Grande História

Enquanto Jair Bolsonaro torrava milhões com cloroquina, as UTIs ficavam sem medicamentos

06.05.2019 - Brasília/DF - Jair Bolsonaro fala à imprensa. Foto: Palácio do Planalto.

Não faltou aviso de que o excesso de cloroquina faria a droga encalhar, enquanto o país rumava à escassez de medicamentos cruciais.

Após tratar uma embalagem de cloroquina como um troféu, e ser novamente bicado por emas que alimentava com bananas, Jair Bolsonaro achou por bem ocupar as manchetes oferecendo tais embalagens às tais emas. Mas nada dessa insanidade estaria ocorrendo se não fosse por Didier Raoult.

Ainda em 19 de fevereiro, o físico e microbiologista francês, em artigo que se baseava num estudo chinês, espalhou que a avaliação clínica havia confirmado que a cloroquina seria eficaz contra o novo coronavírus. No 16 de março seguinte, Raoult publicou um ensaio em que chegava à conclusão de que “o tratamento com hidroxicloroquina está significativamente associado à redução/desaparecimento da carga viral em pacientes com covid-19, e seu efeito é reforçado pela azitromicina“.

Macaqueando Trump

Passados três dias, Donald Trump disse ao mundo que agilizaria a burocracia para que a cloroquina fosse utilizada no combate ao novo coronavírus. Quarenta e oito horas depois, Bolsonaro, que havia se habituado a macaquear qualquer iniciativa do presidente americano, anunciou nas redes sociais que ordenara o Exército a aumentar a produção do medicamento usado contra a malária no Brasil.

Vinte

Naquele altura, o mundo já superava os 300 mil casos confirmados de covid-19. O estudo de Raoult, no entanto, avaliava apenas vinte. E seria retirado do ar pelos próprios autores em maio, ou 5 milhões de novos casos depois, sem jamais ser publicado em qualquer revista científica.

O estrago já estava feito

Charlatães de todo tipo perceberam que ganhavam acesso fácil ao poder caso defendessem a imprudência dos líderes populistas. E a “imprensa amiga” não se negava a enaltecer os supostos milagres da cloroquina, como ocorreu mais de uma centena de vezes na Fox News em apenas três dias.

Vítimas de mentiras

Por aqui, a classe médica não se ajudava. Bem sucedida no lobby contra a presença cubana no Mais Médicos, de Nise Yamaguchi a Osmar Terra, não faltou na área quem endossasse condutas irresponsáveis. Em maio, o país já tinha enterrado mais profissionais de enfermagem do que Itália e Espanha somadas. Mesmo assim, até o final de junho, aos menos 79 denúncias atingiriam profissionais de saúde brasileiros por disseminação de inverdades durante a pandemia.

Guerra de Zap

No WhatsApp, uma “guerra” de áudios tratava como alarmista a previsão de que a grande São Paulo acumularia 45 mil diagnósticos ao final de quatro meses de pandemia. Quatro meses depois, a cidade superava os 178 mil casos confirmados. E, dada a subnotificação, uma pesquisa abriu julho estimando que quase um milhão de paulistanos já tinham se infectado.

Siglas e siglas

As entidades médicas reagiram ao jogo político. AMIB, SBI e SBPT não recomendaram o uso de cloroquina contra a covid-19. O Conselho Nacional de Saúde recomendou a suspensão do medicamento em casos leves. O CFM não recomendou o uso, mas o liberou. E a AMB lavou as mãos defendendo que a decisão caberia a cada profissional.

Sem eficácia

Não faltou quem percebesse a ineficácia do tratamento. Em abril, um estudo preliminar da Fiocruz, e uma análise não revisada do governo americano. Em maio, uma pesquisa publicada no New England Journal of Medicine. Em junho, um estudo de uma universidade canadense. Em julho, o de uma coalizão liderada pelos hospitais Albert Einstein, HCor e Sírio-Libanês. Antes, um estudo da Prevent Senior caminhava para conclusão semelhante, mas findou suspenso por falta de aval do comitê de ética.

Teste para cardíaco

Ainda em abril, um editorial publicado no British Medical Journal alertou que o uso da cloroquina no combate à covid-19 poderia causar reações adversas, como arritmias ventriculares, em especial, quando prescrita justamente com azitromicina. Na França, pacientes apresentaram problemas cardíacos, com quatro deles vindo a óbito. Em Manaus, um estudo foi interrompido após 11 mortes. No mês seguinte, um estudo com 96 mil pacientes alertava na Lancet que havia detectado o risco de, nesse tratamento, a cloroquina causar justamente arritmia cardíaca. Mas, dias depois, após pedido de retratação dos autores, as pesquisa foi “despublicada“.

Animal

Por aqui, Damares Alves dizia ver o “milagre da cloroquina” no Piauí, coisa que um diretor técnico de um hospital da região negava existir. Nas redes, espalharam a mentira de que médicos de 30 países teriam confirmado a eficácia do remédio. Uma emissora amiga chegou a enaltecer o trabalho do Sistema de Saúde Henry Ford, de Detroit, que notou uma queda da mortalidade com o uso do medicamento. Mas era só mais uma peça frágil. Na Nature, contudo, um estudo percebeu a eficácia do medicamento… Em macacos!

Idas e vindas

Reagindo às descobertas de tantos estudos, a OMS suspendeu a pesquisa em decorrência do risco de arritmia cardíaca, retomou o trabalho após a pesquisa ser “despublicada”, e finalmente retirou a droga dos testes no que ficou clara a ineficácia da cloroquina no combate ao novo coronavírus. De acordo com a Sociedade Brasileira de Infectologia, para que não se desperdice “dinheiro público em tratamentos que são comprovadamente ineficazes”, “é urgente e necessário que a hidroxicloroquina seja abandonada no tratamento de qualquer fase da Covid-19“.

Mas era tarde

Em abril, atendendo a pedido de Bolsonaro, o Exército já havia produzido 2,2 milhões de comprimidos de cloroquina, e se preparava para ampliar ainda mais a produção. Na condição de ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta explicou que essa seria uma medida do presidente para que a economia fosse reaberta. Havia até o interesse em intervir na bula do medicamento.

Sem ministro, sem experiência

No que Bolsonaro, em decorrência do excesso na produção de cloroquina, pressionou Nelson Teich para que alterasse o protocolo sobre uso da droga, o ministro da Saúde se demitiu com menos de um mês no cargo. Desde então, o Brasil enfrenta a maior emergência sanitária em um século sem ministro da Saúde. E com a pasta entregue a militares sem qualquer experiência na área.

Uso precoce

Quatro dias após a queda do último ministro da Saúde, o cretino do presidente da República sugeriu que “quem for de direita toma cloroquina. Quem é de esquerda toma Tubaína”. No dia seguinte, liberaram a polêmica medicação a todos os pacientes com coronavírus, incluindo crianças, grávidas e casos leves. Em julho, o secretário especial de Saúde Indígena ameaçou processar indígenas que denunciassem a distribuição do remédio em aldeias. De quebra, o Ministério da Saúde pediu para a Fiocruz e outros 19 destinatários recomendarem o uso de hidroxicloroquina no tratamento precoce de covid-19.

Em excesso

Em maio, com 1,4 milhão de comprimidos em estoque, a intenção do governo Bolsonaro era chegar a agosto com 6,8 milhões de doses de cloroquina. Após gastar R$ 30 milhões importando insumos, e o Ministério Público pedir ao TCU que apurasse a suspeita de superfaturamento na compra sem licitação de matéria-prima, já tinham sido distribuídas 4,4 milhões de doses, e ainda havia outras 4 milhões encalhadas. Para efeito de comparação, menos da metade disso é comprimido suficiente para 18 anos de consumo.

Despejo

Em paralelo, pouco antes de a vigilância sanitária dos Estados Unidos revogar a autorização para uso da cloroquina no tratamento da covid-19, Trump despejou 2 milhões de comprimidos por aqui (restando outros 66 milhões por lá). Já com o elefante branco em mãos, o governo Bolsonaro queria terceirizar aos governos estaduais as despesas com a distribuição do medicamento.

Não faltou aviso

Ainda em maio, o governo Bolsonaro foi alertado não só do risco de a cloroquina encalhar, como de o país ficar sem os remédios necessários para internações em UTI. O Ministério da Saúde, todavia, orientava para que os dados sobre a escassez fossem omitidos. Um mês depois, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde observou a falta de 22 medicamentos em 21 estados, além do Distrito Federal.

Doente

Bolsonaro tanto entende os riscos da cloroquina que, quando usou o medicamento no tratamento da covid-19, passou a fazer exames cardíacos diários para confirmar se nenhuma reação adversa colocava-lhe a vida em risco. Mas quantos brasileiros podem se dar a luxo semelhante? Para se ter uma ideia, enquanto 51% dos pacientes hospitalizados sobrevivem à covid-19 nos hospitais particulares, a taxa cai para 34% nos hospitais do SUS.

Vida ou morte

Quando finalmente se tocou do risco de tamanha negligência complicá-lo no Tribunal Penal Internacional, Bolsonaro passou a dizer que não recomendava o uso da cloroquina. Três dias depois, disse ser a prova de que o remédio funciona, e o isolamento mata. Passados quatro dias, contudo, um terceiro teste mostrou que o presidente seguia com covid-19. Agora, um estudo da UFRRJ concluiu que, apenas em maio, o isolamento social salvou 118 mil vidas no Brasil.

Reincidência

Jair Bolsonaro é reincidente na irresponsabilidade. Antes de presidir o país, foi um dos 26 autores da lei que liberava o uso da “pílula do câncer”, mais um engodo sem eficácia comprovada. O texto chegou a ser sancionado por Dilma Rousseff pouco antes de ser afastada pelo processo de impeachment, mas logo foi suspenso pelo STF. Recentemente, o presidente também disse combater o novo coronavírus com ivermectina, ou outra lenda que corre o WhatsApp há meses. Mas a publicidade gratuita só conseguiu fazer com que a Anvisa passasse a exigir receita na venda do vermífugo. Enquanto isso, um em cada cinco brasileiros acredita erroneamente que a cloroquina seria a cura da covid-19.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Agência Brasil, CNN Brasil, Correio Braziliense, El País, Época, Estadão, Estado de Minas, Extra, Folha de S.Paulo, G1, NY Times, O Antagonista, O Globo, Piauí, Poder 360, Último Segundo, UOL e Veja.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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