Grande História

Adiar o impeachment de Bolsonaro é um luxo que não cabe ao Brasil

Jair Bolsonaro e Henrique Mandetta

A promessa de demissão de Mandetta, o isolamento de Bolsonaro, o isolamento da população, a ameaça de impeachment, e muito mais.

O mundo todo enfrenta duas crises: uma sanitária, em decorrência do avanço da covid-19, e uma econômica, em decorrência da crise sanitária. O Brasil, por sua vez, enfrenta três: uma sanitária, uma econômica e uma política. Com o agravante de que a política, levando a um número maior de óbitos, e a uma recessão ainda mais profunda, dificulta o enfrentamento das outras duas.

Ao contrário das principais lideranças do mundo, a atuação de Jair Bolsonaro durante a pandemia faz com que o brasileiro perca popularidade. Luiz Henrique Mandetta, no entanto, conta com o apoio de 8 em cada 10 eleitores do próprio presidente. Três em cada quatro brasileiros, inclusive, apoiam o isolamento social criticado pelo chefe do Executivo.

Mesmo assim, Bolsonaro deu início ao processo de fritura do ministro da Saúde, explicitado na mensagem de Olavo de Carvalho pela queda de Mandetta. Com o domingo no fim, e sem nomear o boi, o presidente declarou que se aproximava o momento em que demitiria “quem está se achando“.

E quem está se achando?

Curiosamente, o próprio dono da caneta não se toca. Na semana passada, uma tentativa infrutífera de sabotar a CPMI das Fake News contou com o apoio de apenas dez parlamentares. Um jantar com os presidentes da Câmara e do Senado foi prontamente recusado por ambos os convidados. Rodrigo Maia, inclusive, elevou o tom contra o Governo Federal, deixando claro que há uma rede de linchamento virtual no Palácio do Planalto bancada por empresários bolsolavistas.

Trevas

Para o lugar de Mandetta, o mais cotado é Osmar Terra, ex-ministro que ataca o confinamento com desinformações e mais desinformações ao ponto de sofrer sanções de uma das redes sociais mais tolerantes com mentiras, o Twitter. As narrativas do negacionista, no entanto, não contam com respaldo de nomes técnicos do próprio Governo Federal. A AGU, por exemplo, declarou ao STF que o governo Bolsonaro apoia o isolamento social. E há um estudo do Exército (posteriormente apagado) na mesma direção.

Racismo

A sabotagem governista incluiu ainda o reaquecimento da crise diplomática com a China, principal parceira comercial do país e dona da maior estrutura no combate à pandemia em curso. Segundo o diplomata Rubens Ricupero, o redirecionamento de materiais que poderiam salvar vidas no Brasil não pode se descolar da onda de mensagens alopradas lideradas por Eduardo Bolsonaro contra a nação asiática. Agora, o absurdo partiu de Abraham Weintraub, que cometeu seguidas declarações racistas devidamente reclamadas pela embaixada chinesa. Nesta segunda, os orientais anunciaram que, por precaução, passariam a comprar mais soja dos Estados Unidos. Como se tivesse alguma razão, o ministro da Educação disse que só pediria desculpas se o outro lado vendesse mil ventiladores pulmonares a preço de custo.

Minguados

Tudo isso aconteceu após um final de semana em que, atendendo a um chamado do presidente, grupos religiosos se entregaram a um jejum; e que um número minguado de militantes governistas, pondo em risco toda a sociedade, se organizou para protestar contra governadores apontados por Bolsonaro como inimigos a serem contidos.

Colapsando

Com o prefeito de Manaus anunciando o primeiro de uma série de colapsos já previstos, e o Brasil, com mais de 12 mil casos confirmados, chegando ao 553º óbito por covid-19, vazou para vários veículos de imprensa que Jair Bolsonaro, chateado até mesmo com a participação do ministro em uma apresentação virtual de uma dupla sertaneja, e explorando mais uma notícia falsa, havia se decidido pela substituição do médico pelo monstro.

Trecho da live com Jorge, Mateus e Mandetta.

Mais um recuo

Todavia, mediante pressão das mais variadas forças, incluindo integrantes do STF, militares e um pedido de impeachment a ser entregue pela OAB, veio um recuo nem tão inesperado – e que, por puro oportunismo, pode virar acusações de “fake news” da parte da máquina de mentiras governamental.

Por muito menos

O bolsolavismo estimula uma postura irresponsável que coloca em risco toda a sociedade, sabota as gestões das crises econômica e sanitária, e explicitamente atenta contra a democracia. Por muito menos do que isso, Dilma Rousseff foi impedida de continuar no cargo. Entre o primeiro protesto e a queda da “presidenta”, passaram-se 20 meses, mas porque, contrária à ideia, Brasília tentou de tudo para evitar a medida drástica. Todavia, o intervalo entre a formação da comissão do impeachment na Câmara e o afastamento da presidente no Senado foi de menos de dois meses. Se Brasília arregaça as mangas agora, e separa 65 deputados para missão tão nobre, o Brasil termina maio com Bolsonaro afastado.

Não deixe para amanhã

Quanto mais tempo Jair Bolsonaro continuar no cargo, mais estrago Jair Bolsonaro fará. Postergar o impeachment é um luxo ao qual o Brasil não pode ser dar nem em um momento como este.

Desenhou

Curtas

  1. Apesar de tudo, segundo o Datafolha, uma maioria de 59% dos brasileiros é contra uma renúncia de Bolsonaro – será que o apoio de Hamilton Mourão ao golpe de 1964 pesou na decisão?
  2. Por mais desnecessária e absurda, cada crise amplia o número de seguidores de Jair Bolsonaro nas redes sociais – o que está longe de significar aumento de apoio ao dito cujo.
  3. Paulo Guedes, inclusive, já tenta explorar o novo coronavírus como desculpa para o fracasso da política econômica do governo Bolsonaro – o que só engana quem quer ser enganado.
  4. O jornal espanhol El Mundo chegou a noticiar que Jair Bolsonaro estaria se automedicando com cloroquina, mas aparentemente tudo não passou de uma tradução equivocada de uma matéria do NY Times.
  5. Cada vez mais confortável no papel de engavetador-geral da República, Augusto Aras veio a público dizer que nem tão cedo virá a público contra Jair Bolsonaro.
  6. PT e PSDB concordaram com uma causa urgente: retirar Carlos Bolsonaro do Palácio do Planalto.
  7. O mesmo Carlos Bolsonaro que, ao atacar Mourão, passou recibo do temor de um processo de impeachment.
  8. Boris Johnson, que garantia que o novo coronavírus não o impediria de seguir apertando mãos, está na UTI por causa da covid-19 – ainda assim, melhoras para ele.
  9. Suécia e Japão, que viam o isolamento social como algo desnecessário, mudaram de postura com o agravamento dos números.
  10. Itália e Argentina, no entanto, já colecionam números animadores após aderirem a um confinamento rígido como sugerido pelas autoridades sanitárias.

Um Pio

Abre Aspas

“O lado chinês aguarda uma declaração oficial do lado brasileiro sobre as palavras feitas pelo mininistro da Educação, membro do governo brasileiro. Nós somos cientes de que nossos povos estão do mesmo lado ao resistir às palavras racistas e salvaguardar nossa amizade.”

Yang Wanming, embaixador da China no Brasil, cumprindo com uma missão que deveria ser da própria Justiça brasileira.

Vale Seguir

Fora da Folha de S.Paulo, Rubens Valente, um dos melhores repórteres do país, está com mais liberdade para ampliar para as redes sociais aquilo que agora ele publica em coluna do UOL.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Aos Fatos, CNN Brasil, Correio Braziliense, El Mundo, El País, Época, Estadão, Exame, Folha de S.Paulo, GaúchaZH, Gazeta do Povo, G1, O Antagonista, O Globo, Piauí, Reuters, UOL, Valor Econômico, Veja e Vortex Media.

Jair Bolsonaro e Henrique Mandetta

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 20 de março de 2020 por Isac Nóbrega, fotógrafo da Presidência da República, em Brasília, Distrito Federal. Nela, Jair Bolsonaro e ministros de Estado participam de uma videoconferência com representantes da iniciativa privada.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque o vencedor leva tudo.

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