Grande História

Eduardo tem razão

Eduardo Suplicy

A insensatez do Mercado, a ideia de Eduardo Suplicy, o endosso de Armínio Fraga, o apoio de Luciano Huck, a promessa de Jair Bolsonaro, o exemplo de João Doria, e muito mais.

Luciano Hang, um dos donos da Havan, vê histeria no combate ao novo coronavírus. Junior Durski, um dos donos do Madero, defende que a restrição da atividade comercial no país há de causar estragos “maiores do que os 5 ou 7 mil que vão morrer“. Roberto Justus, chairman do Grupo Newcomm, minimizou a crise tratando o novo coronavírus como uma “gripezinha leve” com sede maior pela vida de idosos.

A insensibilidade de alguns grandes nomes do Mercado não é exclusividade do Brasil. Dias antes da primeira morte por covid-19, ou um mês após Kelly Loeffler, senadora pela Georgia, participar de uma reunião fechada sobre a real ameaça do novo coronavírus, Jeffrey Sprecher, presidente da Bolsa de Valores de Nova York e marido da parlamentar, vendeu 3,5 milhões de dólares em ações de um operadora a qual também preside.

Ela e outros parlamentares americanos estão sendo investigados por decisões tão oportunas em tempos tão complicados. Por aqui, o desastre para o setor é tamanho que, em dólar, o Ibovespa já vale menos da metade do que valia dois meses antes.

Não dão a mínina

Em 1º de junho de 2016, após três anos de cancelamentos, Eduardo Suplicy foi finalmente prestigiado por Dilma Rousseff, que o recebeu no Palácio da Alvorada. Segundo o ex-senador, “ela aceitou a sugestão de constituir o grupo de trabalho para estudar as etapas da lei que institui a renda básica de cidadania“. Havia algo de tragicômico nas aspas: por obra do processo de impeachment, a “presidenta” estava afastada do cargo desde 12 de maio daquele ano, e cairia em definitivo no 31 de agosto seguinte.

Renda básica de cidadania

Na noite de ontem, em participação no Roda Viva, o respeitadíssimo Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, sugeriu que o governo Bolsonaro crie com urgência um programa de renda mínima que atenda até 100 milhões de brasileiros, de forma que essa metade da população tenha verba para comer. Para tanto, o aumento da dívida pública serviria para custear os R$ 300 bilhões de reais necessários para alimentar tanta gente.

Norvana

A ideia conta com o apoio do apresentador e quase presidenciável Luciano Huck; com o de youtubers que falam para milhões, como Nilce Moretto e Leon Martins, do Coisa de Nerd; e, bom, é o que está lá na página 63 do plano de governo apresentado por Jair Bolsonaro na eleição de 2018.

Entre Aspas

“Acima do valor da Bolsa Família, pretendemos instituir uma renda mínima para todas as famílias brasileiras. Todas essas ideias, inclusive o Bolsa Família, são inspiradas em pensadores liberais, como Milton Friedman, que defendia o Imposto de Renda Negativo.”

Plano de Governo apresentado pela campanha de Jair Bolsonaro em 2018.

Erro de redação

A polêmica MP 927 foi editada sem que o corpo técnico que auxilia Paulo Guedes se entendesse com Jair Bolsonaro. No Palácio do Planalto, o presidente alegou que, como prometido em campanha, apenas confiou cegamente no Posto Ipiranga. Após a avalanche de críticas nas redes sociais, o próprio Bolsonaro vetou o artigo que permitia a manutenção de contratos sem pagamento de salário por quatro meses. O ministro da Economia, no entanto, argumentou que tudo não passou de um erro de redação.

Emendando polêmicas

Mas, ao “revogar” o trecho polêmico da medida provisória, o governo Bolsonaro criou uma nova polêmica, restringindo o alcance da Lei de Acesso à Informação. O texto suspende o prazo de resposta da parte de órgãos cujos servidores estejam em quarentena e necessitem de acesso presencial para atender o público. Igualmente criticada, a medida não deve ter sucesso no Congresso.

Sem resposta

Jair Bolsonaro finalmente abriu mão do confronto com governadores. Mas o histórico mostra que decisões do tipo têm prazo de validade curto. Tanto que ontem, ao ser questionado da postura antipática da véspera, o time de ministros do Governo Federal ficou sem resposta.

Audácia

O governo Bolsonaro havia tentado confiscar ventiladores pulmonares adquiridos pela prefeitura de Recife. Mas o TRF-5 protegeu os interesses da capital pernambucana.

E por falar em ventiladores

Ontem, Luigi Di Maio, ministro italiano das Relações Exteriores, celebrou no Twitter os ventiladores pulmonares e máscaras de proteção remetidos pelo governo Bolsonaro. Na semana passada, o ministro da Saúde brasileiro comentou em reunião a expectativa de a Itália retribuir a gentileza quando o Brasil atingir drama semelhante ao vivido pelo país europeu – o que deve acontecer já em abril.

Bolso(x)doria

Enquanto Jair Bolsonaro escondia o resultado dos exames que deram negativo para covid-19, e o hospital que o atendeu omitia dois nomes da lista de contaminados pelo novo coronavírus, João Doria confirmava estar saudável exibindo nas redes sociais o laudo sonegado pelo presidente da República. Um dos motoristas do presidente, inclusive, deu entrada em um hospital de Brasília com, veja bem, dificuldades para respirar.

Desenhou

Curtas

  1. Irresponsavelmente apontado por Jair Bolsonaro e Donald Trump como “possível cura dos pacientes com o Covid-19“, o uso indevido de hidroxicloroquina/cloroquina pode ter sido a causa da morte de um sexagenário nos Estados Unidos.
  2. As medidas restritivas criticadas pelo presidente brasileiro foram adotadas em ao menos 45 países – no mundo, mais de 3 bilhões de seres humanos já sabem o que significa confinamento.
  3. Ignorando que a humanidade pode estar entrando na pior crise desde a Segunda Guerra Mundial, a Petrobras propõe triplicar o teto para pagamento de bônus da diretoria da estatal.
  4. Rodrigo Maia, no entanto concordou que os fundos Partidário e Eleitoral, assim como parte dos salários dos parlamentares e assessores do Executivo e Judiciário, podem ser realocados para o combate ao novo coronavírus.
  5. Corre a lenda de que o Distrito Federal acumula proporcionalmente mais casos de covid-19 que o resto do país, mas isso pode estar vindo de uma subnotificação menor.
  6. Os presidiários de São Paulo vão trabalhar na produção de 320 mil máscaras de proteção contra o novo coronavírus.
  7. Um homem de 33 anos, que já sofria com uma doença prévia, se tornou o brasileiro mais jovem a morrer em decorrência da pandemia.
  8. Mesmo assim, jovens da periferia da mesma São Paulo seguem ignorando os alertas e participando de bailes funks.
  9. Há quase 11 mil brasileiros sem conseguir retornar ao Brasil porque se encontram presos em quarentenas no exterior.
  10. Quando a crise aperta, a opinião pública não quer saber de blogueiro sujo ou boato de WhatsApp, mas do trabalho profissional da imprensa tradicional – em especial, da voz de William Bonner e Renata Vasconcellos.

Vale Seguir

O Cadê a chave? quer parar o Brasil. E isso é uma questão de vida ou morte.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BR Político, Correio Braziliense, Estadão, Exame, Extra, Folha de S.Paulo, G1, HuffPost, IG, IstoÉ, Jornal do Comércio, O Antagonista, O Globo, Metrópoles, Roda Viva, R7, UOL e Valor Econômico.

Eduardo Suplicy

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 26 de de abril de 2019 por Ricardo Stuckert em Curitiba, Paraná. Nela, Eduardo Suplicy, vereador de São Paulo, é impedido de visitar Lula nas dependências da Superintendência da Polícia Federal.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque nos deram espelhos, e vimos um mundo doente.

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