Grande História

Dilma Rousseff começou a cair quando o vice se deu a escrever carta

09.03.2020 - Brasília/DF - O presidente da República em exercício, Hamilton Mourão, fala à imprensa. Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil

A derrota das narrativas presidenciais, as vitórias de Moro, a novela dos exames, a MP da irresponsabilidade, a guerra contra e a favor do vírus, e muito mais.

Em mais uma derrota para as narrativas presidenciais, o ex-superintendente Carlos Henrique Oliveira garantiu que a segurança da família Bolsonaro não é feita pela Polícia Federal, mas pelo Gabinete de Segurança Institucional, aquele chefiado por Augusto Heleno. Noutra derrota, um segundo inquérito concluiu que Adélio Bispo agiu sozinho quando, em 2018, esfaqueou Jair Bolsonaro. Numa terceira, os diálogos por WhatsApp deixam cristalino que a deputada federal Carla Zambelli intercedia junto a Sergio Moro em nome do Palácio do Planalto. Numa quarta, somaram 19 familiares do presidente da República sob investigação no Rio de Janeiro.

Oito depoimentos confirmaram que, desde agosto de 2019, Bolsonaro queria trocar o diretor-geral da Polícia Federal. Sete confirmaram que havia também interesse em mudar o comando da Superintendência do Rio. O placar está bem favorável a Moro, mas a investigação precisa delinear melhor quais crimes foram cometidos pelo presidente. Os investigadores, inclusive, não se aprofundaram num encontro atípico que o pai de Carlos Bolsonaro teve com Carlos Henrique Oliveira, que chefiaria a PF fluminense. E nem todo mundo esqueceu que, em janeiro, o próprio ex-ministro da Justiça garantia em entrevista que o presidente não interferia no trabalho da corporação.

Vale a pena ver de novo

A entrega de três exames comprovando que testou negativo para covid-19 deveria funcionar como capítulo final da novela. Mas o roteiro veio cheio de furos. O Planalto não informou se foi feito algum teste sorológico, o que poderia confirmar se Bolsonaro teve a doença, ainda que sem sintomas. No exame realizado pela Fiocruz, não há nome, CPF, RG ou data de nascimento que confirme se tratar de um laudo sobre o presidente. Num dos exames do Sabin, o examinado usou o nome de um garoto de 16 anos que nunca fez teste para coronavírus, mas tem acesso ao Hospital da Força Aérea por causa da mãe militar. E vale lembrar que, em março, o Hospital das Forças Armadas, o mesmo usado pelo chefe de Heleno, omitiu dois nomes de uma lista de pacientes contaminados.

A próxima vítima

Ainda na noite de ontem, surgiram cenas da próxima novela. Bolsonaro editou uma Medida Provisória limitando a responsabilização de agentes públicos por ação ou omissão em atos ligados à pandemia. Como a opinião pública desconhece quem mais se omita ou sabote o combate ao novo coronavírus, a iniciativa foi lida como uma forma de blindar o próprio presidente de medidas judiciais. Em resposta, o senador Randolfe Rodrigues prometeu entrar com uma ação no STF contra a MP. Alguns magistrados adiantaram que o texto seria vago e inconstitucional. Mas o senador Antonio Anastasia, que não integra a base do governo Bolsonaro, entende que a MP 966 trará a segurança jurídica necessária para se vencer a guerra contra o vírus.

Qual guerra?

É guerra, tem que jogar pesado!” As aspas vieram de Jair Bolsonaro, mas não tinham por alvo a covid-19, e sim os governadores que a combatem. O presidente deu o comando em reunião com empresários contrários ao isolamento social. Em público, protagonizaria mais cenas demagógicas, alegando que o comércio precisa abrir pois, segundo o homem que tanto pregava contra o Bolsa Família, “a fome mata“.

Brasil x Argentina

Questionado sobre o que faz o Brasil ter mais vítimas fatais de covid-19 que a Argentina, Bolsonaro acusou a diferença de tamanho da população. Mas, se a daqui é quase 5 vezes maior que a de lá, o novo coronavírus tem matado 40 vezes mais brasileiros do que argentinos.

Brasil x Suécia

Bolsonaro sugeriu ainda uma comparação com a Suécia, que manteve o comércio em funcionamento, mas acumulou até o momento o equivalente a um quarto da mortes ocorridas no Brasil. A população sueca, todavia, é menor do que a de São Paulo, capital. Lá, a taxa de mortes por cem mil habitantes é cinco vezes maior que a nacional. Proporcionalmente, é como se já tivesse morrido mais de 70 mil brasileiros por aqui.

Verba volant

A alternativa menos ousada a essa distopia se chama Hamilton Mourão. Que não tem feito questão de parecer alternativa. Em artigo, reclamou que nenhum país “vem causando tanto mal a si mesmo como o Brasil“. Mas apontou quatro dedos: um para a imprensa, outro para os governadores, outro para os demais poderes da República, e um para os ambientalistas. Contra o titular que manhã, tarde e noite gera as crises mais graves dessa jovem democracia, apontou nenhum.

Scripta manent

Vale lembrar, no entanto, que Dilma Rousseff começou a cair quando o vice-presidente se deu a escrever cartas. E já vazam até lista de quem seriam os ministros de um futuro governo Mourão. Que certamente é falsa, mas reflete uma vontade verdadeira de deixar o governo Bolsonaro no passado.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Correio Braziliense, Crusoé, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, O Globo, O Antagonista, Poder 360, UOL e Veja.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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