder 360, SBS, UOL, Valor Econômico, Veja e Vortex Media.

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 27 de novembro de 2018 por Wilson Dias, fotógrafo da Agência Brasil, em Brasília, Distrito Federal. Nela, Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro participam de entrevista à imprensa no CCBB.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque, apesar de tudo, seguimos vivos.

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Publicado por

Marlos Ápyus

Mais do que jornalista, um fã do jornalismo.

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