Jair Bolsonaro e Henrique Mandetta
22 de junho de 2020

Como Jair Bolsonaro tentou sabotar o combate ao novo coronavírus

No sábado, quando o Brasil oficialmente contabilizou 50 mil óbitos por covid-19, um forte editorial do Jornal Nacional ressaltou que “a história vai registrar também aqueles que se omitiram, os que foram negligentes, os que foram desrespeitosos“. Mesmo sem citar nomes, todos entenderam a quem o texto se referia. Mas faz-se necessário um registro mais explícito. Ou corre-se o risco de, no futuro, o passado mais um vez ser deturpado por revisionistas. Nesse sentido, nada melhor do que listar os fatos em ordem cronológica.

26 de fevereiro de 2020:
O Brasil confirma o primeiro caso de covid-19.

15 de março de 2020, 162 casos confirmados:
Ignorando o isolamento social, Jair Bolsonaro participa do primeiro de vários atos golpistas que, aos domingos, contariam com a presença do presidente da República.

17 de março de 2020, 1 morto:
Mesmo com a notícia da primeira vítima fatal da covid-19, Jair Bolsonaro não esconde que o protagonismo do ministro da Saúde o incomoda, e promete organizar uma festa de aniversário para mais de mil de convidados.

20 de março de 2020, 11 mortos:
Jair Bolsonaro argumenta que, “depois da facada, não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar“.

24 de março de 2020, 46 mortos:
Jair Bolsonaro ocupa cadeia de rádio e TV para, com um sorriso cínico, pregar contra o isolamento social. No pronunciamento, alegaria que, por possuir um histórico de atleta, estaria protegido contra o que novamente chama de “gripezinha”.

25 de março de 2020, 59 mortos:
Após Jair Bolsonaro defender um relaxamento do isolamento social, os Correios passaram a descontar parte da remuneração dos funcionários que estavam em quarentena.

28 de março de 2020, 111 mortos:
A Justiça Federal impede que o governo Bolsonaro veicule uma campanha contra o isolamento social.

30 de março de 2020, 159 mortos:
Jair Bolsonaro esvazia o comitê de crise, e endossa uma mentira que reverberava nas redes sociais sobre uma morte acidental ter inflado números da como covid-19.

1º de abril de 2020, 240 mortos:
Pregando contra o isolamento social, Jair Bolsonaro compartilha um vídeo falso sobre um desabastecimento que, na verdade, não ocorria em lugar nenhum.

2 de abril de 2020, 324 mortos:
Reclamando que os governadores estariam com “medinho” da doença, Jair Bolsonaro diz que só faltava apoio popular para assinar um decreto já pronto contra o isolamento social.

13 de abril de 2020, 1.328 mortos:
Bolsonaro veta o uso de dados de celulares no mapeamento do isolamento social.

16 de abril de 2020, 1.924 mortos:
Jair Bolsonaro demite Luiz Henrique Mandetta porque o ministro da Saúde cometia o pecado de ignorar a insanidade presidencial e trabalhar em sintonia com a OMS.

17 de abril de 2020, 2.141 mortos:
Jair Bolsonaro volta a defender a abertura do comércio, mas promete assumir a responsabilidade caso a a situação piorasse. Na mesma data, Bolsonaro pede ao ministro da Justiça para reabrir as fronteiras do país.

19 de abril de 2020, 2.462 mortos:
Em sintonia com o chefe, o pior ministro da Educação de todos os tempos promete premiar universidades que sabotem o isolamento social.

20 de abril de 2020, 2.587 mortos:
Ao ser alertado do alto número de mortes naquele dia, Jair Bolsonaro respondeu a um jornalista: “Eu não sou coveiro, tá certo?

22 de abril de 2020, 2.906 mortos:
Em reunião ministerial, Jair Bolsonaro reclama que o diretor-geral da Polícia Rodoviária, que viria a ser demitido por causa da homenagem, não destacou na nota as comorbidades de um policial morto pela covid-19.

27 de abril de 2020, 4.603 mortos:
O presidente é alertado pela Abin que a pandemia avançava com tanta força no Norte do país que já provocava caos nos cemitérios de Manaus, mas o alerta é ignorado.

28 de abril de 2020, 5.083 mortos:
Ao ouvir uma repórter citar que o Brasil superou a China no total de mortos por covid-19, Jair Bolsonaro responde: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Sou Messias, mas não faço milagre“.

11 de maio de 2020, 11.653 mortos:
Jair Bolsonaro inclui academias e salões de beleza como serviços essenciais, e cogita vetar o pagamento de auxílio emergencial às categorias, o que forçaria uma exposição dos profissionais aos riscos da pandemia.

13 de maio de 2020, 13.240 mortos:
Jair Bolsonaro finalmente apresenta o exame negativo para covid-19, uma prova que sonegava à opinião pública havia dois meses.

14 de maio de 2020, 13.999 mortos:
Jair Bolsonaro edita uma Medida Provisória isentando de responsabilidade agentes públicos que, como ele, pecavam por ação ou omissão em atos relacionados à pandemia.

15 de maio de 2020, 14.962 mortos:
O governo Bolsonaro dificulta o acesso ao auxílio emergencial condicionando o socorro à retirada de ações contra a União da parte de estados e municípios.

Nessa mesma data, por não concordar com a insistência presidencial no uso da cloroquina, medicação cuja eficácia contra a covid-19 jamais foi comprovada, Nelson Teich se demite do comando do Ministério da Saúde.

16 de maio de 2020, 15.662 mortos:
Com a pandemia no 80º dia, o governo Bolsonaro tinha enviado aos estados menos de 3% dos respiradores prometidos.

25 de maio de 2020, 23.473 mortos:
Pela primeira vez, o Brasil foi o país que, em todo o mundo, contabilizou mais mortes por covid-19 num intervalo de 24 horas.

27 de maio de 2020, 25.598 mortos:
Mesmo com a pandemia no 92º dia, o governo Bolsonaro havia pago menos de 7% dos R$ 11,74 bilhões disponibilizados para execução direta no combate à pandemia.

28 de maio de 2020, 26.764 mortos:
O governo Bolsonaro revogou uma portaria que obrigava a adesão ao isolamento social da parte de indivíduos com suspeita de covid-19.

3 de junho de 2020, 32.548 mortos:
Mesmo após cometer crimes de responsabilidade a rodo, Jair Bolsonaro usa o temor de um processo de impeachment para vetar o uso de R$ 8,6 bilhões —de um fundo que nem mais existia— no combate à covid-19.

5 de junho de 2020, 35.026 mortos:
Jair Bolsonaro pressiona o Ministério da Saúde para dificultar o acesso da imprensa e da população às estatísticas sobre o avanço da covid-19 no Brasil.

11 de junho de 2020, 40.919 mortos:
Jair Bolsonaro recomenda que os próprios apoiadores invadam hospitais de campanha em busca de provas de que estariam vazios — o que, mesmo carecendo de qualquer fundamento, resultou em tumultos nos dias que se seguiram.

Nesta mesma data, o presidente diz ter vetado o trecho de um projeto de lei que permitia a síndicos de todo o país barrar festas em condomínios.

19 de junho de 2020, 48.954 mortos:
O Brasil supera o milhão de casos, e ainda quebra o recorde mundial de diagnósticos confirmados em um único dia. Jair Bolsonaro, no entanto, estava mais preocupado em reabrir o comércio e acabar com as tomadas de três pinos.

20 de junho de 2020, 49.967 mortos:
Desde o início da pandemia, de 632 compromissos na agenda presidencial, apenas 47 tinham alguma relação com o combate ao novo coronavírus. No mês anterior, tinham sido apenas seis.

21 de junho de 2020, 50.591 mortos:
Como o governo Bolsonaro nada faz neste sentido, o Congresso Nacional se compromete a decretar luto pelos mais de 50 mil brasileiros mortos.

Nesta mesma data, Carlos Bolsonaro, que é quem de fato manda no pai, solta uma nota de pesar pela instauração do socialismo na Argentina — algo que só acontecia na mente lunática do Zero Dois.

22 de junho de 2020, 51.271 mortos:
Mesmo diante da maior emergência sanitária em um século, o Brasil completa 38 dias sem ministro da Saúde.

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Desenhou

Curtas

  1. Atropelamento e fuga | Antes de ser exonerado, Abraham Weintraub usou o passaporte diplomático do Ministério da Educação em fuga para Miami, onde evitaria uma prisão decretada pelo STF.
  2. Tudo teatro | Dias antes, contudo, já era notícia que o pior ministro da Educação da história tentaria deixar o MEC forçando uma imagem de "mártir" perseguido pelo sistema.
  3. Vai feder | Como esperado, Jair Bolsonaro vem tendo dificuldades para encontrar alguém que tope comandar o MEC em clima de fim de feira, mas já "namora" Renato Feder, secretário de educação do Paraná, e maior doador da campanha de... João Doria.
  4. Pois é... | Enquanto o presidente não encontra um substituto, Antônio Paulo Vogel, ex-secretário do então ministro Fernando Haddad, seguirá comandando o MEC interinamente.
  5. Quem acredita? | Após lembrar a família Bolsonaro de que possui nove procurações do sobrenome, Frederick Wassef corroborou a lorota de Flávio e Jair, garantiu que ambos não sabiam do paradeiro de Fabrício Queiroz, e renunciou ao caso.
  6. Era ele | Hoje, a jornalista Thais Oyama confirmou um burburinho que corria no final de semana: a pessoa próxima a Jair Bolsonaro que tentou sequestrar um colunista de O Globo era, sim, Frederick Wassef.
  7. Em casa | Para a missão de Wassef, Flávio Bolsonaro contratou o ex-advogado de Sérgio Cabral, ou melhor, do ex-governador do Rio de Janeiro que já acumulou 267 anos em 12 condenações por corrupção.
  8. Narrativa | O senador tem trabalhado a narrativa de que a PF não viu problema no patrimônio do Zero Um, mas é preciso ressaltar que o engavetamento do caso não se deu no inquérito das rachadinhas, foi feito por um delegado que fazia lobby junto à família, e a conclusão nasceu de uma simples consulta ao IRPF de Flávio, além de um papo com o próprio.
  9. Perdendo a razão | Mario Frias, ex-galã da novela Malhação, está longe de ser um bom quadro do governo Bolsonaro, mas bem que a Folha de S.Paulo poderia ter anunciado a definição do novo Secretário de Cultura sem apelar para uma provocação homoerótica.
  10. A revolução não será instagramada | Fãs de K-Pop se mobilizaram pelo pelo TikTok para confirmar presença num comício de Donald Trump, que aguardava mais de um milhão de eleitores no evento, mas discursou indignado para uma arena esvaziada.

Um Pio

Abre Aspas

“Mas a história vai registrar também aqueles que se omitiram, os que foram negligentes, os que foram desrespeitosos. A história atribui glória e atribui desonra. E história fica pra sempre.”

William Bonner e Renata Vasconcelos, jornalistas, lendo o editorial do Jornal Nacional a respeito dos 50 mil óbitos por covid-19 no Brasil.

Vale Seguir

Em ano de eleição nos Estados Unidos, o FiveThirtyEight, com uma visão mais sóbria das pesquisas eleitorais, produz um conteúdo obrigatório.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Agência Brasil, BR Político, CNN Brasil, Correio Braziliense, Época, Estadão, Estado de Minas, Exame, Folha de S.Paulo, G1, Jornal Nacional, Jovem Pan, Metrópoles, NY Times, O Antagonista, O Globo, UOL, Último Segundo e Veja.

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 20 de março de 2020 por Isac Nóbrega, fotógrafo da Presidência da República, em Brasília, Distrito Federal. Nela, Jair Bolsonaro e ministros participam de videoconferência com representantes da iniciativa privada.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque certas pessoas só querem que o brasileiro se top top top.

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Publicado por

Marlos Ápyus

Mais do que jornalista, um fã do jornalismo.

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