Grande História

É possível derrotar a fábrica de mentiras de Bolsonaro

11.03.2020 - Brasilia/DF - O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e o ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, participam de comissão Geral para atualização da situação nacional do coronavírus. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil.

Os robôs do gabinete do ódio, a prorrogação da CPMI das Fake News, a fritura de Mandetta, a queda de popularidade de Bolsonaro, e muito mais.

Acuado por semanas seguidas de panelaços, o gabinete do ódio tem trabalhado na potência máxima. No Twitter, mais da metade das mensagens favoráveis a Jair Bolsonaro são publicadas por robôs. O próprio presidente da República, como se não conhecesse as dificuldades do SUS, deu-se a dizer que desconhece no país qualquer hospital que esteja lotado. E, numa incômoda reincidência, a deputada federal Bia Kicis segue publicando notícias falsas de forma a beneficiar a narrativa presidencial.

Mas, a exemplo do que já ocorreu com membros da família Bolsonaro, o pastor Silas Malafaia teve conteúdo mentiroso excluído das redes sociais. E, prorrogada por mais seis meses, a CPMI das Fake News deve se focar nas mentiras publicadas sobre a covid-19. A Polícia Civil mineira, inclusive, já descobriu o autor do vídeo compartilhado (e apagado) por Bolsonaro com mentiras sobre a Ceasa de Belo Horizonte. Pela fraude grosseira, o autônomo de 48 anos pode pegar até seis meses de prisão.

Todavia, cabe ressalva no caso da professora que, em outro vídeo compartilhado pelo presidente, pedia por militares nas ruas. Ela não esconde o amor por Bolsonaro, e vende um curso virtual de caligrafia que contradiz a versão de que não poderia trabalhar no isolamento. Mas, além de nada disso justificar as mentiras espalhadas contra a profissional, ela segue sem alunos.

Cinismo

O governo Bolsonaro minimiza os riscos da pandemia, mas, nas três ações propostas ao STF, justifica os pedidos com a gravidade do avanço da covid-19. Mesmo assim, o presidente disse que apenas aguarda o apoio da opinião pública para assinar um decreto reduzindo o isolamento. Inclusive, leitos de hotel já são mapeados pelo Governo Federal para um eventual e sem base científica isolamento vertical, aquele que atingiria apenas grupos de risco.

Fritura pública

A fritura do ministro da Saúde já é explícita. Em entrevista na noite de ontem, Bolsonaro reclamou que falta humildade a Luiz Henrique Mandetta, e ressaltou que ninguém é “indemissível“, ainda que tenha reconhecido que o momento não seria para demissão. Mandetta, que participava de uma reunião com infectologistas enquanto o chefe o queimava na rádio, disse que não comentaria as declarações, mas acrescentou que o presidente “tem mandato popular, e quem tem mandato popular fala, e quem não tem, como eu, trabalha” – o que já soou um comentário para além de justo.

Gota d’água

No entanto, a paciência do ministro tende a se esgotar caso o chefe participe de mais uma manifestação criminosa convocada pelos bolsolavistas para o próximo domingo. Mandetta conta com o apoio explícito da esposa de Sergio Moro, que, ao publicar nas redes sociais que estava ao lado da ciência, deixou claro ser a mais audaciosa daquele lar.

Não é perfeito

É verdade que o trabalho está atrasado. Menos de 1% dos 15 milhões de testes rápidos prometidos foram entregues. Até veterinários o ministério da Saúde tem arregimentado no improviso contra o avanço do novo coronavírus. E alguns erros constrangem. Ontem mesmo, o ministro anunciou que a primeira morte por covid-19 no Brasil teria ocorrido em janeiro, ainda antes da confirmação do primeiro caso. Hoje, descobriram que tudo não passou de um erro de digitação, e a referida morte, na verdade, ocorrera na semana passada.

Mas…

Mandetta, no entanto, mantém um trabalho em sintonia com o das principais autoridades do mundo, diferente daqueles que urubuzam o cargo. Hoje, veio à tona que o presidente da República chegou a pedir por telefone a demissão do ministro da Saúde, que retrucou de forma clara: “o senhor que me demita, presidente”. Para o Rodrigo Maia, o presidente da República não teria coragem de cometer tamanha insanidade. E, de fato, não o demitiu até a conclusão deste texto.

Ciência (7) x (1) Fé

O dia, no entanto, foi de pesquisas de popularidade. E o presidente da República vem sofrendo uma goleada. No Datafolha, o placar da aprovação mostra uma vantagem de 76% a 33% para Mandetta, com a reprovação do ministro em 5% bem magros. No monitoramento da XP Investimentos, enquanto 68% avaliam positivamente o trabalho do ministério da Saúde, apenas 29% pensam o mesmo de Bolsonaro, com outros 44% achando ruim ou péssima a atuação do presidente contra o novo coronavírus. Mas o mais importante: mesmo com 89% dos entrevistados cientes dos reclames do chefe do Executivo contra o confinamento, espantosos 80% seguem concordando que se trata da medida mais eficaz contra a pandemia em curso.

Déjà vu

Ontem, ao destratar o ministro, o presidente da República deixou escapar que reconhece não ter apoio popular suficiente para levar adiante as pretensões mais autoritárias. Ainda que não seja para agora, dada a emergência sanitária, um pedido de impeachment assinado pela OAB pode em breve ser sacado para, em um momento oportuno, encurralar Bolsonaro. Mas, se por todo 2019 foi tratado como um tema precoce, o afastamento do dito cujo já estampa capa de revista semanal, o que não há de ser uma mera coincidência.

Capas da IstoÉ em abril de 2020, durante o governo Bolsonaro, e em julho de 2015, durante o governo Dilma.

Abre Aspas

“O senhor que me demita, presidente.”

Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde, cobrando do chefe uma hombridade que falta ao presidente da República.

Curtas

  1. Na falta de uma aberração melhor para cometer, Jair Bolsonaro aproveitou a manhã desta sexta-feira para mais uma vez ofender jornalistas chamando-os, desta vez, de urubus.
  2. Em mais um aceno para a bancada religiosa, o presidente prometeu convocar um dia de jejum contra o novo coronavírus.
  3. Ironicamente, a sorte do Brasil tem sido a disposição do STF em conter os abusos presidenciais.
  4. A ABJD, inclusive, denunciou Bolsonaro ao Tribunal Penal Internacional por “crime contra a humanidade” ao tomar “atitudes irresponsáveis que, por ação ou omissão, colocam a vida da população em risco”.
  5. A CNI apoia a Medida Provisória que reduz salários e suspende contratos durante a vigência da calamidade pública.
  6. Sobre este tema, o economista Carlos Góes apresentou uma espécie de “meio termo” inspirado na solução implementada na Alemanha.
  7. Na Saúde, o ministério já sabe que os hospitais amazonenses serão os primeiros a entrar em colapso, e já nos próximos dias.
  8. Mesmo no melhor dos cenários, a falta de leitos em hospitais públicos e privados será um drama encarado por todo o Brasil.
  9. O confinamento peruano só permitirá que homens e mulheres saiam às ruas em dias alternados, com proibição para ambos os grupos aos domingos.
  10. O imbróglio com “analistas” governistas resultou em uma promoção para Gabriela Prioli, que ganhará um programa em horário nobre na CNN Brasil.

Desenhou

Um Pio

Vale Seguir

A Interfaces é uma newsletter de tecnologia criada pelos jornalistas Henrique Martin e Samir Salim Jr. Distribuídas às sextas-feiras, traz um resumo comentado do que aconteceu de mais importante no mundo da tecnologia. Para conhecê-la, clique na imagem abaixo.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BR Político, Canal Rural, CNN Brasil, Correio Braziliense, Época, Estadão, Estado de Minas, F5, Folha de S.Paulo, G1, O Antagonista, O Globo, Poder 360, The Intercept, UOL, Valor Econômico, Veja, Vortex Media.

11.03.2020 - Brasilia/DF - O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e o ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, participam de comissão Geral para atualização da situação nacional do coronavírus. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil.

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 11 de março de 2020 por Fabio Rodrigues Pozzebom, fotógrafo da Agência Brasil, em Brasília, Distrito Federal. Nela, Rodrigo Maia e Luiz Henrique Mandetta participam de comissão Geral para atualização da situação nacional do coronavírus.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque, enquanto houver esperança, ninguém estará sozinho.

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