Grande História

Com 408 mortos em dois dias, Bolsonaro segue focado na reeleição

06.04.2020 - Brasília/DF - Jair Bolsonaro durante apresentação da carta credencial de Embaixadores. Foto: Marcos Corrêa/PR

O aviso prévio de Mandetta, o interesse de Bolsonaro na reeleição, as falhas da cloroquina, a morte de Rubem Fonseca, o efeito colateral do confinamento, e muito mais.

Em “A Tormenta de Espadas“, terceiro livro de “As Crônicas de Gelo e Fogo“, Tywin Lannister alerta o jovem tirano Joffrey Baratheon de que, se um homem precisa gritar que é rei, esse homem nada tem de rei. Ontem, em reunião ministerial, Jair Bolsonaro precisou lembrar os próprio ministros de que continua presidente da República. Era um recado a Luiz Henrique Mandetta, cuja demissão mais uma vez foi antecipada nas manchetes uma vez que o ministro da Saúde perdeu o apoio da ala fardada do Palácio do Planalto. A fritura está tão explícita que, na manhã de hoje, até vídeo com crítica ao próprio ministro foi compartilhado no perfil presidencial.

Ainda na semana passada, Mandetta percebeu que a padaria escolhida por Bolsonaro para mais um passeio irresponsável por Brasília era a mesma utilizada dias antes pela esposa do ministro. E o chefe sabia. O episódio bizarro era uma armadilha para que uma crítica do auxiliar fosse rebatida de imediato.

Queda antecipada

O próprio ministro avisou à equipe que seria demitido. Enquanto o Planalto não encontra um substituto, João Gabbardo, “número 2” da pasta, pode assumir como “número 1”. Os auxiliares temem que a demissão venha pelas redes sociais. Wanderson de Oliveira, secretário de vigilância em Saúde, antecipou uma debandada dos técnicos pedindo demissão. Mas, em mais um gesto lido como uma afronta ao presidente, Mandetta rejeitou o pedido.

Bolsonaro só pensa em 2022

Para sorte do país, Osmar Terra, que andou informando a Flávio Bolsonaro que a pandemia do novo coronavírus já estaria “desabando” por aqui, é considerado “carta fora do baralho“. Mas o pai do senador não prima pelo bem da população, e sim pela reeleição em 2022. Tanto que sonda médicos dos hospitais Albert Einstein e Sírio-Libanês buscando um nome que tope confrontar João Doria, governador de São Paulo. Contudo, enquanto a queda não vem, o que ainda resta de base no governo tenta convencer o presidente a evitar a demissão. Não por objetivo nobre, mas para que a culpa pelas mortes que se avolumarão não seja depositada na caneta presidencial.

Solução questionável

De efetivo, Bolsonaro conseguiu fazer com que o Exército produzisse 2,2 milhões de comprimidos de cloroquina, uma solução cada vez mais questionável. Nos Estados Unidos, a CIA alertou Donald Trump de que o remédio promovido pelo morador da Casa Branca pode causar “morte cardíaca súbita”. E diversos estudos estão concluindo que a covid-19 pode causar infartos mesmo em doentes sem problemas prévios.

Terríveis coincidências

Coincidentemente, foi de um infarto agudo no miocárdio que, há dois dias, morreu aos 72 anos o músico Moraes Moreira. Hoje, aos 94 anos, foi a vez de o escritor Rubem Fonseca falecer, também de infarto. No entanto, há risco de não ser coincidência o estado grave em que se encontra o compositor Aldir Blanc. Os exames mais recentes o colocaram na lista de suspeitos de terem contraído o novo coronavírus.

Mais álcool

O Ministério da Ciência e Tecnologia testará um novo remédio em 500 pacientes de covid-19 que não estejam em estado grave. Em testes in vitro com células infectadas, o experimento atingiu 94% de eficácia. Noutra boa notícia, um novo estudo indica que qualquer concentração de álcool acima de 30% já consegue inativar o novo coronavírus.

Menos bebida alcoólica

A Organização Mundial de Saúde, no entanto, sugere que os governos limitem a venda de bebida alcoólicas durante a quarentena. Porque reduz a imunidade e, além de elevar o risco de violência doméstica, o consumo em excesso prejudica a saúde física e mental. No estado de São Paulo, por exemplo, ao se comparar o confinamento adotado desde 24 de março com o mesmo período do ano passado, nota-se que cresceu de 9 para 16 o total de mulheres assassinadas dentro de casa.

Desenhou

Curtas

  1. Pelo segundo dia seguido, foram contabilizados 204 óbitos de brasileiros por covid-19, mas os mais de 3 mil casos confirmados no intervalo de 24 horas são um novo recorde nacional.
  2. Sob pena de cometer crime de responsabilidade, o que daria margem a um processo de impeachment, Jair Bolsonaro tem o prazo legal de 30 dias para apresentar à Mesa Diretora da Câmara Federal o resultado dos exames que comprovariam que o presidente não foi infectado pelo novo coronavírus.
  3. Segundo o Ministério da Saúde, mais da metade dos brasileiros vitimados por covid-19 já se recuperou.
  4. Enquanto Augusto Aras segue negando atitudes que contrariem a ala ideológica do Governo Federal, Humberto Jacques de Medeiros, vice-procurador-geral da República, pediu ao STF a abertura de um inquérito contra Abraham Weintraub, ministro da Educação, por racismo no episódio em que publicou mensagens abjetas contra chineses.
  5. A Associação Nacional dos Procuradores da República, inclusive, defende que integrantes do Ministério Público Federal são livres para fazer recomendações sobre a covid-19 aos ministérios do Governo Federal, algo que Aras tenta centralizar na própria PGR.
  6. O PSOL acionou o MPF para que investigue o que fez a Funai, órgão ligado ao Ministério da Justiça, deixar de executar os R$ 10,8 milhões liberados para proteger da covid-19 os povos indígenas.
  7. Na leitura de Hamilton Mourão, apesar de alegar falar pelos mais pobres, só rico deu as caras nos protestos contra o isolamento social.
  8. Haters gonna hate, mas Petra Costa, indicada ao Oscar por Democracia em Vertigem, pediu aos próprios fãs que documentem –na horizontal, e sem sair de casa– a rotina que vivem durante o isolamento social.
  9. No estado de Nova York, a população está sendo obrigada a usar máscara quando o local público não permite que as pessoas fiquem a uma distância de 2 metros uma das outras.
  10. No esforço para cortar gastos em meio à pandemia, Jacinda Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia, cortou em 20% o próprio salário e o de assessores.

Um Pio

Abre Aspas

“Enquanto, aqui embaixo, a indefinição é o regime. E dançamos com uma graça cujo segredo nem eu mesmo sei, entre a delícia e a desgraça, entre o monstruoso e o sublime.”

Caetano Veloso, origem do verbo caetanear, como se fosse 2020, mas em 1992.

Vale Seguir

A Aos Fatos se deu a dificílima missão de checar fatos no país do bolsolavismo. E tem trabalhado cada vez melhor.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Aos Fatos, BR Político, CNN, CNN Brasil, Congresso em Foco, Crusoé, Época, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, O Antagonista, O Globo, Poder 360, UOL e Veja.

06.04.2020 - Brasília/DF - Jair Bolsonaro durante apresentação da carta credencial de Embaixadores. Foto: Marcos Corrêa/PR

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 7 de abril de 2020 por Marcos Corrêa, fotógrafo da Presidência da República, em Brasília, Distrito Federal. Nela, Jair Bolsonaro prestigia a apresentação da carta credencial de embaixadores.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque o tempo que escolheram para a gente viver é mesmo vagabundo.

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