Grande História

Após participar de ato golpista, Bolsonaro estuda estado de sítio

Jair Bolsonaro e Henrique Mandetta

Novo corovírus, crise diplomática, neligência presidencial, panelaços, autocrises, impeachment, estado de sítio e muito mais.

Como nenhuma gripe conhecida por essa geração resultou numa fila de caminhões militares para o transporte de caixões que se acumulavam num distrito italiano, é possível sepultar uma das primeiras narrativas experimentadas por Jair Bolsonaro: a de que o temor do novo coronavírus não passaria de histeria. Tanto que a Espanha, a exemplo de China, Irã e Itália, passou a integrar o trágico ranking de países que já superaram as mil mortes por covid-19. Ao todo, o mundo já acumula mais de 10 mil vítimas fatais.

Enquanto a China liderava a ajuda humanitária no mundo, doando equipamento e mão de obra às nações mais afetadas, no Brasil, Eduardo Bolsonaro liderava um linchamento virtual xenofóbico à diplomacia chinesa. O que explica a embaixada do principal parceiro comercial do país, em tréplica ainda mais dura, recusar o pedido de desculpas do Zero Três, mas acolher os de Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre. No entanto, Jair Bolsonaro se nega até a reconhecer a existência da crise – mesmo com o presidente chinês recusando uma ligação diplomática do presidente brasileiro.

E quem ignorou alertas?

Bolsonaro ignorou relatórios de inteligência que alertavam desde o início do ano dos perigos do novo coronavírus. Sem contar que o governo Bolsonaro demorou dez dias para reagir à turbulência financeira porque Paulo Guedes não se convencia de que era necessário colocar a austeridade fiscal em segundo plano.

A grande ficha

Com a ficha finalmente caindo, o Centro de Macroeconomia Aplicada da Fundação Getúlio Vargas calculou que o PIB brasileiro pode encolher 4,4% em 2020, o que resultaria na maior recessão desde 1962, ou desde quando o Banco Central guarda registros do tipo. O desemprego, que fechou janeiro flagelando quase 12 milhões de brasileiros, só com as demissões estimadas pelo comércio, pode saltar para 17 milhões até o final de abril.

Terceira noite

Ainda que em intensidade menor, Jair Bolsonaro foi alvo de panelaços pela terceira noite consecutiva. Provocado a comentar as manifestações, Sergio Moro ameaçou encerrar a entrevista que concedia. O presidente da República, no entanto, apostou que, se um protesto do tipo fosse convocado contra a Rede Globo ou demais autoridades, também seria um sucesso.

Seria?

Mas a aposta é de risco. Afinal, a emissora ou outras autoridades não defenderam que o novo coronavírus “está superdimensionado“, “é muito mais fantasia“, que “outras gripes mataram mais“, ou que “não é tudo isso que dizem“.

Contagiante

Enquanto isso, subia para 23 o total de pessoas que confirmavam ter covid-19 após contato com a comitiva presidencial que visitou os Estados Unidos. Dezesseis autoridades brasileiras já foram atingidas pelo mal, incluindo dois ministros e o presidente do Congresso. O número equivalia a um quinto do total de casos confirmados no Distrito Federal. Quanto ao exame que provaria que o presidente brasileiro está saudável, segue escondido da opinião pública. Em paralelo, o presidente não nega que pode vir a fazer um novo teste.

Prioridades

Hoje foi a vez de Major Olímpio, senador por São Paulo, reconhecer publicamente o risco de o mandato presidencial ser encurtado por um processo de impeachment. Contudo, Rodrigo Maia tem deixado claro nos bastidores que a prioridade é o combate ao coronavírus, algo que pode ser prejudicado pelo aceite de quaisquer dos pedidos entregues ou em preparo.

Maia já combinou com os russos?

Mas Maia soa ingênuo ao achar que Jair Bolsonaro há de colaborar com o trabalho dos demais poderes. Na mesma semana em que o presidente da República participou de uma manifestação golpista, o Palácio do Planalto encomenda pareceres sobre a decretação de um estado de sítio, medida drástica que nunca veio a ser acionada desde que o Brasil voltou a ser uma democracia. Em coletiva de imprensa, Bolsonaro garantiu que “está descartado até estudar essa circunstância“. Mas quem ainda confia no que diz o chefe do Executivo?

Entre Aspas

“Tem gente no atual governo que eu detesto. Detestar não deixa de ser uma emoção. Mas, no caso de Ernesto Araújo, que vive de rastejar e puxar o saco do chefe, ele tem o meu total desprezo. Desprezo é a ausência de emoção, não merece nem meu ódio.”

Paulo Coelho, escritor e mago, desabafando para mais de 15 milhões de seguidores de todo o mundo.

Curtas

  1. Conversas de WhatsApp atestam que Jair Bolsonaro foi bastante ativo na convocação e organização da manifestação irresponsável e golpista de domingo passado.
  2. A exemplo do presidente da República, o braço paulista do “gabinete do ódio” persegue a jornalista Vera Magalhães espalhando a mentira de que ela estaria sendo paga para criticar Bolsonaro.
  3. Enquanto isso, com 904 casos confirmados, o Brasil somava 11 mortes por covid-19, sendo nove delas em São Paulo.
  4. Segundo o ministro da Saúde, a ascensão do novo coronavírus no Brasil só deve se converter em queda daqui a seis meses.
  5. Um dos elefantes brancos levantados para a Copa de 2014 pode funcionar, em Brasília, como hospital para atender as vítimas da pandemia.
  6. Para evitar que cloroquina e hidroxicloroquina faltem nas farmácias, uma vez que Donald Trump irresponsavelmente anunciou como solução o que ainda está em testes iniciais, o Conselho Federal de Medicina quer exigir receita médica para a venda dos medicamentos no Brasil.
  7. Inaugurando o plenário virtual, o Senado aprovou o decreto de calamidade pública por unanimidade.
  8. A Justiça do Rio de Janeiro, que por causa do coronavírus proibiu até almoço nas escolas municipais após a interrupção das aulas, achou que não cabia a ela proibir os inadequados cultos religiosos do pastor Silas Malafaia.
  9. Provando que o Oscar para Parasita foi justo, a primeira vítima fatal de covid-19 no Rio de Janeiro era uma doméstica idosa cuja patroa, moradora do bairro mais caro do país, escondeu da funcionária que voltou da Itália desconfiando que estava doente.
  10. Sofrendo de anemia, Eduardo Cunha está internado numa UTI do Rio de Janeiro para ser submetido a um procedimento cirúrgico sem relação com a pandemia.

Efeito multiplicador

Segundo alguns seguidores, essa fascinante esquete dos Trapalhões funciona como um ótimo exemplo do “efeito multiplicador”, ou o “coeficiente que mede a taxa de expansão dos meios de pagamento da moeda criada pelos depósitos bancários“. Não entendeu? Então aperta o play.

Um Pio

Vale Seguir

O BRP Analisa entrega diariamente por e-mail análises dos acontecimentos políticos assinadas por Vera Magalhães e Marcelo Moraes. Clique na imagem para conhecer os planos.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Agência Brasil, BBC, Congresso em Foco, Correio Braziliense, Crusoé, Época, Estadão, Estado de Minas, Exame, Folha de S.Paulo, G1, IstoÉ Dinheiro, O Antagonista, O Globo, Piauí, Pública, Teleguiado, UOLValor Econômico e Veja.

Jair Bolsonaro e Henrique Mandetta

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 20 de março de 2020 por Isac Nóbrega, fotógrafo da Presidência da República, em Brasília, Distrito Federal. Nela, Jair Bolsonaro e ministros de Estado participam de videoconferência com representantes da iniciativa privada.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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