11.02.2020 - Brasilia/DF - O presidente Jair Bolsonaro o vice Hamiltom Mourão durante cerimônia de Assinatura do Decreto de Criação do Conselho da Amazônia. Foto:Isaac Amorim/MJSP
23 de junho de 2020

Governo Bolsonaro: o começo do fim?

Nem passa pela minha cabeça. O nosso presidente se chama Jair Bolsonaro, seu primeiro governo vai até 2022. E, se o povo brasileiro assim o quiser, ele prossegue até 2026“. As aspas partiram de Hamilton Mourão ao responder se estava preparado para eventualmente assumir a Presidência da República. O mais estranho, contudo, é o vice-presidente precisar oferecer esse tipo de garantia num governo que ainda não completou um ano e meio de mandato.

Durante os 65 meses em que presidiu o Brasil, foram protocolados o recorde de 68 pedidos de impeachment contra Dilma Rousseff, pouco mais de um por mês. Em menos de 18 meses, numa intensidade duas vezes e meia maior, já há 44 pedidos contra Bolsonaro. E a conta pode crescer em breve.

Acelera, impeachment

Pois o texto com mais peso ainda está em formulação. Contudo, em decorrência da prisão de Fabrício Queiroz, a OAB deu a ordem para pisar no acelerador. As 27 seccionais já estão sendo consultadas. A decisão final, no entanto, caberá aos 81 integrantes do Conselho Federal da entidade.

Da ativa e da reserva

O refúgio de Queiroz numa casa de um dos advogados da família Bolsonaro permitiu também que “setores governistas que se decepcionaram com Bolsonaro” passassem a trabalhar por um governo Mourão. A frota incluiria “militares da ativa e da reserva“.

Poetas

Os da ativa andaram tendo conversas com Gilmar Mendes, Fernando Henrique Cardoso e Rodrigo Maia. Não foram conclusivas, mas, desde a coisa chata que rolou em Atibaia, as vozes mais radicais da caserna silenciaram tanto em público, como nos grupos privados.

Antigolpismo

Juntamente com Alexandre de Moraes, Maia tem se encontrado com empresários, políticos e juristas na articulação de uma frente em defesa da democracia. Todavia, a “Abin clandestina” contou a Bolsonaro ainda em abril que a articulação entre Maia, Davi Alcolumbre e ministros do STF mirava justamente um impeachment do presidente da República.

Cravos e ferraduras

É verdade que a sabujice de Augusto Aras segue promovendo constrangimentos históricos, como o pedido para que o Ministério Público não questione ações de governo. Contudo, o inquérito que mais estrago tem feito na base bolsolavista foi aberto pelo próprio PGR, e justamente um dia após o encontro vazado pela “Abin clandestina”. Oficialmente, a iniciativa reagia ao discurso golpista do próprio Bolsonaro em frente ao Exército. Que certamente reagia à fofoca trazida pelos arapongas do Planalto.

Fala mansa

Se, no 19 de abril, Bolsonaro falou grosso, após a prisão de Queiroz, destacou Jorge de Oliveira (secretário-geral), André Mendonça (ministro da Justiça) e José Levi (advogado-geral da União) para uma fala mansa diante de Moraes. Entretanto, tudo indica que o ministro do Supremo já percebeu que Bolsonaro jamais recua, apenas “ganha tempo”. E reagiu com frieza à proposta de trégua.

Strike

No follow the money, o trabalho da PGR contra manifestações antidemocráticas já prendeu 7 extremistas, e atingiu 26 pessoas físicas e jurídicas, além de 11 congressistas bolsolavistas, com 4 deles usando cota parlamentar no financiamento dos atos.

O óbvio

Os investigadores finalmente perceberam o que todo mundo enxergava a olho nu nas redes sociais: a retórica golpista dos milicianos digitais rendia dezenas de milhares de dólares nas transmissões ao vivo dos atos que contavam com a participação de Bolsonaro. Não por acaso, os bolsolavistas já apagaram mais de 2 mil vídeos do YouTube. Não por acaso, o TCU deu dois dias para o Banco do Brasil ignorar as ordens de Carlos Bolsonaro e parar de exibir anúncios nos canais dos blogueiros sujos.

O pior do mundo

As trapalhadas de Fredrick Wassef fizeram com que Bolsonaro perdesse 25% da popularidade que tinha nas redes sociais. Dentre 53 líderes analisados em todo o mundo, o brasileiro é dono da pior avaliação no combate à covid-19. Por aqui, se um quinto da nação ainda insiste que o governo do maldito seria bom ou ótimo, cresceu de 48% para 54% a parcela que o considera ruim ou péssimo. Até a rejeição a um golpe militar saltou de 46% em 2018 para 70% em 2020.

Prova dos nove

Na dúvida, o comportamento de Carluxo, que até o foro especial há de perder, é sempre um termômetro confiável. Na sexta-feira, voltou a atacar Mourão, e não deve ter sido porque confia na lealdade do vice.

“Jamais vai falar”

O senhor se sente preparado para eventualmente assumir a Presidência da República?” A espontaneidade da questão formulada pela CNN Brasil lembra a da pergunta feita por José Luiz Datena em março a Bolsonaro: “O senhor daria um golpe?” Foi quando o presidente da República se permitiu um raro momento de sinceridade: “quem quer dar um golpe jamais vai falar que vai dar“. Da mesma forma, um vice-presidente que se sente pronto para eventualmente assumir a Presidência da República, enquanto o titular estiver com a faixa, jamais vai assumir que se sente.

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Desenhou

Curtas

  1. PF nas ruas | O dia amanheceu com a Polícia Federal mais uma vez tentando prender a esposa de Fabrício Queiroz, mas Márcia Oliveira Aguiar também não foi encontrada na casa dos parentes mineiros do "faz tudo" dos Bolsonaros.
  2. Seguindo o dinheiro | O Ministério Público de Contas quer apurar se houve tráfico de influência na celebração de R$ 41,6 milhões em contratos entre o governo Bolsonaro e a Globalweb Outsource, empresa ligada à socia de Frederik Wassef, o advogado de Bolsonaro que por um ano hospedou Fabrício Queiroz numa casa em Atibaia.
  3. Ficou indignado | Frederick Wassef, que anda agitado, chorando e causando preocupação, tem pressionando a família Bolsonaro para que não mais trabalhe com Karina Kufa, advogada que responde pelo presidente da República no TSE.
  4. Calma lá | Para não dar na cara que contribuiu com a "fuga" de Abraham Weintraub, o governo Bolsonaro publicou uma "retificação" adiantando em um dia a exoneração, o que faz com que o pior ministro da Educação tenha pisado em solo americano já desempregado — mas teria usado passaporte diplomático mesmo assim?!
  5. Arrumando a casa | Aos cuidados de um interino, o Ministério da Educação revogou a última maldade de Abraham Weintraub na pasta, aquela que derrubava a portaria estipulando cotas para negros, indígenas e pessoas com deficiência na pós-graduação.
  6. Diretos desumanos | A Justiça Federal deu 5 dias para que Damares Alves pare de sonegar os dados sobre a violência policial em 2019.
  7. "Legalista sem ser extremista" | Se depender de empresários do Sul do país, Sergio Moro não só será candidato a presidente, como a candidatura ocorrerá por um partido criado do zero — a missão é bem difícil de se concretizar, Bolsonaro que o diga.
  8. Praga | Provando que os roteiristas da história do Brasil são fãs de novelas bíblicas da Record, uma nuvem de gafanhotos se aproxima do país pela Argentina.
  9. Revolta evangélica | Um grupo de bispos e pastores da Igreja Universal do Reino de Deus está, em Angola, rompendo com a gestão brasileira e tomando para si dúzias de templos sob a alegação de que a direção cometia evasão de divisas, racismo e até imposição de vasectomia.
  10. Racismo em série | Depois de "Gone with the Wind", é a vez de "30 Rock", a pedido da própria Tina Fey, passar por um processo de limpeza, com quatro episódio sendo excluídos das plataformas de streaming por alguns personagens surgirem maquiados como membros de outras etnias.

Um Pio

Abre Aspas

“Se a pessoa sabe que o racismo é estrutural, ela deve ficar ainda mais responsável pelo seus atos.”

Silvio Almeida, jurista, apontando saídas em mais uma edição história do Roda Viva.

Vale Seguir

O Observatório Covid-19 BR reúne um grupo de cientistas e professores com o objetivo de combater o avanço do novo coronavírus espalhando ciência.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Agência Pública, BBC Brasil, B9, BR Político, CNN Brasil, Congresso em Foco, Correio Braziliense, Época, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, Jota, O Antagonista, O Globo, Poder 360, UOL e Valor Econômico.

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 11 de fevereiro de 2020 por Isaac Amorim, Fotógrafo do Ministério da Justiça, em Brasília, Distrito Federal. Nela, Jair Bolsonaro e o vice Hamiltom Mourão participam da cerimônia de Assinatura do Decreto de Criação do Conselho da Amazônia.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque ódio é o veneno que tomamos querendo que o outro morra.

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Publicado por

Marlos Ápyus

Mais do que jornalista, um fã do jornalismo.

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