Foto: Kirkandmimi / Pixabay
Ponto de Vista

É preciso uma terceira via — para ontem

Porque a verdadeira oposição tem sido feita por aqueles que são xingados de “isentões” por ambos os lados.

Toda a incoerência de Jair Bolsonaro faz sentido quando se reconhece que, em 2018, o eleitor escolheu um tirano que usa a Presidência da República para fazer do Brasil a tirania que almeja desde a adolescência. De tal forma que o Executivo hoje não caminha com outra agenda além da perseguição a adversários, e da corrosão do que ainda resta de instituição democrática no país.

É um prato cheio para a oposição. Mas esta segue focada na inutilização do combate à corrupção, pauta que já permitiu livrar Lula (e grande elenco) da cadeia, que enterra a Lava Jato, e que não terá fim enquanto aliados dos demais poderes não emplacarem nomes com iguais objetivos nas vagas que Celso de Mello e Marco Aurélio Mello abandonarão no STF.

Contudo, o Brasil tem demandas bem mais urgentes. Precisa combater a covid-19, a corrupção, o crime organizado e a desigualdade. Precisa proteger as mulheres, os povos indígenas, a população das periferias, os trabalhadores, a comunidade LGBT, e as liberdades individuais, religiosa, de cátedra, de imprensa e de expressão. Precisa controlar os gastos públicos. Enfim… Precisa arrumar tempo e força para manter a democracia viva.

Mas nada disso será possível com os pólos ideológicos forçando o brasileiro a escolher entre uma tirania e uma cleptocracia. Com a situação aceitando qualquer aliado independente do passado problemático. Nem com a oposição “oficial” rejeitando o apoio de qualquer um que tenha criticado um dos governos mais impopulares da história.

Não tem muito tempo, o Brasil já se viu polarizado, ainda que em intensidade menor. Foi quando, por receio dos discursos inflamados de Lula e Leonel Brizola, preferiu se aventurar com Fernando Collor de Mello. Que foi um fracasso (quase) tão retumbante quanto Bolsonaro. O processo de impeachment, no entanto, abriu caminho para que uma terceira via se aproximasse de Itamar Franco pelo Itamaraty, e fizesse história —e as únicas duas eleições presidenciais definidas em primeiro turno— organizando a casa a partir do Ministério da Fazenda.

Esse texto não é uma defesa de qualquer nome ou sigla. Nem de ideologia. Mas de um caminho. Porque a verdadeira oposição ao gigantesco erro que o Brasil cometeu em 2018 está sendo feita por quem consegue se desgarrar dos polos. Não por acaso, quando uma voz emerge na multidão, é atacada por ambos os extremos, e com o mesmo apelido pejorativo — “isentão”.

Se um lado está insano, e o outro segue inerte apostando na mesma estratégia que fracassou há dois anos, sobra uma enorme passagem pelo meio. É possível construir essa agenda, esse discurso, esse consenso, essa ponte. A “frente ampla”, se quiser de fato ser ampla, terá necessariamente que ser de centro, ou não conseguirá unir o país. Mas, para tanto, faz-se urgente que lideranças apontem a direção àqueles que se perdem no deserto.

Alguém?

É preciso uma terceira via — para ontem
Click to comment

You must be logged in to post a comment Login

Leave a Reply

To Top