Grande História

A conivência das redes com as milícias digitais de Jair Bolsonaro

09.11.2016 - Brasília/DF - Conselho de Ética rejeita processo contra o deputado Jair Bolsonaro, por elogiar Brilhante Ustra. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil.

Enquanto a Justiça avança contra o gabinete do ódio, as redes sociais fazem corpo mole e fingem que o problema não é com elas.

No 24 de julho de 2020, por determinação de Alexandre de Moraes, perfis de 16 bolsolavistas foram bloqueados no Twitter e Facebook. Segundo o ministro do Supremo Tribunal Federal, a medida seria necessária para que tais canais não mais fossem utilizados “como instrumento de condutas criminosas apuradas nestes autos“.

Controversa como tudo o que deriva do inquérito aberto pelo próprio STF na apuração de notícias falsas, a iniciativa dividiu opiniões, pondo em lados opostos quem entende a liberdade de expressão com um direito absoluto, e quem concorda que o respeito a direitos fundamentais igualmente importantes limita a liberdade de expressão em si.

Cobranças

Na mesma data, Olavo de Carvalho cobrou publicamente uma reação de Jair Bolsonaro. Que passou o recibo no dia seguinte, fazendo a Advocacia-Geral da União ingressar no Supremo com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade contra a decisão de Moraes. Na prática, colocou o povo brasileiro para bancar a defesa de alguns dos milionários atingidos na véspera — o que, por óbvio, não cabe à AGU.

Puniu os seguidores

Solicitada ainda em maio, a ordem só foi cumprida em julho, ou após o Supremo dar um ultimato estipulando multa de R$ 20 mil por cada novo dia de atraso. As redes alegavam que os nomes e CPFs fornecidos pelo STF não seriam suficientes para identificar figuras que estão há meses no noticiário. O Twitter, no entanto, limitou-se a impedir o acesso de brasileiros a tais perfis, permitindo que os alvos do inquérito usassem as próprias contas denunciando ao mundo o que chamam de censura.

Ação seletiva

Não é a primeira vez que a rede é generosa com o que batizaram no Palácio do Planalto de “Gabinete do Ódio”. Já se sabe que, no Twitter, mais da metade das mensagens positivas ao governo Bolsonaro são publicadas por robôs. E que a ação de tais bots sofreu uma queda substancial após a Polícia Federal cumprir em maio ordens de busca e apreensão contra os bolsolavistas. Mas a tecnologia que a empresa demonstrou ter para derrubar 23.750 contas que espalhavam desinformação em benefício da China segue sem conter os bots que já trabalham pela reeleição de Bolsonaro.

Vista grossa

No início do ano, a plataforma havia feito toda uma vista grossa a ataques coordenados contra mulheres que, em veículos jornalísticos, noticiavam o que o governo Bolsonaro preferia que jamais se tornasse público. Quando a PGR solicitou dados de dois perfis “Pavão Misterioso” que espalhavam mentiras contra o STF, o Twitter respondeu que não tinha obrigação de atender ao pedido.

Na rede ao lado

No Facebook, a situação não é muito distinta. Acionado pela CPMI das Fake News, disse que, assim como o Twitter, só entregaria os dados solicitados após decisão da Justiça norte-americana. Não restou muito à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito alertar ambas as redes de que, por aquele caminho, incorreriam no Brasil em crimes de desobediência e obstrução de investigação.

Doeu no bolso

A rede de Mark Zuckerberg só passou a colaborar após mais de 900 marcas, constrangidas por ciberativistas, aderirem a um boicote publicitário. Em outras palavras, quando sentiu no bolso uma ínfima fração do que os alvos de tanto linchamento virtual sentem na saúde mental. Foi quando de repente se tornou possível avançar contra 73 contas ligadas a integrantes do gabinete de Bolsonaro — ou do presidente que não só boicotou o boicote, como também, entre os primeiros semestres de 2019 e 2020, dobrou os gastos em publicidade no Facebook.

Chantagem

A remoção de contas atingiu também o Instagram, mas poupou o WhatsApp, ou o serviço que, no Brasil, tem se convertido numa espécie de deep web de massa. Em vez de apontar uma saída, o “Zap” tem feito chantagem emocional contra a “lei das fake news”. Em especial, contra a obrigação de guardar por três meses dados de disparos em massa. Trata-se justamente do trecho que, acreditam especialistas, pode surtir efeito contra a indústria da desinformação, uma vez que monitora os arquivos compartilhados sem violar a criptografia das conversas privadas.

Triangulação

Durante a eleição de 2018, a empresa de marketing Yacows vendia um cadastro com milhões de números telefônicos e dados pessoais para disparos em massa no WhatsApp. Depoimentos à CPMI das Fake News citaram a AM4 como autora do conteúdo que a Yacows distribuía no período eleitoral. Um dos sócios da AM4 integrou o governo de transição de Bolsonaro.

Não basta ser

Se, nessa briga, o Google mantém-se neutro, não faz questão de aparentar. Tanto que, no início de março, quando 40 empresários se encontraram na FIESP para bajular Bolsonaro, o presidente do Google Brasil marcou presença.

493%

A Quaest estima que há youtuber bolsolavista ganhando até R$ 150 mil por mês com vídeos de duros ataques às instituições democráticas. Há influenciadores recebendo indiretamente verba publicitária da SECOM, do Banco do Brasil, do Banco do Nordeste e do BNDES. É um esquema tão vantajoso que já há deputados (governistas e de oposição) usando a cota parlamentar em canais que retornam ganhos quase seis vezes acima do valor investido na produção.

Sem querer ofender

Uma extremista que adotara um pseudônimo nazista garante ter recebido em maio cerca de R$ 9,8 mil pelos anúncios exibidos junto aos vídeos que protagonizava no YouTube. Mas o canal só foi desmonetizado após a youtuber ser presa por atacar o STF com fogos de artifício. Antes, o Google achou por bem priorizar a exclusão do desenho de um ovo cozido no emoji de salada — para não soar ofensivo a veganos.

Faturamento bilionário

Só no ano passado, o YouTube faturou em todo o mundo 15 bilhões de dólares com anúncios, ou algo em torno de R$ 60,8 bilhões na cotação de 31 de dezembro. Como a plataforma fica com 45% de comissão, é possível inferir que, do outro lado, os geradores de conteúdo dividiram entre si o equivalente a R$ 33,5 bilhões.

Cabo de guerra

É claro que a pressão não se dá por via única. De um lado, o futuro presidente do STF adianta que topa responsabilizar as plataformas digitais por tanta mentira espalhada. Do outro, porque o Twitter sugeriu, após onze anos de inércia, que os seguidores checassem as mentiras que o presidente americano compartilhava, há gente como Donald Trump assinando decreto contra a proteção legal das redes sociais. No meio do tiroteiro, bilhões de seres humanos servem de cobaia a experimentos realizados com o objetivo de viciar o usuário, independente de o vício causar graves danos à saúde mental, ou uma visão tão deturpada da realidade que já coloca as maiores democracias do mundo em risco.

Liberalismo

Desde a origem, a internet se guiou por uma lógica extremamente liberal. E, de cara, a humanidade se permitiu avanços nunca imaginados. Mas, nos últimos anos, efeitos colaterais indesejados se mostraram para lá de danosos. Portanto, já passou da hora de o Vale do Silício arrumar aquilo que bagunçou. Como, a exemplo dos casos aqui relatados, a iniciativa não tem se dado por livre e espontânea vontade, que as democracias restantes usem os caminhos legais na proteção dos próprios valores democráticos.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BBC Brasil, BuzzFeed News, CNN Brasil, Crusoé, Estado de Minas, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, IstoÉ, O Antagonista, O Globo, O Tempo, Poder 360, UOL, Valor Econômico e Veja.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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