10.06.2020 - Brasília/DF - O presidente Jair Bolsonaro, Paulo Guedes durante videoconferência. Foto: Isac Nóbrega/PR
29 de junho de 2020

Paulo Guedes colabora para que “liberal” volte a ser xingamento

O Brasil terminou 2019 com dez entre dez “especialistas” celebrando o que tratavam como o início de um novo ciclo virtuoso da economia. O otimismo nascia da aprovação em outubro da reforma da Previdência, uma pauta que se arrastava por longos vinte anos. Só em março, contudo, a realidade se impôs: o Produto Interno Bruto havia crescido no primeiro ano do governo Bolsonaro o mesmo 1,1% conquistado pelo governo Temer nos dois últimos anos de gestão.

Desde então, Paulo Guedes se habituou a dizer que o país estava decolando quando o novo coronavírus “atrasou os trabalhos”. Mas algo do tipo só há de convencer quem não sabe que, mesmo na China, o isolamento social só passou a vigorar em janeiro de 2020.

Já é recessão

Agora, a FGV confirmou que o Brasil terminou o primeiro trimestre já em recessão. Ou seja… Enquanto o Ministério da Economia ainda projetava um crescimento ínfimo de 0,02% para 2020, a economia encolhia 1,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. Neste recorte, contudo, é possível falar em impacto da covid-19. Mas numa realidade em que o país tinha pouco mais de 5 mil casos, e “apenas” 201 óbitos.

Imprudência otimista

O otimismo que Guedes esbanjava naquele março estourava o limite. O ministro chegou a dizer que “morreram só 5 mil” chineses; que, “com R$ 5 bilhões a gente aniquila o coronavírus“; e que, na pior das hipóteses, o Brasil cresceria 1% em 2020. Mas ninguém foi mais insensível do que Solange Vieira. Aliada de Guedes, a chefe da Superintendência de Seguros Privados afirmou em reunião com o Ministério da Saúde que a morte de tantos idosos pela covid-19 ajudaria a melhorar as contas da Previdência.

Realidade se impondo

O mês seguinte foi o pior para o comércio em 20 anos, com o fechamento de quase 10 milhões de postos de trabalho no trimestre que se encerrou em abril. Mesmo assim, o “posto Ipiranga” garantia que a retomada seria tão vertiginosa quanto a queda.

Caravana aloprada

Em maio, Guedes integrou uma comitiva de empresários aloprados que, sob a liderança de Jair Bolsonaro, caminharam até o STF buscando a reabertura econômica. Com o Ministério revisando a estimativa para uma queda de 4,7% do PIB em 2020, Guedes passou a alertar que a economia entraria em colapso.

Continua o mesmo

Há quatro dias, com as tristes marcas de 50 mil mortes e um milhão de casos de covid-19 superadas, Guedes ainda insistia que “o Brasil vai surpreender o mundo“. No dia seguinte, a FGV projetou para o segundo trimestre a maior retração em 40 anos, com a recuperação em uma lentidão igualmente recorde.

Quase nada

É verdade que Guedes havia antecipado para abril o pagamento de metade do décimo-terceiro dos aposentados. E que montou uma “operação tartaruga” na Receita Federal para dificultar a exportação de ventiladores pulmonares (o que é eticamente questionável). Mas, ainda em março, Rodrigo Maia reclamava que o “Plano Guedes” tinha “quase nada” contra o novo coronavírus. Passados três meses, de R$ 398 bilhões que o governo Bolsonaro liberou, medidas econômicas consumiram 86%, com a Saúde recebendo apenas 13% da fortuna.

Privada

Orgulhoso da fama de liberal, Guedes queria que mesmo a recuperação da maior crise sanitária em um século viesse de uma iniciativa privada que não há de sair inteira da pandemia. Assim, rompeu com Rogério Marinho, que entendia a necessidade de Estado socorrer o país. Mansueto Almeida, que defendia o aumento do investimento público desde quando o governo Bolsonaro ignorava o “pibinho” (celebrando ridiculamente o que chamava de “pib privado“), já anunciou que voltará para a iniciativa privada.

Mundo dá voltas

Ironicamente, o próprio Guedes chegou a junho concordando que a economia só não colapsou porque o governo, que havia proposto inicialmente um auxílio emergencial de R$ 200, distribuiu por três meses um socorro de R$ 600 aos brasileiros mais pobres. Agora, em vez simplesmente dar continuidade ao projeto, o ministro tenta transformar o Bolsa Família em Renda Brasil, que é uma forma de fazer publicidade do próprio governo em cima de um programa que faz sucesso há 17 anos.

Morrendo na praia

Por muito tempo, liberal (ou “neoliberal”) era usado como xingamento nas mesas que discutiam política no Brasil. Demandou muito esforço para que, em 2018, a corrida presidencial tivesse vários candidatos querendo o adjetivo para si. Incluindo o vencedor da disputa. Contudo, não foi necessário nem um ano e meio de mandato para que o espantalho que faziam do liberalismo evoluísse de falácia para alerta. Para tanto, bastou apenas que a agenda liberal caísse em mãos erradas.

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Desenhou

Curtas

  1. Tem dedo de seta adoidado | Além de Fabrício Queiroz, a esposa do ex-faz tudo da família Bolsonaro também está avaliando a possibilidade de fazer uma delação premiada.
  2. Amigos de longa data | Edevaldo Oliveira, um ex-policial rodoviário federal, era o "braço-direito" que Frederick Wassef usou para proteger Fabrício Queiroz numa casa em Atibaia.
  3. Por que demorou tanto? | Na versão que contou à Polícia Federal, Fabrício Queiroz disse que foi exonerado na mesma data que a filha porque queria tirar férias antes de assumir uma vaga como assessor do já senador Flávio Bolsonaro — algo que ele podia ter contado desde o início, mas, por algum mistério, aguardou quase dois anos para tornar público.
  4. Carona no trabalho alheio | O trecho da transposição do São Francisco que Jair Bolsonaro inaugurou no Ceará já estava 94% pronto ao término do governo Temer.
  5. Recuo do recuo | Após a imprensa descobrir que Carlos Alberto Decotteli plagiou trechos da dissertação do mestrado, foi reprovado no doutorado, e nem fez pós-doutorado na Alemanha, Jair Bolsonaro adiou a cerimônia de posse do novo ministro da Educação e desistiu de nomeá-lo, mas recuou do recuo, e fará de Decotteli o próximo ministro deste governo.
  6. Prejuízo potencialmente bilionário | Um relatório do TCU descobriu que, só no mês de abril, 620 mil pessoas, incluindo empresários, parentes de políticos e até mortos, receberam o auxílio emergencial de R$ 600 sem ter qualquer direito.
  7. Travel ban | A União Europeia decidiu que o Brasil integra a lista dos países cujos viajantes, a partir de 1º de julho, quando o bloco volta a abrir as fronteiras para o mundo, continuarão proibidos de entrar no território.
  8. Vacina chinesa | Uma notícia boa é que um grupo farmacêutico da China vem conseguindo produzir uma vacina que, até o momento, conseguiu imunizar todas as pessoas em que as doses foram testadas.
  9. Vetado | A Secretaria de Saúde de Minas Gerais vetou a volta do Campeonato Mineiro de Futebol após analisar o protocolo apresentado pela Federação Mineira de Futebol.
  10. Fogo neles | Antes, o Botafogo já havia protagonizado um protesto contra a volta do Campeonato Carioca de de Futebol — três jogadores do Volta Redonda, que treinavam com a equipe desde 16 de junho, testaram positivo para covid-19 horas antes de o clube enfrentar o Fluminense.

Um Pio

Abre Aspas

“A liberdade de orientação sexual e de identidade de gênero são conquistas inafastáveis da Constituição de 1988. Não existe cura para o que não é doença. Há poucos grupos sociais capazes de lutar com um sentimento tão poderoso chamado de orgulho.”

Gilmar Mendes, um dos nomes mais conservadores do STF, mostrando que o conservadorismo pode se permitir um tanto mais de cores.

Vale Seguir

O Stop Bolsonaro tem levado levado os gritos de "fora, Bolsonaro" para o mundo.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: CNN Brasil, Correio Braziliense, Época, Estadão, Estado de Minas, Exame, Folha de S.Paulo, G1, Globo Esporte, InfoMoney, IstoÉ, O Antagonista, O Globo, Poder 360, Terra, UOL, Valor Econômico e Veja.

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 10 de junho de 2020 por Isac Nóbrega, fotógrafo da Presidência da República, em Brasília, Distrito Federal. Nela, Paulo Guedes participa de videoconferência.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque, enquanto uns vão de jatinho, outros precisam instalar fornos de microondas.

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Publicado por

Marlos Ápyus

Mais do que jornalista, um fã do jornalismo.

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