27.11/2018 - Brasília/DF - Jair Bolsonaro concede entrevista à imprensa, no CCBB. Foto: Wilson Dias/Agência Brasil
21 de maio de 2020

O delegado que vazou a Furna da Onça aos Bolsonaros é conhecido na PF por um apelido

Mesmo com a Organização Mundial de Saúde reforçando que não foi comprovada a eficácia da cloroquina no combate à covid-19, o Ministério da Saúde trabalha para aumentar os estoques do medicamento. O Governo Federal quer comprimidos suficientes para 375 mil tratamentos, cem mil a mais do que o total de casos confirmados no Brasil desde o início da pandemia.

Ontem, Luiz Henrique Mandetta revelou que, por intermédio da Anvisa, o governo Bolsonaro tentou alterar até a bula do remédio, mas não obteve sucesso. Quanto ao protocolo que liberou o uso da cloroquina para qualquer vítima do novo coronavírus, não era protocolo, não obrigava o SUS a fazer uso da droga, e nem assinatura trazia.

Ministério de milicos

O Brasil enfrenta a pior crise sanitária em cem anos com o Ministério da Saúde entregue a militares. De doze nomeados por Eduardo Pazuello, exatamente nenhum é formado em medicina. Um deles, inclusive, espalhava nas redes sociais mentiras sobre a cloroquina, e ofensas contra a OMS. Não à toa, o general que atua como interino vem precisando se aconselhar com Nelson Teich, o ministro que se demitiu antes de completar o primeiro mês de fritura da parte de Jair Bolsonaro.

Pior do que câncer

Mantido o ritmo de óbitos contabilizados na última terça-feira, o Brasil terá, ao término de um ano, perdido 430 mil pessoas para a covid-19. Por isso se chegou à conclusão de que o novo coronavírus já mata diariamente mais do que câncer (com 230 mil mortes em 2019) e problemas do coração (com 100 mil mortes no mesmo período) somados. As curvas de casos e óbitos, todavia, seguem em crescimento acelerado, comprovando que o país ainda não chegou ao pico da pandemia, e continua longe de controlar a situação.

Tá lá uma narrativa no chão

Mas não só as narrativas governistas sobre o novo coronavírus são desmascaradas. As que defendem a interferência bolsonarista na Polícia Federal têm o mesmo desfecho. Ontem, caiu mais uma, a de que Bolsonaro estaria insatisfeito com a apuração do atentado cometido por Adélio Bispo em 2018. Cairo Duarte, superintendente da PF mineira, garantiu em depoimento que o presidente da República nunca oficializou qualquer contrariedade ao resultado apresentado pelos investigadores.

Quem cala

O calo no sapato presidencial, contudo, parece vir do vazamento da operação Furna da Onça. Desde que Paulo Marinho contou que Nathália e Fabrício Queiroz foram exonerados após Jair e Flávio Bolsonaro serem alertados da investigação, o “Recruta Zero” tem evitado a imprensa.

Devassa

O suplente do senador já deu um depoimento, e causou um impacto positivo no Ministério Público Federal. Chegou à imprensa, contudo, que “alguém poderoso” estaria disposto a fazer de Marinho um novo Francenildo, e exigiu “informalmente” dados bancários do depoente. Mas a defesa prometeu pedir uma investigação sobre a devassa ilegal que estariam fazendo no sigilo do empresário.

Mesma data

O 15 de outubro de 2018, no entanto, não foi apenas a data em que Jair e Flávio Bolsonaro respectivamente exoneraram Nathalia e Fabrício Queiroz. Foi também o dia em que uma denúncia anônima acertou o nome do assassino de Marielle Franco, mas errou o do mandante.

Falso testemunho

Naquela segunda-feira, um anônimo entregou que Ronnie Lessa recebera R$ 200 mil de Marcello Siciliano para matar Marielle. Durante as investigações, uma testemunha chegou a garantir às polícias Civil e Federal que o vereador planejara a morte da vereadora juntamente com o ex-policial Orlando Curicica. Mas a Procuradoria-geral da República concluiria que a execução teria sido, na verdade, arquitetada por Domingos Brazão, um conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro. Teria, inclusive, partido dele a ideia de usar um falso testemunho contra o adversário político.

Cinco suspeitos

Ao explicar a obstrução de Justiça, a PGR listou um total de cinco suspeitos. Dentre eles, Hélio Khristian Cunha de Almeida. O delegado da Polícia Federal foi justamente quem apresentou a testemunha falsa. No passado, ele havia tentando extorquir o vereador Siciliano. Em 2013, Hélio chegou a ser condenado por um esquema de cobrança de propinas de empresários, mas a decisão seria anulada. A PF, inclusive, já descobriu ligações dele com Gilberto Ribeiro da Costa, um ex-agente da própria corporação que trabalhou no gabinete de Brazão no TCE.

O desconhecido

Na busca por quem vazou a Furna da Onça, o diretor-executivo da PF precisou responder em depoimento se conhecia algum delegado próximo a Jair Bolsonaro. Carlos Henrique Oliveira de Sousa respondeu: Marcio Derenne. De fato, em 2008, Flávio Bolsonaro usou a ALERJ para uma homenagem a este delegado. Mas o relato de Paulo Marinho descrevia o “vazador” da Furna da Onça como alguém que em 2018 ainda não conhecia o senador eleito.

A aposta

Nas redes sociais, as bancas de aposta preferiram apontar o dedo para Alexandre Ramagem, que assumiu a segurança de Bolsonaro duas semanas após a exoneração de Fabrício e Nathália Queiroz. A jornalista Thaís Oyama, entretanto, garante que o vazamento não partiu do fantoche que Carlos Bolsonaro tentou emplacar no comando da PF, mas de alguém “conhecido na corporação por um apelido“.

O aposto do aposto do aposto do aposto

É claro que deve haver muito policial federal conhecido internamente por uma alcunha qualquer. E nenhuma hipótese merece ser descartada. Em todas as matérias referenciadas mais acima, contudo, só um nome é eclipsado pelo apelido popularizado na corporação: Hélio Khristian, conhecido como HK, o delegado que teria ligações com Gilberto da Costa, aquele ex-agente da própria PF que atuou com Domingos Brazão, o tal conselheiro do TCE que, segundo a PGR, teria arquitetado a morte de Marielle Franco.

Desenhou

Curtas

  1. Recuo? | Pouco após fazer novas críticas públicas, Jair Bolsonaro se fingiu de aliado em reunião com os governadores do país — e João Doria aparentemente acreditou no tom moderado.
  2. Ah, tá | Augusto Heleno, contra quem há mais certezas do que dúvidas, garantiu que as Forças Armadas não vão tentar dar um golpe ou intervenção militar.
  3. Blindagem | O STF formou maioria para manter a Medida Provisória que blinda agentes públicos da responsabilização por erros cometidos durante a pandemia, mas definirá como exceção qualquer medida que contrarie a ciência, ignore princípios constitucionais, e viole o direito à saúde, o que é uma nítida derrota para Bolsonaro.
  4. Renda mínima | Sem fiscalização eficiente, o auxílio emergencial de R$ 600,00 chegou a ser sacado por militares, servidores e até jovens de classe média, que precisarão devolver a verba aos cofres públicos.
  5. Fake news | A versão brasileira do Sleeping Giants tem convencido anunciantes a boicotarem veículos bolsolavistas focados em desinformação, e isso tem tirado o sono até da SECOM.
  6. Rombo milionário | Rebaixada à Cinemateca, Regina Duarte precisará aprender a trabalhar com um caixa ironicamente no vermelho.
  7. Bichos, voltem pros lixos | Demorou muito, mas o mercado brasileiro está finalmente se tocando que Jair Bolsonaro atua como uma espécie de repelente de investimentos.
  8. Catástrofe | Especialistas estão calculando que a covid-19 há de matar pelo menos cem mil brasileiros — hoje, foi dia de novo recorde: 1.188 mortes contabilizadas em apenas 24 horas.
  9. Oposição unida | Mais de 400 entidades, incluindo seis partidos de oposição, se uniram em um pedido de impeachment de Bolsonaro entregue na manhã de hoje.
  10. Universo em desencanto | A Nasa descobriu na Antártida evidências de que o big bang pode ter gerado não um, mas dois universos, com o segundo funcionando de forma que o tempo corra ao contrário.

Um Pio

Abre Aspas

“O presidente não deveria fazer uso político de algo tão sério.”

José Serra, senador, comunicando que apresentou um projeto de decreto legislativo para sustar o protocolo que recomenda uso precoce de cloroquina em pacientes com covid-19.

Vale Seguir

Além de gremista e fã de Star Wars, Guilherme Macalossi apresenta o Cruzando as Conversas na RDC TV, e o Confronto na Rádio Sonora FM.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: CNN Brasil, El País, Época, Estadão, Exame, Folha de S.Paulo, G1, O Antagonista, O Globo, Poder 360, UOL, Valor Econômico e Veja.

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 27 de novembro de 2018 por Wilson Dias, fotógrafo da Agência Brasil, no Centro Cultural Banco do Brasil. Nela, Jair Bolsonaro concede entrevista à imprensa.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque você não sabe como é caminhar com a cabeça na mira de uma HK.

Gostou do que leu?

Gostaria de ajudar? Clique aqui e saiba como.

Publicado por

Marlos Ápyus

Mais do que jornalista, um fã do jornalismo.

Deixe uma resposta