Grande História

Bolsonaro, um presidente focado em atrapalhar o próprio governo

23.03.2020 - Brasília/DF - Presidente Jair Bolsonaro durante declaração à imprensa. Foto: Isac Nóbrega/PR.

As mentiras contra Mandetta, a desinformação dos bolsolavistas, as narrativas governistas, a alta letalidade da covid-19, e muito mais.

Na segunda-feira, a revista Veja publicou que, para forjar um cenário que justifique a demissão de Luiz Henrique Mandetta, Jair Bolsonaroliberou o núcleo ideológico vinculado ao chamado gabinete do ódio a vasculhar o passado do ministro de modo a identificar supostos pecados“. Por isso, não causou espanto quando, ontem, o Jornal Nacional reservou 77 segundos para o ministro da Saúde “condenar a enxurrada de fake news nas redes sociais sobre a doença e a atuação do Ministério da Saúde“.

No Twitter, enquanto Mandetta é apoiado por nomes de centro e esquerda, é duramente combatido por influenciadores de direita. Não soa coincidência que um dos principais disseminadores de um boato espalhado no WhatsApp seja um empresário bolsolavista. Ou que Carlos Bolsonaro, vereador pelo Rio de Janeiro, frequente as sessões virtuais da Câmara carioca diretamente de Brasília.

Desmontando narrativas

É trabalhoso, mas a imprensa vem conseguindo desmontar as narrativas governistas. A covid-19 não é uma “gripezinha”, mas um mal que no estado de São Paulo matou em um único dia o equivalente a oito vezes a média diária de assassinatos. Se o presidente da República reclama que o próprio ministro da Saúde estaria matando as pessoas de fome, sete em cada dez moradores das favelas, mesmo com fome, discordam do fim do isolamento social. Na Rocinha, inclusive, já morreram dois, mas por causa do novo coronavírus mesmo.

Alta letalidade

Para o Ministério da Saúde, a curva local do avanço do novo coronavírus só não estaria melhor do que a da Alemanha, mas é difícil crer que a subnotificação não distorça a realidade brasileira. Aqui, por exemplo, a letalidade subiu para 5% – quando estava em 4,2%, já era a oitava maior do mundo.

Lobby da cloroquina

No esforço diário para atrapalhar quem busca salvar vidas, Bolsonaro tem se focado na defesa da cloroquina como um remédio que obraria milagres (algo que carece de estudos mais profundos). É mais uma forma de macaquear Donald Trump, que tem uma pequena participação financeira em uma das maiores fabricantes do medicamento.

Vazando receitas

Hoje, o presidente brasileiro amanheceu implicando David Uip. Mas o coordenador do Centro de Contingência de São Paulo admitiu ser real uma receita vazada pelo WhatsApp. Contudo, a solicitação fotografa antecede em dez dias a confirmação de que o médico estava com covid-19. O infectologista explicou que a clínica que administra se antecipara à crise estocando medicamentos que pudessem ser úteis na pandemia.

Vai demorar

É claro que, em dado momento, a vida precisará voltar ao normal. Mas a transição ainda tardará a chegar ao Brasil. E precisa ser feita com extrema cautela, o que demanda uma capacidade de se fazer testes que, por ora, inexiste por aqui. Essa, no entanto, é a realidade de cinco países europeus que prometeram para depois da Páscoa uma reaberturagradual, suave e controlada”.

Até economistas concordam

Nos Estados Unidos, oito em dez macroeconomistas concordam que o isolamento social é primordial no combate ao novo coronavírus. Para Uip, a adesão ao isolamento em São Paulo precisa crescer de 54% para 70%, ou não será possível evitar o colapso no sistema de saúde público e privado.

Meirelles sugeriu

Para suportar essa longa espera, Henrique Meirelles defende que há margem para o Brasil adotar uma medida polêmica: imprimir dinheiro. Se normalmente uma iniciativa do tipo causaria inflação, com a atividade econômica em baixa, o risco seria menor. No médio prazo, com o reaquecimento do mercado, caberia ao Banco Central explorar a taxa de juros para reverter a situação. Curiosamente, a solução já havia sido proposta por Lula, e criticada por Eduardo Bolsonaro – alguém que, diferente de Meirelles, nunca presidiu o Banco Central ou comandou o Ministério da Fazenda.

Curtas

  1. O Governo Federal extinguiu o PIS-Pasep para que a população possa sacar R$ 1.045 do fundo de garantia a partir de 15 de junho – boa.
  2. Mais de 25 milhões de brasileiros já se cadastraram para receber o auxílio emergencial de até R$ 1.200,00.
  3. Contra todas as narrativas, um bebê com apenas quatro dias de vida morreu por causa da covid-19 na capital potiguar.
  4. Augusto Aras, o engavetador-geral da República, aproveitou a semana mais curta para engavetar as representações que acusavam o presidente de cometer crime por pregar na TV contra o isolamento social.
  5. Um juiz federal achou por bem bloquear os fundos eleitoral e partidário para que sejam usados contra o novo coronavírus, mas é difícil crer que essa decisão siga de pé por muito tempo.
  6. Sikêra Jr, o novo queridinho da elite que se acha povão, teve o perfil excluído do Facebook e, claro, reclamou de censura – mas bem que a rede poderia ser mais clara ao explicar a expulsão.
  7. Como era de se esperar, o bom momento vivido por João Doria já passou a ser criticado por aqueles que mais fazem oposição a qualquer tucano: os próprios aliados.
  8. Cientistas americanos alertaram a Casa Branca de que o calor não deve ser um obstáculo ao avanço do novo coronavírus.
  9. Com a desistência de Bernie Sanders, a eleição presidencial americana terá menos um maluco na disputa, o que não deve ter sido celebrado pelo maluco que buscará a reeleição no final do ano.
  10. Nas últimas 24 horas, a covid-19 matou 133 brasileiros, elevando para 800 o total de mortos, e para quase 16 mil o de casos confirmados.

Um Pio

Abre Aspas

“Antissemitas e oportunistas estão sempre à espreita para, em momentos como este, fazerem ataques contra judeus e outras minorias.”

Confederação Israelita do Brasil, por nota, acusando um blogueiro governista de desprezar o sofrimento das vítimas do holocausto ao politizar o uso da cloroquina explorando o drama da Segunda Guerra.

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Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BBC, CNN, Época, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, Meia Hora, O Antagonista, O Globo, UOL, Valor Econômico e Veja.

23.03.2020 - Brasília/DF - Presidente Jair Bolsonaro durante declaração à imprensa. Foto: Isac Nóbrega/PR.

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 23 de março de 2020 por Isac Nóbrega, fotógrafo da Presidência da República, em Brasília, Distrito Federal. Nela, Jair Bolsonaro fala à imprensa.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque ainda iremos carregar esse peso por muito tempo.

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