Grande História

A “ABIN paralela” existe e é tocada do Planalto por um coronel

Jair Bolsonaro

O risco de cassação, a queda dos bots, o controle das redes, as provocações de Bolsonaro, o suborno ao guarda, e muito mais.

Um semestre antes da eleição presidencial de 2018, Luiz Fux garantia que um candidato eleito com a divulgação de notícias falsas poderia ser cassado, com a eleição vindo a ser anulada. Mas toda a estrutura montada pelo ainda presidente do Tribunal Superior Eleitoral, juntamente com a ABIN, o Exército e a Polícia Federal, não conseguiu impedir que Jair Bolsonaro se tornasse presidente do Brasil alicerçado por todo um cardápio de mentiras.

Passados dois anos da polêmica garantia, a proliferação de inverdades, somada à articulação para cometer assassinatos de reputação, voltou a colocar em risco o mandato presidencial. Alexandre de Moraes, relator do inquérito que avança contra a máquina de linchamentos virtuais de Bolsonaro, em breve substituirá Rosa Weber no TSE. E pretende levar para lá as provas robustas que, segundo já escapou à imprensa, atingem até Carlos Bolsonaro.

Menos bots

Apesar da iniciativa controversa, não falta quem compreenda os motivos que fizeram o STF arregaçar as mangas contras as ameaças que recebia. A ação da PF na quarta-feira já fez com as publicações dos bots bolsolavistas caíssem no Twitter de 14% para 10% no monitoramento da AP Exata. E o chilique golpista do presidente da República não conseguiu fechar o Supremo, mas unir os onze ministros no apoio ao trabalho de Moraes e Celso de Mello.

Grandes poderes, grandes responsabilidades

Com o Senado caminhando para responsabilizar as grandes empresas de tecnologia pela desinformação que veiculam, o que certamente fecharia o cerco a quem as utiliza para assassinatos de reputação, o Palácio do Planalto, que vive a assassinar reputações na web, já se movimenta para mais uma vez macaquear Donald Trump, e regular as redes sociais — sempre alegando defender liberdades fundamentais, o que não convence ninguém, uma vez que parte da turma que até hoje idolatra a ditadura militar.

Ressaca moral

Mas o clima no day after de mais um chilique golpista de Bolsonaro foi de ressaca pelas portas que se fecham. Eduardo Bolsonaro, que passou o dia de ontem cumprindo uma agenda em defesa de um golpe de Estado, foi denunciado pelo Conselho de Ética da Câmara Federal e já ganhou a torcida desta coluna para que perca o mandato. Abraham Weintraub, que falou grosso ao defender a prisão dos integrantes do STF na reunião ministerial de 22 de abril, em jogo combinado com o Planalto, entrou mudo e saiu calado das explicações que foi convidado a dar à PF.

Provocações

Se, ontem, Jair Bolsonaro teve o descaramento de discutir a “aplicação pontual do 142“, um artigo da Constituição há anos deturpados por golpistas; hoje, encontrou apenas alguns poucos gados pingados na portaria do Alvorada. Mas não abriu mão das provocações. Ainda no “cercadinho”, requentou o discurso mofado contra a obrigatoriedade do exame da OAB. Ao lado de Augusto Heleno, recebeu dois dos perfis anônimos dos quais Moraes havia pedido a quebra de sigilo. E, destroçando o significado da homenagem, ainda se deu a condecorar Weintraub e Augusto Aras com a Ordem do Mérito Naval.

Subornando o guarda

Na véspera, como se já não fosse descabido o suficiente oferecer um gabinete do STF à única pessoa que pode investigá-lo, Bolsonaro disse que indicaria Aras ao Supremo caso algum integrante da corte venha a “desaparecer“. A escolha do verbo soou mais uma intimidação a uma casa que tem recebido ameaças de execuções sumárias e até atentados terroristas incendiários.

Chumbo trocado

Nada disso faz frente à revelação de que a “ABIN paralela” não seria um “devaneio de amadores“, como insistia Heleno. Mas uma produção de dossiês tocada pelo coronel do Exército Marcelo Costa Câmara com o apoio de um capitão das Forças Especiais do Exército e um ex-policial do Bope do Rio de Janeiro. Partiu do trio as informações que resultaram na operação Placebo, que avançou na terça contra Wilson Witzel, governador do Rio de Janeiro e um dos principais adversários de Bolsonaro. Sim, trata-se da operação que previamente vazara por parlamentares bolsolavistas.

Noutro flanco

Sergio Moro também voltou à carga ao detalhar em entrevista que o ex-chefe não só abandonou o combate à corrupção há tempos, como tinha interesse na libertação de Lula. O ex-ministro da Justiça também contou que Bolsonaro não vetou indecências do projeto anticrime para proteger Flávio Bolsonaro, o que fortalece a suspeita de que houve um acordaço entre as principais forças da República para conter a Lava Jato.

Popularidade mínima

É difícil compreender como, diante disso tudo, o atual presidente já não encare o mesmo destino de Dilma Rousseff e Fernando Collor de Mello. Mas, aos poucos, algumas pistas se confirmam. Já tem pesquisa, por exemplo, captando que parte das avaliações positivas deste governo se sustenta na distribuição do auxílio emergencial de R$ 600 xingado por Carluxo de “socialismo“. Mas, ao confirmar o pagamento de uma quarta parcela, Bolsonaro adiantou que haverá uma redução gradual até que deixe de existir. Afinal, não há bem que nunca se acabe. Nem governo fascista que pra sempre dure.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BR Político, CBN, CNN Brasil, Correio Braziliense, Crusoé, Estadão, Exame, Folha de S.Paulo, G1, Globo Rural, IstoÉ, Jota, NY Times, O Globo, R7, UOL, Valor Econômico e Veja.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Click to comment

You must be logged in to post a comment Login

Leave a Reply

To Top