Grande História

Por puro egoísmo, Bolsonaro demitiu o ministro mais necessário

15.04.2020 - Brasilia/DF - O secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson Kleber de Oliveira, e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, durante a coletiva de imprensa sobre à infecção pelo novo coronavírus. Foto Marcelo Casal Jr. / Agencia Brasil.

A demissão de Mandetta, o novo ministro, o dossiê da ABIN, a queda na popularidade de Bolsonaro, a real sobre a covid-19, e muito mais

Minutos após a confirmação de 596 mortes por covid-19 em apenas três dias, a queda de braço chegou ao fim: Jair Bolsonaro demitiu o ministro da Saúde. De imediato, panelaços foram ouvidos em diversas localidades do Brasil. Se a queda de Luiz Henrique Mandetta era desejo antigo do presidente da República, o próprio ministro vinha cavando a demissão desde sábado, quando, em visita às obras de um hospital de campanha em Goiás, o chefe se deu a provocar o auxiliar criminosamente se entregando a aglomerações. “São 60 dias nessa batalha. Isso cansa“, reclamou o demitido ainda ontem em entrevista.

Mandetta estava no alvo de um dossiê preparado pela ABIN, agência de espionagem comandada por uma indicação de Carlos Bolsonaro, mas subordinada ao GSI, o gabinete chefiado por Augusto Heleno, aquele general que há algumas semanas mandou um “foda-se” ao Congresso. Antigamente, iniciativas do tipo rendiam convocação do responsável para esclarecimentos no Congresso, como ocorreu com Dilma Rousseff em 2008. Mas o PT anda mais “oposicinha” do que o PSDB foi num passado recente.

Popularidade em queda

De acordo com a Atlas Político, a jogada suicida com traços genocidas se concretizou num contexto em que, contra 43% de avaliações negativas, a avaliação positiva de Bolsonaro encontrava em 23% um piso inédito. Ainda segundo a pesquisa, mais de 76% da população é contra a demissão do ministro. E uma leve maioria de 46,5% já concorda com a abertura de um processo de impeachment do presidente. A popularidade do maldito está tão abalada que João Doria, governador que restringe os movimentos a resultados de monitoramentos em tempo real, sentiu-se livre para cravar que, além do novo coronavírus, o Brasil luta contra o “bolsonavírus“.

O substituto

O novo ministro da Saúde é Nelson Teich, oncologista que atuou na campanha presidencial como consultor de Bolsonaro na área de saúde (curiosamente, a que o candidato parecia dominar menos). Apesar do negacionismo do presidente, o indicado veio referendado pela Associação Médica Brasileira, e possui uma boa relação com o setor. Em texto publicado há menos de um mês, reclamou da desnecessária polarização (alimentada pelo novo chefe, frise-se) entre os interesses sanitários e econômicos. Dias depois, defendeu o isolamento social criticado pelo dono da caneta.

Caiu por terra

Se há o que comemorar, pelo menos o escolhido não foi Osmar Terra, recordista de “fake news” sobre a covid-19. Mas as boas notícias são raras. Em parceria com o governo do Rio Grande do Sul, um estudo da Universidade Federal de Pelotas estimou que o total de infectados seria sete vezes maior do que o dos registros oficiais. Outros seis pesquisadores ligados às universidades federais de Alagoas e do Rio Grande do Norte calcularam que, já na semana que vem, o sistema de saúde entrará em colapso, sem Unidades de Terapia Intensiva suficientes para atender os casos em estado grave. Essa, inclusive, já é a realidade do sistema público do Ceará, onde 100% das UTIs estão ocupadas, e uma fila com 48 pacientes se formou.

A real

Com as autópsias convencionais desaconselhadas pela OMS dado o risco de contaminação, um grupo liderado por Paulo Saldiva, professor de medicina da USP, fez uma autópsia “minimamente invasiva” nos corpos de dez vítimas fatais da covid-19. A conclusão inicial é de que o novo coronavírus de alguma forma causa trombose e muita inflamação muscular, e é mais agressivo do que o H1N1.

Isolamento social funciona

Segundo o biólogo Átila Iamarino, o que se tem de dado confirma que o isolamento social evitou que o Brasil enfrente uma onda trágica como a observada na Itália e na Espanha. O mérito é todo de governadores e prefeitos. E, claro, do ministro da Saúde demitido por puro egoísmo de Jair Bolsonaro.

Curtas

  1. Lembrando a Jair Bolsonaro que “7 a 1 foi pouco“, o STF arbitrou uma goleada de 9 a 0 contra o Palácio do Planalto ao decidir que governadores e prefeitos têm competência para regulamentar as próprias quarentenas.
  2. Tratado por Bolsonaro e Donald Trump como tratamento que obraria milagres, o uso de cloroquina no combate à covid-19 vem impedindo que pilotos decolem nos Estados Unidos devido ao risco de efeitos colaterais ainda incompreendidos.
  3. Quanto ao outro remédio vendido por Marcos Pontes, ministro da Ciência e Tecnologia, como mais uma esperança, Luiz Henrique Mandetta adiantou (antes de cair) que se tratava de um vermífugo.
  4. Fernando Henrique Cardoso e outras lideranças latinas alertaram em carta ao FMI do risco de um colapso econômico prejudicar até mesmo as instituições democráticas do continente.
  5. Os signatários certamente sabiam que Jair Bolsonaro já pressiona o STF para que possa assinar Medidas Provisórias sem prazos definidos, o que o levaria a governar por decreto, o sonho de qualquer ditador.
  6. Ciente de que não há como confiar no Governo Federal, o do Maranhão teve que driblar Europa, Estados Unidos e até a Receita Federal do Sudeste brasileiro para finalmente receber uma carga de 107 respiradores e 200 mil máscaras oriundas da China.
  7. Enquanto Brasília posterga o adiamento da eleição municipal deste ano, o TSEsuspendeu cinco eleições complementares em quatro cidades e um estado.
  8. Segundo os próprios advogados, uma das informações mais exploradas pelos milicianos digitais do governo Bolsonaro não teria passado de uma confusão de um juiz de São Bernardo do Campo que calculou em R$ 256 milhões o que não passava de R$ 26 mil em investimentos da finada Marisa Letícia.
  9. Não por acaso, os governos que melhor enfrentam a pandemia no mundo são tocados por mulheres – ao menos no Brasil, qualquer pesquisa de opinião apresenta o voto feminino como mais cauteloso e estudado.
  10. Contra a epidemia de desinformação, o Facebook vai alertar os usuários que interagirem com mentiras sobre o novo coronavírus, apresentando uma versão checada da informação – demorou.

Um Pio

Abre Aspas

“Alguém tinha que chamar um veterinário. Não é justo deixar um animal sofrendo dessa maneira.”

Cora Ronai, jornalista, aparentemente comentando a coletiva em que Jair Bolsonaro se perdia ao apresentar o novo ministro da Saúde.

Vale Seguir

Esse canal ainda nem tem nome, mas merece ser assinado só por ser mais um projeto de Nilce Moretto e Leon Martins, youtubers extremamente gentis e carismáticos que já dão início aos trabalhos com uma entrevista exclusiva de Henrique Meirelles.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Aos Fatos, BBC, CNN, Congresso em Foco, Crusoé, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, O Antagonista, O Globo, UOL, Valor Econômico e Veja.

15.04.2020 - Brasilia/DF - O secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson Kleber de Oliveira, e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, durante a coletiva de imprensa sobre à infecção pelo novo coronavírus. Foto Marcelo Casal Jr. / Agencia Brasil.

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 15 de abril de 2020 por Marcelo Casal Júnior, fotógrafo da Agência Brasil, em Brasília, Distrito Federal. Nela, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, participa da coletiva de imprensa sobre o novo coronavírus.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque, para azar de certos líderes, a verdade será conhecida, e ela nos libertará.

Click to comment

You must be logged in to post a comment Login

Leave a Reply

To Top