21.01.2020 - Brasília/DF - O presidente Jair Bolsonaro, o vice-presidente da República, General Hamilton Mourão e os ministros de estado participam de hasteamento da bandeira em frente ao Palácio da Alvorada. Foto: José Cruz/Agência Brasil
20 de maio de 2020

A aliança com o centrão prova que o governo Mourão pode acontecer

Ontem, o monitoramento da covid-19 superou pela primeira vez no Brasil a marca de mil óbitos em um único dia. Como bem apontou o roteirista Antonio Tabet, as 1.179 mortes equivaliam à soma de outras tragédias que pararam o país, como o rompimento das barragens de Brumadinho (270 vítimas fatais), o incêndio na boate Kiss (242), a queda do voo da Air France (228), a queda do avião da TAM (199), o massacre de Carandiru (111), a queda da aeronave da Chapecoense (71), a explosão no Osasco Plaza Shopping (40), o incêndio no Flamengo (10) e a chacina da Candelária (8). Mesmo assim, a primeira imagem que os brasileiros tiveram do presidente da República exibia Jair Bolsonaro sorridente fazendo um trocadilho de graça questionável com as palavras “cloroquina” e “Tubaína”, o que rendeu protesto da marca.

Na mesma noite, Lula surgiu cometendo uma frase extremamente infeliz, na qual celebrava o surgimento do novo coronavírus sob o argumento de que servira para que “percebam que apenas o Estado é capaz de dar a solução“. Mas, pedindo desculpas, o ex-presidente já reconheceu o vacilo na escolha dos termos. Alegou que queria nada mais do que enaltecer a importância do SUS perante a pandemia. Bolsonaro, no entanto, se dava a expediente bem pior.

Sabotagem

Porque, conforme explicou Luiz Henrique Mandetta, ao insistir no uso da cloroquina, o presidente tem por objetivo encontrar uma justificativa para a reabertura do comércio. O Planalto queria modificar até a bula do remédio. E hoje, mesmo sem eficácia comprovada, o Ministério da Saúde atendeu às exigências presidenciais liberando para todos os pacientes o uso de medicamento tão arriscado.

Por exemplo

O deputado estadual Gil Vianna, do mesmo PSL que elegeu Bolsonaro, vinha reagindo bem ao tratamento para covid-19. Ainda na noite de ontem, chegou a se comunicar à distância com um dos filhos. Mas teve uma piora repentina, precisou ser intubado, sofreu uma parada cardíaca, e morreu aos 54 anos de idade. Sim, ele se tratava com cloroquina. E, há mais de mês, a França reportara que vítimas do novo coronavírus tratadas com o medicamento apresentavam problemas cardíacos, com quatro delas vindo a falecer.

Questão do vírus

O Brasil somava 1.223 mortes por covid-19 quando, em 12 de abril, sem qualquer evidência científica, Jair Bolsonaro disse que “está começando a ir embora a questão do vírus“. Ontem o país dormiu de luto por quase 18 mil mortos. Os casos já são mais de 290 mil, incluindo o de Antonio Barra Torres, presidente da Anvisa que, na esperança de virar ministro da Saúde, acompanhava o presidente em manifestações golpistas. Diante deste quadro, Bolsonaro reclamou ontem que “no Brasil só tem gente com problema de vírus“.

“Na realidade”

Mas o Brasil tem outros problemas. Como a tentativa de aparelhamento da Polícia Federal por parte da família Bolsonaro. Celso de Mello ficou estarrecido com o vídeo apontado por Sergio Moro como prova, e deve levantar o sigilo da gravação ainda esta semana. Ontem, Carlos Henrique Oliveira deu um segundo depoimento aos investigadores. Contradizendo o primeiro, o diretor-executivo da PF afirmou que, “na realidade, foi procurado no dia 27 de abril pelo delegado Alexandre Ramagem, que perguntou para ele, depoente, se aceitaria ser diretor executivo da Polícia Federal durante a sua gestão“.

Caçando o vazamento

Na busca por quem poderia ter vazado a operação Furna da Onça, os investigadores perguntaram se Carlos Henrique Oliveira conhecia algum delegado “próximo de Jair Bolsonaro”. O diretor-executivo da PF citou Márcio Derenne, que em 2008 foi homenageado com a medalha Tiradendes por Flávio Bolsonaro. Vale lembrar, contudo, que Paulo Marinho explicou na entrevista que o vazamento veio de um delegado desconhecido da parte do então deputado estadual.

Uma semana depois do primeiro turno, o ex-coronel [Miguel] Braga, atual chefe de gabinete dele [Flávio Bolsonaro] no Senado, tinha recebido o telefonema de um delegado da Polícia Federal do Rio de Janeiro, dizendo que tinha um assunto do interesse dele, Flávio, e que ele gostaria de falar com o senador.

O Braga disse: “Ele está muito ocupado e não costuma atender quem não conhece”.

Paulo Marinho, suplente de Flávio Bolsonaro, narrando a história que o senador o contou em dezembro de 2018.

Grana partidária

Marinho já entregou à PF a prova de que o encontro com Flávio existiu. Também citado como testemunha do vazamento, Vitor Granado Alves, que já atuou como assessor de Flávio, está sendo contratado pelo gabinete do deputado estadual Anderson Moraes, do PSL. Lá, o advogado trabalhará na companhia da mãe do senador. Em fevereiro de 2019, o fundo partidário da sigla serviu para contratar o escritório de Alves. No mês seguinte, Flávio ainda empregou no próprio gabinete outra sócia da mesma empresa. Passados seis meses, ao sancionar a lei que alterava as regras para partidos e eleições, Jair Bolsonaro vetou o uso do fundo partidário para pagamento de multas, mas manteve o que permitia pagamento de advogados.

Popularidade em queda

Não à toa, a popularidade de Jair bolsonaro vem atingido novos pisos. Pelo monitoramento da XP Investimentos, as avaliações positivas caíram para 25%, contra metade do país que avalia o governo Bolsonaro negativamente. Mas cabe ressaltar que, indicando que a realidade há de ser ainda pior, o mesmo método previu a vitória de Bolsonaro 3 pontos percentuais acima do resultado do segundo turno de 2018.

Impeachment ou não?

Não à toa, o Palácio do Planalto tenta se blindar de um processo de impeachment mirando até mesmo o apoio do antigo PMDB. O presidente não deve ter percebido, contudo, que a aliança com o centrão evidencia que a ala mais fisiológica do Congresso teria espaço num futuro governo Mourão. E Dias Toffoli, o principal pilar de sustentação deste governo, ontem se deu a reclamar da “falta coordenação” no combate ao novo coronavírus, e da ausência de medidas que “deem tranquilidade” à população.

São sinais que não podem ser ignorados.

Desenhou

Curtas

  1. Direitos humanos | A Corte Interamericana de Direitos Humanos aceitou a ação do PSOL, do Instituto Vladimir Herzog e do Núcleo de Preservação da Memória Política contra o governo Bolsonaro, que teria descumprido parte da sentença que condenou o Brasil no caso da Guerrilha do Araguaia.
  2. Vacilão | Ao reclamar do marketing que o filho de Hamilton Mourão faz no Banco do Brasil, Carlos Bolsonaro cometeu o vacilo de publicar um screenshot em que surge logado na conta do presidente da república, coisa que ele admitiria na sequência, apesar de apagar o post original.
  3. Vivendo de mentiras | Como esperado, os canais que contam mentiras sobre a covid-19 têm o triplo da audiência daqueles que, no YouTube, contam verdades.
  4. Fritada | Regina Duarte, que vinha trabalhando sob a intervenção da deputada federal Carla Zambelli, finalmente deixou o comando da secretaria de Cultura, que deve cair no colo de Mário Frias, ator famoso pela participação na novela Malhação.
  5. Atuação | Negando a fritura, Regina foi rebaixada à direção da Cinemateca em São Paulo, onde ninguém sabia da "saída honrosa" costurada em Brasília.
  6. Intervenção militar | Com 17 militares nomeados no Ministério da Saúde, é difícil crer que a pasta sairá das mãos de Eduardo Pazuello, que segue atuando como interino.
  7. Luciano Hang | Para driblar as regras de isolamento social e ser considerada serviço essencial, a Havan passou a vender alimentos, ainda que com estoque meramente simbólico.
  8. Ao menos isso | Mais de 40 grandes empresas ligadas a finanças, pecuária, hotelaria e varejo assinaram uma carta contra a MP da Grilagem, sonho dos grileiros brasileiros.
  9. Indígenas | Enquanto isso, o governo Bolsonaro já certificou irregularmente 42 terras indígenas na Amazônia Legal.
  10. Mau exemplo | Usada por Bolsonaro como exemplo a ser seguido, a Suécia, que postergou ao máximo o isolamento social, se tornou o país com a maior taxa de mortalidade por coronavírus no mundo.

Um Pio

Abre Aspas

“"Não parece ser a hora de criar Tribunais."”

Gilmar Mendes, ministro do STF, analisando a inoportuna instalação do TRF-6, um desejo de João Otávio Noronha, presidente do STJ.

Vale Seguir

Carol Pires é uma das jornalistas brasileiras que mais se prepara para qualquer que seja a missão.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: CNN Brasil, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, InfoMoney, Jovem Pan, O Antagonista, O Globo, Pública, UOL, Valor Econômico e Veja.

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 21 de janeiro de 2020 por José Cruz, fotográfo da Agência Brasil, em Brasília, Distrito Federal. Nela, o presidente Jair Bolsonaro, o vice-presidente da República, General Hamilton Mourão, e os ministros de estado participam de hasteamento da bandeira em frente ao Palácio da Alvorada.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque, mais do que nunca, não há lugar como nosso lar.

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Publicado por

Marlos Ápyus

Mais do que jornalista, um fã do jornalismo.

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