Grande História

Dilma e Collor caíram por MUITO menos

20.05.2020 - Brasília/DF - Jair Bolsonaro e Rodrigo Maia se reúnem em videoconferência com governadores dos estados. Foto: Marcos Corrêa/PR.

A falsa pacificação, a ameaça golpista, a narrativa da bala de festim, o conteúdo bombástico, a urgência pelo impeachment de Bolsonaro.

Na véspera, Jair Bolsonaro tinha chamado a atenção por, numa reunião com governadores, se comportar como adulto. Tudo tinha sido previamente ensaiado com Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre. Em paralelo, Augusto Heleno surgia em manchete garantindo que as Forças Armadas não protagonizariam um golpe militar. Mas, às 15h18 da sexta-feira, o próprio chefe do Gabinete de Segurança Institucional, com apoio das Forças Armadas, rasgaria a fantasia do democrata que nunca foi, vindo a ser endossado pelo presidente da República após alguns minutos.

Celso de Mello havia pedido à PGR um posicionamento sobre três notícias-crimes apresentadas pela oposição. Dentre as medidas propostas, havia a busca e apreensão dos celulares de Carlos Bolsonaro e do próprio presidente. Foi quando Heleno publicou uma nota golpista em que ameaçava outros poderes da República com o que chamou de “consequências imprevisíveis“. Em seguida, complicando ainda mais a situação, Bolsonaro compartilhou a mesma ameaça no Facebook.

Blefe? Cortina de fumaça?

Houve quem dissesse que não era blefe, e a dupla iria até o fim na ideia. Houve quem percebesse no gesto uma distração para reduzir o impacto do vídeo polêmico que o decano do STF estava para liberar. Em off, um membro do Supremo classificou o governo de “golpista“. Outro lembrou que a Constituição está a favor do Supremo. E cinco já calculavam como reagir ao chefe do GSI.

Malditos spoilers

Se a ideia era gerar uma distração, não deu muito certo. Pois, às 17h em ponto, Celso de Mello liberou o vídeo da polêmica reunião ministerial de 22 de abril de 2020, ainda que sem breves insultos à China e ao Paraguai. Nas quase duas horas de projeção, deu para ver tudo o que a imprensa já havia vazado, e mais um pouco. O clima de reprise, entretanto, rendeu comentários de que a tal bala de prata talvez fosse de festim.

Espionagem

Mas o conteúdo deixa claro a qualquer pessoa razoável que Jair Bolsonaro queria, sim, trocar o comando da Polícia Federal por alguém que vazasse a ele detalhes do trabalho da corporação. Em dado momento, o presidente confessa que possui um sistema de informação particular que estaria em pleno funcionamento, o que soou uma confissão da existência da “ABIN paralela” de Carluxo. Ao que tudo indica, a arapongagem tem flagrado membros do STF e presidentes da Câmara e Senado.

Golpismo

Defendendo que o Ministério da Defesa encampe a ideia, Bolsonaro chama de contragolpe o que na verdade seria um golpe de Estado. E trata governadores e prefeitos como ditadores, o que carece de qualquer sentido. Mas é o próprio Recruta Zero quem fala em sanar crises recorrendo ao artigo 142 da Constituição, desejo maior dos entusiastas de uma intervenção militar. Até o armamento da população serviria para um levante chavista contra o que chamam de “establishment”.

Genocídio

O vídeo ainda mostra Bolsonaro prometendo pessoalmente sabotar o isolamento social, única medida capaz de conter o avanço das milhares de mortes por covid-19. Na data da reunião, o total já se aproximava das 3 mil em todo o Brasil. O presidente reclama até do comandante da Polícia Rodoviária Federal, que seria exonerado por publicar uma nota de pesar pelo óbito de um policial vítima do novo coronavírus. Damares Alves chega a prometer que pedirá a prisão de prefeitos e governadores que detinham sabotadores da quarentena.

Flertes abjetos

A fala mais abjeta, como antecipado, sai de Abraham Weintraub. Sem nada de útil a acrescentar à reunião, o “sinistro” da Educação vomita insultos contra tudo e todos, e flerta com o que de pior há na humanidade ao reclamar de indígenas e ciganos. Em dado momento, defende que todos os membros da Suprema Corte sejam presos.

Arrastão jurídico

A mais descabida, no entanto, vem de outro “sinistro”, o do Meio Ambiente. Ricardo Salles enxerga nas quase 3 mil mortes que se acumulavam uma ótima oportunidade para correr com medidas que ele próprio chama de “infralegais“, e que certamente não teriam sucesso sob o olhar atento da imprensa. Entregando que o plano não é defender o meio ambiente, mas atacá-lo, Salles inclui o Ministério da Agricultura no elenco que poderia estrelar aquela espécie de arrastão jurídico.

Guedes x Marinho

Paulo Guedes alerta Rogério Marinho, ministro do Desenvolvimento Regional, que tocar contra a pandemia uma agenda desenvolvimentista regada a programas sociais resultaria em erros já cometidos por gestões anteriores. Nas redes sociais, correu a versão de que o ministro da Economia evitaria cobrir o prejuízo dos pequenos comerciantes para lucrar com grandes empresários. Mas, em verdade, a fala completa dá a entender que ambos seriam socorridos, mesmo com o governo lucrando de um lado, e tendo prejuízo do outro. Numa primeira versão, esse texto endossou o equívoco, agora reparado.

Decoro

E tudo se dá em absurdas quebras de decoro da parte do presidente e ministros mais alinhados ideologicamente, com uso constante de mentiras e palavras de baixo calão que não cabem em expediente de qualquer servidor público cujo salário seja pago por impostos recolhidos pelo povo brasileiro.

Tréplica

Ao tentar explicar o ocorrido, Jair Bolsonaro reprisou vários dos absurdos já proferidos. Mas deixou escapar que policiais civis e militares vazavam ao presidente detalhes de investigações que ocorriam no Rio de Janeiro. Em outra entrevista, incluiu dentre as fontes de informação amigos de capitais como Fortaleza e Manaus. O que fortalece em muito a denúncia feita por Paulo Marinho, ainda que os detalhes trazidos pelo suplente de Flávio Bolsonaro indiquem que o vazamento da operação Furna da Onça se dera por um policial federal.

Há tudo

Não só há crimes, como há testemunhas. Não só há testemunhas, como há provas. Não só há provas, como há confissões. Tudo no plural. Só não enxerga quem não quer enxergar. E a sabedoria popular ensina que este é o pior cego. Por muito menos do que isso, o Brasil encurtou os mandatos de Fernando Collor de Mello e Dilma Rousseff. E não deveria fazer menos com Jair Bolsonaro.

Dez aviões

Do outro lado do mundo, um Airbus A320 caía no Paquistão matando 97 pessoas. Enquanto isso, com o acréscimo de 1.001 brasileiros à lista de vítimas fatais do novo coronavírus, ocorria por aqui o equivalente a dez desastres aéreos como o paquistanês. Por causa do que ocorre no Brasil, que vem tendo um quarto das mortes por covid-19 no mundo, a América do Sul já se tornou o novo epicentro da pandemia. Na fatídica reunião de 22 de abril, contudo, só o ministro da Saúde demonstrou uma preocupação real com as mortes que se avolumavam. Mas ele já se demitiu.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: CNN Brasil, Correio Braziliense, Crusoé, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, Jovem Pan, O Antagonista, O Dia, O Globo, UOL, Valor Econômico, Veja e Vortex Media.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Click to comment

You must be logged in to post a comment Login

Leave a Reply

To Top