15.05.2020 - Brasília/DF - Presidente Jair Bolsonaro e a primeira dama durante Lançamento da Campanha de Conscientização e Enfrentamento à Violência Doméstica. Foto: Marcos Corrêa/PR
2 de junho de 2020

Jair Bolsonaro conseguiu as 30 mil mortes, falta a guerra civil

Em 1999, Jair Bolsonaro concedeu uma polêmica entrevista ao programa “Câmera Aberta”, da Band. De uma longa sequência de absurdos, ficou na memória o trecho no qual diz que o país só melhoraria “quando nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro, e fazendo o trabalho que o regime militar não fez, matando uns 30 mil“. Depois de citar o ainda presidente Fernando Henrique Cardoso como o primeiro a ser executado, o deputado federal acrescentou: “se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente“.

FHC continua vivo. Mas o Brasil, com mais um recorde diário, totalizou hoje 31.199 mortes por covid-19. E é preciso deixar claro para a história: o principal responsável por tamanha tragédia se chama Jair Messias Bolsonaro, que a todo tempo, em uma agenda eugenista, trabalha para atrapalhar o combate à pandemia, e se aproveitar do caos para protagonizar um golpe de Estado.

Lamenta, mas…

Provocado a enviar uma mensagem de conforto às famílias em luto, disse que “lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo“. Em outras palavras, não lamenta. O que, vindo de que vem, nem surpreende, mas garante uma dose gigantesca indignação.

6,8%

O mundo lida com o novo coronavírus há 133 dias. O Brasil, há quase cem, com os últimos 18 sem ministro da Saúde. Mesmo assim, até 27 de maio, o governo Bolsonaro gastou apenas 6,8% dos recursos disponibilizados à pasta para execução direta no combate à pandemia. Mais de trinta mil mortes depois, o Ministério Público Federal resolveu finalmente apurar o que (não) está acontecendo.

Prioridades

Antes, Augusto Aras preferiu fazer mais um afago na retórica golpista dos fardados do Palácio do Planalto, e defendeu que as Forças Armadas poderiam intervir para garantir a independência dos poderes. Hoje, após a reação extremamente negativa, o procurador-geral da República soltou uma nota para garantir que a Constituição Federal “não admite intervenção militar” — era exatamente o que um parecer da OAB havia concluído.

Entre o céu e a terra

Mas há algo estranho no ar. Na semana passada, alguém entregou à Veja o nome e sobrenome do coronel que comanda a “ABIN paralela” dentro do Palácio do Planalto. Ontem, a Crusoé ficou sabendo que Augusto Heleno funciona como uma espécie de Palpatine que tenta convencer o presidente da República a ceder ao lado obscuro da Força. E até blogueiro sujo anda espalhando que o Exército estaria traindo Bolsonaro.

Outro lado

Em paralelo, Hamilton Mourão foi enfático ao garantir que não há risco de o Brasil viver um novo golpe militar. E Rodrigo Maia qualificou de “inaceitável” mais uma participação do presidente da República em manifestação golpista. De quebra, estendeu as críticas a Fernando Azevedo e Silva, o ministro da Defesa que, no domingo, acompanhou Bolsonaro no passeio de helicóptero.

Empreiteira verde-oliva

A imprensa também atentou a um vespeiro: as obras de infraestrutura tocadas pelo Exército. Com Bolsonaro, a empreiteira verde-oliva já executa um bilhão de reais em orçamento, o que gera ciúme nas empreiteiras tradicionais que foram pegas por infindas operações da Polícia Federal. Mas os militares se permitem tais missões ao menos desde quando Lula queria convencê-los a aceitar como presidente uma senhora vista na caserna como terrorista. De lá para cá, a vista andou grossa, e só virou manchete o caso do vice-almirante da Marinha condenado a 43 anos por corrupção nas obras da usina nuclear de Angra 3.

Traidores da Pátria

Por enquanto, os fardados só precisam se preocupar com o inquérito que Alexandre de Moraes toca no STF, uma vez que já atingiu três integrantes da Assessoria Especial da Presidência. O trabalho tem potencial para derrubar não só o presidente, mas também o vice, o que certamente devolveria o Palácio do Planalto aos civis. Mas tudo indica que a queda de Bolsonaro virá por Celso de Mello, que já mandou indireta de “traidor da Pátria” à dupla que publicou nota golpista contrária à entrega dos celulares de Jair e Carlos Bolsonaro.

Ampliando a espionagem

Bolsonaro vem tentando se safar pregando que o decano do STF seria um juiz parcial. Com ajuda de André Mendonça, ministro da Justiça que age sob a fiscalização frouxa do senador Nelson Trad e do deputado federal Eduardo Bolsonaro, o presidente agregou a espionagem das polícias militares ao time que alimenta o presidente de informações.

Blindagem

Como gesto mais caro aos cofres públicos e ao próprio discurso, comprou o apoio do centrão com R$ 6,2 bilhões em emendas, um recorde. Contra Sergio Moro, tais parlamentares estão dispostos a engavetar a investigação sobre a interferência de Bolsonaro na PF. Ao mesmo tempo, calculam que não querem peitar o STF, que anda mais unido do que nunca contra o presidente.

Em outras palavras, é bom já ir se preparando.

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Desenhou

Curtas

  1. Comprando amigos | Para driblar o rigor da imprensa nacional, a Secom se prepara para comprar com muita verba pública o apoio de pequenos veículos regionais ao governo Bolsonaro.
  2. Deu de ombros | Quatro dias após a embaixada de Israel pedir para os membros do governo Bolsonaro respeitarem a memória das vítimas do holocausto, Eduardo Bolsonaro comparou a situação dos "bolsolavistas" com a dos judeus na Alemanha nazista.
  3. Anonimato | Numa tentativa de intimidar o golpismo do presidente da República, um grupo hacker vazou dados pessoais de um punhado de integrantes da ala mais abilolada do governo Bolsonaro, mas as informações só serviram até o momento para alguns twitteiros comprarem produtos com o cartão de crédito presidencial.
  4. New kids on the black block | Provando que são uma versão 2.0 dos black blocs que aterrorizaram o país em 2013, os "antifas" romperam o isolamento social ontem para, em Curitiba, protagonizar cenas de vandalismo que certamente foram celebradas por quem eles imaginam combater.
  5. Quem ganha com a polarização | A radicalização da esquerda interessa tanto à direita que, nos Estados Unidos, um perfil que estimulava a violência antifa contra a morte de George Floyd era, na verdade, mantido por supremacistas disfarçados.
  6. Rachadinha | Até a filha de Fabrício Queiroz usou as redes sociais para se dizer "antifa" — o que soa um sinal de que os ex-assessores de Jair e Flávio Bolsonaro racharam com a primeira família.
  7. Sem acordo | Com os parlamentares batendo cabeça sobre a melhor forma de combater a proliferação de notícias falsas, o Senado adiou em uma semana a votação da Lei das Fake News.
  8. Inaceitável | Mesmo com o estado de São Paulo passando todo o mês de abril em quarentena, a Polícia Militar matou 53% mais do que em igual período de 2019 — o que ninguém está sabendo explicar.
  9. Pena | Para Ciro Gomes, Lula está tão mal com a falta de protagonismo na oposição que "chega a dar dó".
  10. Euismo | De fato, ao criticar a construção de uma frente ampla de oposição a Bolsonaro, e negar que FHC e Michel Temer sejam democratas, o ex-presidente mostra mais interesse em validar erros do passado do que construir um futuro para o partido que ajudou a fundar e afundar.

Um Pio

Abre Aspas

“Em que país do mundo as Forças Armadas são elevadas à condição de intérpretes da Constituição?”

Gilmar Mendes, ministro do STF, deixando claro que as interpretações golpistas do artigo 142 são "uma viagem de lunáticos".

Vale Seguir

No comando da revista Crusoé, Rodrigo Rangel não esquece que um das funções do jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que seja publicado.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Buzzfeed News, CNN Brasil, Congresso em Foco, Crusoé, Época, Estadão, Folha de S.Paulo, Gazeta do Povo, G1, O Antagonista, O Globo, O Tempo, UOL, Valor Econômico, Veja e Vortex Media.

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 15 de maio de 2020 por Marcos Corrêa, fotógrafo da Presidência da República, em Brasília, Distrito Federal. Nela, Jair Bolsonaro participa do lançamento da Campanha de Conscientização e Enfrentamento à Violência Doméstica.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque as promessas foram esquecidas, não há estado e não há mais nação.

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Publicado por

Marlos Ápyus

Mais do que jornalista, um fã do jornalismo.

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