Grande História

O delegado que vazou a Furna da Onça aos Bolsonaros é conhecido na PF por um apelido

27.11/2018 - Brasília/DF - Jair Bolsonaro concede entrevista à imprensa, no CCBB. Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

A insistência na cloroquina, a Saúde aos milicos, as derrotas das narrativas, o silêncio de Bolsonaro, a lista de delegados, e muito mais.

Mesmo com a Organização Mundial de Saúde reforçando que não foi comprovada a eficácia da cloroquina no combate à covid-19, o Ministério da Saúde trabalha para aumentar os estoques do medicamento. O Governo Federal quer comprimidos suficientes para 375 mil tratamentos, cem mil a mais do que o total de casos confirmados no Brasil desde o início da pandemia.

Ontem, Luiz Henrique Mandetta revelou que, por intermédio da Anvisa, o governo Bolsonaro tentou alterar até a bula do remédio, mas não obteve sucesso. Quanto ao protocolo que liberou o uso da cloroquina para qualquer vítima do novo coronavírus, não era protocolo, não obrigava o SUS a fazer uso da droga, e nem assinatura trazia.

Ministério de milicos

O Brasil enfrenta a pior crise sanitária em cem anos com o Ministério da Saúde entregue a militares. De doze nomeados por Eduardo Pazuello, exatamente nenhum é formado em medicina. Um deles, inclusive, espalhava nas redes sociais mentiras sobre a cloroquina, e ofensas contra a OMS. Não à toa, o general que atua como interino vem precisando se aconselhar com Nelson Teich, o ministro que se demitiu antes de completar o primeiro mês de fritura da parte de Jair Bolsonaro.

Pior do que câncer

Mantido o ritmo de óbitos contabilizados na última terça-feira, o Brasil terá, ao término de um ano, perdido 430 mil pessoas para a covid-19. Por isso se chegou à conclusão de que o novo coronavírus já mata diariamente mais do que câncer (com 230 mil mortes em 2019) e problemas do coração (com 100 mil mortes no mesmo período) somados. As curvas de casos e óbitos, todavia, seguem em crescimento acelerado, comprovando que o país ainda não chegou ao pico da pandemia, e continua longe de controlar a situação.

Tá lá uma narrativa no chão

Mas não só as narrativas governistas sobre o novo coronavírus são desmascaradas. As que defendem a interferência bolsonarista na Polícia Federal têm o mesmo desfecho. Ontem, caiu mais uma, a de que Bolsonaro estaria insatisfeito com a apuração do atentado cometido por Adélio Bispo em 2018. Cairo Duarte, superintendente da PF mineira, garantiu em depoimento que o presidente da República nunca oficializou qualquer contrariedade ao resultado apresentado pelos investigadores.

Quem cala

O calo no sapato presidencial, contudo, parece vir do vazamento da operação Furna da Onça. Desde que Paulo Marinho contou que Nathália e Fabrício Queiroz foram exonerados após Jair e Flávio Bolsonaro serem alertados da investigação, o “Recruta Zero” tem evitado a imprensa.

Devassa

O suplente do senador já deu um depoimento, e causou um impacto positivo no Ministério Público Federal. Chegou à imprensa, contudo, que “alguém poderoso” estaria disposto a fazer de Marinho um novo Francenildo, e exigiu “informalmente” dados bancários do depoente. Mas a defesa prometeu pedir uma investigação sobre a devassa ilegal que estariam fazendo no sigilo do empresário.

Mesma data

O 15 de outubro de 2018, no entanto, não foi apenas a data em que Jair e Flávio Bolsonaro respectivamente exoneraram Nathalia e Fabrício Queiroz. Foi também o dia em que uma denúncia anônima acertou o nome do assassino de Marielle Franco, mas errou o do mandante.

Falso testemunho

Naquela segunda-feira, um anônimo entregou que Ronnie Lessa recebera R$ 200 mil de Marcello Siciliano para matar Marielle. Durante as investigações, uma testemunha chegou a garantir às polícias Civil e Federal que o vereador planejara a morte da vereadora juntamente com o ex-policial Orlando Curicica. Mas a Procuradoria-geral da República concluiria que a execução teria sido, na verdade, arquitetada por Domingos Brazão, um conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro. Teria, inclusive, partido dele a ideia de usar um falso testemunho contra o adversário político.

Cinco suspeitos

Ao explicar a obstrução de Justiça, a PGR listou um total de cinco suspeitos. Dentre eles, Hélio Khristian Cunha de Almeida. O delegado da Polícia Federal foi justamente quem apresentou a testemunha falsa. No passado, ele havia tentando extorquir o vereador Siciliano. Em 2013, Hélio chegou a ser condenado por um esquema de cobrança de propinas de empresários, mas a decisão seria anulada. A PF, inclusive, já descobriu ligações dele com Gilberto Ribeiro da Costa, um ex-agente da própria corporação que trabalhou no gabinete de Brazão no TCE.

O desconhecido

Na busca por quem vazou a Furna da Onça, o diretor-executivo da PF precisou responder em depoimento se conhecia algum delegado próximo a Jair Bolsonaro. Carlos Henrique Oliveira de Sousa respondeu: Marcio Derenne. De fato, em 2008, Flávio Bolsonaro usou a ALERJ para uma homenagem a este delegado. Mas o relato de Paulo Marinho descrevia o “vazador” da Furna da Onça como alguém que em 2018 ainda não conhecia o senador eleito.

A aposta

Nas redes sociais, as bancas de aposta preferiram apontar o dedo para Alexandre Ramagem, que assumiu a segurança de Bolsonaro duas semanas após a exoneração de Fabrício e Nathália Queiroz. A jornalista Thaís Oyama, entretanto, garante que o vazamento não partiu do fantoche que Carlos Bolsonaro tentou emplacar no comando da PF, mas de alguém “conhecido na corporação por um apelido“.

O aposto do aposto do aposto do aposto

É claro que deve haver muito policial federal conhecido internamente por uma alcunha qualquer. E nenhuma hipótese merece ser descartada. Em todas as matérias referenciadas mais acima, contudo, só um nome é eclipsado pelo apelido popularizado na corporação: Hélio Khristian, conhecido como HK, o delegado que teria ligações com Gilberto da Costa, aquele ex-agente da própria PF que atuou com Domingos Brazão, o tal conselheiro do TCE que, segundo a PGR, teria arquitetado a morte de Marielle Franco.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: CNN Brasil, El País, Época, Estadão, Exame, Folha de S.Paulo, G1, O Antagonista, O Globo, Poder 360, UOL, Valor Econômico e Veja.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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