Grande História

É preciso ser esperto e não cair nas armadilhas de Jair Bolsonaro

05.06.2020 - Águas Lindas/GO - Presidente da República, Jair Bolsonaro ,durante chegada em Águas Lindas de Goiás. Foto: Alan Santos/PR

O roteiro de Mourão, a lição de 68, a semelhança com 2020, os anseios dos bolsonaros, o exemplo de Adélio, e muito mais.

Um dia após Adélio Bispo esfaquear Jair Bolsonaro, Hamilton Mourão foi sabatinado na GloboNews. E, como esperado, precisou explicar no 7 de setembro de 2018 a fala golpista que aniversariava naquele mês. O então candidato a vice-presidente negou que defendesse intervenção militar, mas argumentou que, no “momento em que a anarquia toma conta do país“, em que “não há mais respeito pela autoridade, grupos armados andando pela rua“, o presidente da República poderia usar as Forças Armadas na “garantia dos poderes constitucionais“. E se deu a indagar: “como é que a gente garante os poderes constitucionais? Mantendo a estabilidade? E, se um poder não consegue mais cumprir a sua finalidade, o que nós fazemos?

Em nenhum momento a conversa cita o episódio, mas Mourão parecia defender o que aconteceu ao longo de 1968. Que, na prática, começou no 28 de março, quando a PM carioca assassinou os estudantes Edson Luís de Lima Souto e Benedito Frazão Dutra. Iniciava ali uma onda de manifestações que teria por auge o ato que, em 26 de junho, ficaria conhecido como a Passeata dos Cem Mil.

Oportunidade

Mas a ala mais radical dos militares não assistia a tudo inerte. Pelo contrário, enxergava nas movimentações da oposição uma oportunidade para endurecer o regime. Duas semanas antes da Passeata, o brigadeiro José Paulo Burnier detalhou o plano de culpar a oposição por um atentado que, também no Rio de Janeiro, mataria milhares. Mas o Caso Para-Sar seria neutralizado a tempo pelo capitão Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho.

Duelo de narrativas

Outras false flags, contudo, surtiram efeito. Até hoje, há quem justifique os abusos da ditadura militar como uma reação a uma série de atentados a bomba que ocorreram naquele ano. Mas, até agosto de 1968, das 29 detonações que ocorreram em São Paulo, 14 delas partiram de radicais de direita.

Anarquia

Naquela temporada, os jornais contariam as histórias da greve dos metalúrgicos de Osasco, a prisão de 900 estudantes no 30º Congresso da UNE, e a batalha campal entre estudantes esquerdistas da USP e estudantes direitistas da Mackenzie que terminaria com a morte de José Carlos Guimarães, um secundarista que estudava no Colégio Marina Cintra.

Perguntar ofende

Para o regime militar, contudo, nada foi mais grave que a pergunta feita na Câmara Federal pelo deputado Márcio Moreira Alves em 2 de setembro daquele ano: “Quando o Exército não será um valhacouto de torturadores?” O governo militar queria processar o deputado, mas, no 12 de dezembro, a casa manteve a imunidade do emedebista após um forte discurso de Mário Covas. Em dado momento, o parlamentar que governaria São Paulo afirmou: “creio no regime democrático, que não se confunde com anarquia, mas que, em instante algum, possa rotular ou mascarar a tirania“.

“Que não se confunde com anarquia”

Cabe, aqui, relembrar a pergunta de Mourão meio século depois: “E, se um poder não consegue mais cumprir a sua finalidade, o que nós fazemos?” Em 1968, um dia após o discurso de Covas, o presidente Costa e Silva reuniu-se com os membros do Conselho Nacional de Segurança e, de lá, saiu com o ato institucional de número cinco. Por ele, o Congresso foi fechado, o habeas corpus em crimes políticos foi suspenso, e a censura à imprensa cresceu vertiginosamente.

Conhecereis a verdade

De volta a 2020, mais especificamente à noite de ontem, um Ministério da Saúde tomado por militares atrasava a divulgação das estatísticas da covid-19. Era uma ordem de Jair Bolsonaro para sabotar o Jornal Nacional. Mas a verdade veio. E nela, a confirmação de que, após um novo recorde de mortes contabilizadas em apenas 24 horas, o Brasil havia se tornado a terceira nação com mais vítimas fatais do novo coronavírus, ou simplesmente o novo epicentro da pandemia. Até Donald Trump, cujo saco é constantemente lambido pela família presidencial brasileira, reconheceu publicamente que o governo Bolsonaro é um péssimo exemplo a ser seguido.

Mais provocação

O que fez o presidente brasileiro? Reforçou as provocações aos militantes de oposição chamando-os mais uma vez de terroristas. Até pediu para que os manifestantes governistas evitem as ruas no próximo domingo, mas a ala mais extremista do bolsolavismo decidiu ignorar as orientações do “messias”. Em paralelo, o Governo Federal já cogita usar a Força Nacional para conter os protestos do próximo domingo.

Salivando

É o que Eduardo Bolsonaro anseia desde que a esquerda chilena protagonizou cenas de, digamos, “anarquia” no segundo semestre de 2019. Na ocasião, Edu Bananinha prometeu: “Se a esquerda radicalizar a esse ponto, a gente vai precisar ter uma resposta, e uma resposta, ela pode ser via um novo AI-5“.

Lá vem o golpe

Ontem, essa coluna alertou que Bolsonaro não tem feito outra coisa além de preparar um golpe de Estado. A oposição tanto percebeu a arapuca que, também ontem, assinou um pedido para que a população não compareça aos atos agendados. Mas as negociações fracassaram, e, no próximo domingo, mais uma vez entusiastas e críticos do governo Bolsonaro se enfrentarão na avenida Paulista.

É preciso mais

Para derrotar o presidente da República é preciso ser mais inteligente do que isso. A íntegra da reunião ministerial de 22 de abril até mostrou o caminho. Convocada para discutir a recuperação econômica, foi totalmente deturpada pelas participações de Abraham Weintraub e do próprio Bolsonaro, ambos incomodados com o cerco judicial.

A lição de Adélio

O atentado protagonizado por Adélio Bispo em 2018 deveria servir de lição a essa geração. No que fracassou, elegeu Bolsonaro. Se tivesse tido êxito, o presidente hoje seria Flávio ou Carlos Bolsonaro. Porque esse tipo de crise não se resolve com faca, bala, foice ou martelo. Mas com papel e caneta.

Fique em casa

Por isso, neste final de semana, é importante que os planos do golpista sejam frustrados, e a população simplesmente fique em casa. A saúde pública e a democracia agradecem.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Correio Braziliense, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, Metropoles, O Antagonista, O Globo, Poder 360, Terra, UOL e Veja.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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