Grande História

“As Forças Armadas não são milícias do presidente”

22.11.2018 - Brasília/DF - O Presidente eleito Jair Bolsonaro, fala com a imprensa após reunião com os futuros comandantes das Forças Armadas, no Comando da Marinha, em Brasília. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

As derrotas do gabinete do ódio, as bravatas de Bolsonaro, o medo da delação, os limites da liberdade do STF, e muito mais.

A prisão da militante que adotara um pseudônimo nazista, os mandados de busca e apreensão contra um empresário e um publicitário ligados ao partido de Jair Bolsonaro, e a quebra de sigilo de onze parlamentares bolsolavistas tinham abalado a moral dos milicianos digitais. Foi quando, na noite de ontem, o presidente da República insistiu que “é o povo que legitima as instituições, e não o contrário“; e que tomaria “todas as medidas legais possíveis para proteger a Constituição“.

Era mais uma mensagem golpista. Bolsonaro acredita, ou tenta fazer crer, que recebeu do povo autorização para destruir as instituições democráticas. As “medidas legais possíveis para proteger a Constituição” são mais uma menção cifrada à leitura deturpada que abilolados fazem do artigo 142 da carta de 1988. Tanto que o presidente amanheceu a quarta-feira reforçando que estaria “chegando a hora de colocar tudo em seu devido lugar” — mas sem hombridade para chamar de “golpe de Estado” o que almeja.

Bravata?

Calejado de gritarias passadas, o senador Major Olímpio disse que a sandice não passava de uma “bravata que o presidente solta para gerar notícia e discussão“. Houve também quem visse no chilique presidencial uma tentativa de acalmar bolsolavista receosos de que algum dos alvos do inquérito do STF tope uma delação premiada.

Sem golpe

A tranquilidade com que a República encarou o próprio presidente mais uma vez atentar contra a democracia talvez venha das conversas que Gilmar Mendes, Rodrigo Maia e Fernando Henrique Cardoso mantêm com altos oficiais da ativa. Se, por um lado, o trio evita que um golpe militar se concretize, por outro, garante que não há qualquer articulação pelo encurtamento do mandato do golpista. Mendes, além de questionar o papel do ministro da Defesa Fernando Azevedo e Silva como voz dos militares, repete publicamente que “as Forças Armadas não são milícias do presidente“.

Milícias do presidente

Contudo, essa coluna mostrou ontem que há o risco de as polícias militares protagonizarem motins semelhantes aos que o próprio Bolsonaro apoiou em 2017 e 2020. Hoje, governadores de vários estados receberam aviso de que as PMs estariam fechadas com o bolsolavismo. Investigado por Alexandre Moraes, o “gabinete do ódio” estaria inclusive servindo de ponte entre lideranças policiais e o Palácio do Planalto.

Fake news?!

Fica a dúvida, no entanto, da eficácia ou mesmo veracidade da iniciativa, que pode ter sido plantada pelo mesmo grupo que elegeu o presidente espalhando mentiras na internet. Tanto que, nas redes sociais, alguns dos principais influenciadores governistas já choram o abandono presidencial evidenciado na derrota sofrida por Abraham Weintraub, que segue alvo do inquérito tocado no STF contra notícias falsas. Com o chefe aguardando o pedido de demissão do pior ministro da Educação que este país já teve, há o risco de o MEC, como ocorre na pasta da Saúde, ficar indefinidamente aos cuidados de um interino.

Isso é bandidagem

Alexandre de Moraes, de quem robôs viraram a madrugada exigindo a prisão, aproveitou o voto sobre a legalidade do inquérito para dar publicidade a algumas das incontáveis ameaças sofridas pelos membros da corte. Ao ler que um advogado do Rio Grande do Sul defendia nas redes sociais o estupro e assassinato de filhas dos integrantes do Supremo, o ministro concluiu: “Em nenhum lugar do mundo isso é liberdade de expressão. Isso é bandidagem, criminalidade.

Legalizou limitando

O dia terminou com 8 dos 11 ministros concordando com a legalidade do trabalho realizado até aqui contra o gabinete do ódio, mas limitando a apuração às ameaças sofridas pela casa. De quebra, fixaram que o Ministério Público deve acompanhar os trabalhos, com as defesas tendo total acesso aos autos. O que é uma boa para dar ares legais a um inquérito que já serviu até para censurar revista. Mas resta a dúvida se, com a entrada em campo de Augusto Aras, o procurador-geral que se porta como advogado-geral, será possível conter um presidente que quer se eternizar no poder implodindo a República.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: CNN, Correio Braziliense, Crusoé, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, O Antagonista, O Globo, Reuters, Terra, The Intercept, UOL, Valor Econômico e Veja.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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