Grande História

Já há consultoria calculando a chance de Jair Bolsonaro cair

31.03.2020 - Brasília/DF - Pronunciamento do Presidente da República, Jair Bolsonaro. Foto: Isac Nóbrega/PR.

O rebaixamento da democracia, os organizadores do ato golpista, a repreensão do STF, a saudade de Moro, a astúcia da PF, e muito mais.

O V-Dem possui informações sobre mais de dois séculos da história das democracias. No início deste ano, o instituto da Universidade de Gotemburgo rebaixou o Brasil de democracia “liberal” para “eleitoral”. Na última década, só Hungria, Turquia, Polônia e Sérvia tiveram um desempenho pior. De 2017 para cá, a brasileira foi uma das nações que registraram a maior queda nos índices democráticos.

A novidade, no entanto, é que finalmente se percebe lá fora o que aqui já tira o sono. Por exemplo, a manifestação golpista da qual Jair Bolsonaro participou foi organizada com a ajuda de um vice-presidente do partido que o presidente da República tenta levantar. O grotesco ato de domingo contou ainda com a força de um assessor da deputada federal Bia Kicis, e uma ex-secretária de Damares Alves, “sinistra” da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Decano

Ontem, coube mais uma vez a Celso de Mello a mais dura resposta a mais um ataque grosseiro de Bolsonaro contra os jornalista que cobrem a rotina do Planalto. Em despacho no inquérito aberto contra o presidente, o decano garantiu que a liberdade de imprensa “não pode ser comprometida por atos criminosos de violência política (ou de qualquer outra natureza), por interdições censórias ou por outros artifícios estatais“.

Morde e assopra

Só hoje, Dias Toffoli se deu a recriminar o “cala a boca” gritado contra a imprensa, mas o fez em nome de todo o STF. Ontem, o presidente do Supremo preferiu afagar o golpismo da ala fardada do Palácio do Planalto. E derrubou a decisão que removia a homenagem que o Ministério da Defesa havia feito ao golpe militar de 1964 – ou àquilo que, em 2018, o próprio Toffoli preferiu chamar de “movimento“.

Saudades

Os fardados da ativa, no entanto, estão mortos de saudades de Sergio Moro. Sem o juiz federal que arbitrou a Lava Jato para, em seguida, colocar-se na defesa da parte, os generais perderam a reserva moral que justificava o apoio a um governo insano. Agora, precisam se contentar com as reservas imorais, como o presidente da República deixando escapar às lentes dos fotógrafos que reclamava do combate a garimpos ilegais – o que resultaria na exoneração dos responsáveis pela operação do Ibama.

Antilavajatismo

Os antilavajatistas –sim, existem, e são o principal pilar de sustentação do governo Bolsonaro– emplacaram na imprensa que “a montanha pariu um rato“. Usada agora contra o ex-ministro da Justiça, a tradução das aspas de Horácio havia sido sacada por Moro quando a Vaza Jato trouxe ao mundo detalhes das conversas que mantinha com Deltan Dallagnol. Para a surpresa de exatamente ninguém, Augusto Aras já surgiu concordando que seria impossível denunciar Bolsonaro com o depoimento colhido pela Polícia Federal no final de semana.

Astúcia

O cartão de memória que continha uma das provas foi apagado antes de ser devolvido por um assessor palaciano. A audácia é tamanha que Bolsonaro tentou aproveitar a crise para acusar Moro de infringir a Lei de Segurança Nacional. PGR e presidente, no entanto, não devem contar com a astúcia da PF, que conseguiu recuperar até mesmo mensagens já deletadas do celular periciado.

Pressão interna

Após toda a polêmica, Rolando de Souza, o fantoche do fantoche de Carlos Bolsonaro que havia sido reprovado num exame psicotécnico, nomeou Tácio Muzzi para a Superintendência da PF fluminense, aquela na qual Bolsonaro tanto queria interferir. Por pressão interna, contudo, o escolhido não veio da lista de interesse do presidente. Antes desta missão, Muzzi coordenou a Lava Jato carioca, e atuou em operações que prenderiam peixes gigantescos como Sergio Cabral e Eike Batista.

Análise de risco

Para a Eurasia Group, no entanto, nada disso há de ter peso maior numa eventual queda de Bolsonaro do que a crise humanitária que, como se percebe nesta coluna, vem sendo eclipsada pela crise política. Segundo a análise de risco, haveria apenas 25% de chance de o presidente não concluir o mandato. O que é um péssimo sinal para o Governo Federal: em 2015, a mesma consultoria previu que Dilma Rousseff não só sobreviveria ao processo de impeachment, como até poderia se beneficiar dele.

Um passo por vez

Como se sabe, a “presidenta” caiu nove meses depois. Mas, por ora, o que importa é que, com menos de 17 meses de mandato, já há consultoria de risco calculando a chance de Jair Bolsonaro cair.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BBC, BR Político, Crusoé, El País, Estadão, Exame, Folha de S.Paulo, G1, Infomoney, Jota, O Antagonista, O Globo, Piauí, Poder 360, UOL, Valor Econômico, Veja e Vortex Media.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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