Grande História

É um erro apostar em acertos de Bolsonaro

07.04.2020 - Brasília/DF - O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, participa de coletiva de imprensa no Palácio do Planalto, sobre as ações de enfrentamento ao covid-19 no país. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil.

O cálculo equivocado de Mandetta, a perda de apoio no Planalto, a duração do isolamento social, os testes fracassados com cloroquina, e muito mais

Passadas 48 horas, ficou ainda mais nítido que a entrevista de Luiz Henrique Mandetta no último domingo foi uma forma de forçar a própria demissão, algo que ele nega. No cálculo equivocado do ministro da Saúde, a queda dele faria com que milagrosamente Jair Bolsonaro se tornasse a pessoa responsável que não foi por 65 anos de vida.

Por ora, o gesto serviu apenas para que o entrevistado perdesse apoio dos ministros militares e técnicos do próprio Governo Federal. Tanto que um grupo para discutir a economia “pós-coronavírus” foi criado, mas o Ministério da Saúde só foi convidado após a ausência virar notícia. Nos bastidores, Mandetta já reconhece o erro.

Os dois lados

Criticado e sabotado pelo presidente da República, o isolamento social é mesmo um fardo a ser enfrentado pelo povo brasileiro. Mas, além de tentar evitar por aqui uma tragédia italiana, tem reduzido em 28% o total de acidentes nas estradas, e em 7% o de mortes. Por outro lado, caiu em 70% o número de angioplastias primárias, o que indica que a população pode estar evitando buscar ajuda por receio de contrair o novo coronavírus nos hospitais.

It’s a long way

Em torno de 85% dos brasileiros acreditam que o país retornará à rotina já no próximo junho. É uma leitura otimista e até ingênua dos acontecimentos. Um primeiro estudo mais sério sobre o tema é bem mais pessimista. Segundo o biólogo Atila Iamarino, que ainda pretende se aprofundar na leitura, o texto projeta um distanciamento social e quarentena prolongada ou alternada até pelo menos 2022.

Prepare for the worst

Há chance de o estudo estar equivocado. Mas a humanidade precisa se preparar para a chance de ele estar certo, sob pena de vidas se perderem aos milhões, como ocorreu com a gripe espanhola. Contudo, algumas autoridades brasileiras vêm reprisando erros do século passado, como o de dar à pandemia o status de “gripezinha”.

Presidente doente

Eleito em 1918 para um segundo mandato como presidente da República, Rodrigues Alves pegou gripe espanhola antes de tomar posse, e veio a falecer em janeiro de 1919. Em 2020, Jair Bolsonaro jura que em duas oportunidades testou negativo para novo coronavírus, mas a Presidência da República carimbou de “sigilosos” os exames que provariam a veracidade do juramento.

Onze mortes

Ontem, após uma caminhada, Bolsonaro se sentou no chão por 15 minutos, com os seguranças dificultando o registro da cena incomum. Nas redes sociais, especularam de um tudo, até se não seria o resultado de um suposto uso do medicamento mais defendido pelo presidente. Afinal, em Manaus, um estudo com 81 pacientes foi interrompido depois que vítimas de covid-19 remediadas com altas doses de cloroquina passaram a apresentar ritmo cardíaco irregular. No sexto dia, com 11 mortes, o experimento foi interrompido.

Auxílio ou bomba?

Há o risco real de a economia viver um colapso inédito por aqui. Um milhão de trabalhadores já teve a jornada e o salário reduzidos. O setor automotivo prevê um prejuízo de R$ 42 bilhões só este ano. E o Plano Mansueto, um auxílio emergencial para estados e municípios, após alterado pelo Legislativo, tem sido encarado como pauta bomba pelo Executivo, coisa que Rodrigo Maia nega.

‘Bolsonaro is the worst’

Ontem, o Washingont Post afirmou em editorial que Jair Bolsonaro é o caso mais grave de improbidade no combate à covid-19. Mas só surpreende que mensagem tão clara e forte tenha vindo primeiro da imprensa estrangeira.

Desenhou

Curtas

  1. De ontem para hoje, o Ministério da Saúde confirmou a morte de 204 brasileiros por covid-19.
  2. Para efeito de comparação, o maior desastre aéreo da história do Brasil matou 199 pessoas em 2007.
  3. Ainda num esforço para delinear a gravidade da notícia, o mundo passou a se assustar com o que ocorria na Itália quando o novo coronavírus matava diariamente em torno de 200 pessoas por lá.
  4. Cabe ressaltar ainda que, segundo estimativas, a subnotificação esconde das estatísticas oficiais mais de 200 mil infectados por aqui.
  5. A distração com a pandemia tem permitido a Ricardo Salles cometer maldades, como a exoneração de um diretor do Ibama que cometeu o “crime” de combater garimpos ilegais.
  6. Mesmo com três mortes de indígenas por causa da doença, a Funai segue sem fazer uso dos R$ 10,8 milhões que recebeu para protegê-los da covid-19.
  7. Nem o agronegócio, principal fiador do governo Bolsonaro, está livre dos linchamentos virtuais dos milicianos digitais bolsolavistas – o que deveria servir de alerta, mas a turma só costuma aprender quando sente no bolso.
  8. A Polícia Civil de São Paulo já está investigando o advogado que, em manifestação no final de semana, ameaçou de morte o governador João Doria.
  9. No entanto, a Polícia Militar de São Paulo, em mais um indício de que a corporação anda contaminada politicamente pelo bolsolavismo, alertou o governador de que é contra prender quem desobedeça o isolamento social.
  10. Com isolamento social mais ameno, a Suécia tem sete vezes mais mortes por covid-19 que a vizinha Noruega.

Um Pio

Abre Aspas

“O exame faz parte da intimidade, você não tem obrigação de mostrar para ninguém.”

Jair Bolsonaro, presidente da República, cinco dias após reclamar que “dois renomados médicos no Brasil se recusarem a divulgar o que os curou da covid-19“.

Vale Seguir

O MyNews é mais um projeto que tenta atualizar o modo de fazer jornalismo – e faz bem.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Congresso em Foco, CNN Brasil, Correio Braziliense, Crusoé, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, O Antagonista, O Globo, UOL e Washington Post.

07.04.2020 - Brasília/DF - O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, participa de coletiva de imprensa no Palácio do Planalto, sobre as ações de enfrentamento ao covid-19 no país. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil.

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 7 de abril de 2020 por Marcello Casal Jr, fotógrafo da Agência Brasil, em Brasília, Distrito Federal. Nela, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, participa de coletiva de imprensa no Palácio do Planalto.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque a estrada é longa e sinuosa.

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