Grande História

Escutem os especialistas, ignorem os idiotas

08.04.2020 - Brasília/DF - Pronunciamento do Presidente da República, Jair Bolsonaro em Rede Nacional de Rádio e Televisão. Foto: Carolina Antunes/PR

O trágico exemplo da talidomida, a transformação da cloroquina em grito de torcida, os protestos pela queda de Bolsonaro, e muito mais

Em meados dos anos 1950, sem o mesmo rigor trabalhado atualmente, a indústria farmacêutica estava certa de que era seguro receitar talidomida para grávidas não mais sentirem enjoos matinais. Após 8 anos, com 46 países comercializando o produto, o sedativo foi retirado de circulação. Até 1962, mais de 10 mil bebês tinham nascido com má formação nas pernas e braços em decorrência do uso da droga. Na época, como o FDA exigiu testes mais firmes, os Estados Unidos escaparam da tragédia. Mas Alemanha, Reino Unido, Austrália e Brasil vivenciaram o drama. Desde então, o caso é exemplo da necessidade dos devidos testes de laboratório antes de uma medicação ser lançada no mercado.

De volta a 2020, Luiz Vicente Rizzo, diretor do Hospital Albert Einstein, denunciou que, impactadas pelo lobby de Jair Bolsonaro, as próprias famílias pressionam os médicos para que a cloroquina seja receitada mesmo nos casos de covid-19 de menor gravidade. O médico que tratou Roberto Kalil Filho, cardiologista citado pelo presidente da República ao defender o medicamento em pronunciamento na TV, disse que não há como afirmar que o remédio supostamente milagroso ajudou o paciente. Ontem, cedendo à pressão do chefe, Luiz Henrique Mandetta politizou o uso da droga desaconselhando o governador de São Paulo a, veja bem, politizar o uso da droga.

Abre Aspas

“Estamos na época da medicina BBB, feita por votação. Medicina e pesquisa de rede social. Você não consegue mais não dar cloroquina para um paciente meio grave. A família pressiona e, se você não der, no dia seguinte você não é mais o médico.”

Luiz Vicente Rizzo, diretor do Hospital Israelita Albert Einstein, delineando o estrago que a histeria gerada pelo presidente da República tem causado.

Ainda não

Como era esperado, o quinto pronunciamento de Bolsonaro sobre o novo coronavírus rendeu mais um panelaço. Dando a entender que o momento certo ainda está por vir, o presidente da República disse que não é hora de os protestos fazerem com ele o que já fizeram com Dilma Rousseff num passado recente. Mas, para não fechar a data sem mais um desgraçamento mental, argumentou que não cabia ao Estado, mas aos próprios familiares, proteger os idosos da pandemia em curso. Para sorte dos mais velhos, Alexandre de Moraes usou o cargo de ministro do STF para decidir que não cabe a Bolsonaro desautorizar o isolamento social trabalhado por governadores e prefeitos.

Errou a projeção

Há vinte dias, Bolsonaro disse em entrevista que o novo coronavírus seria menos letal que a H1N1. Mas a covid-19 tanto não é uma “gripezinha” que, em menos de oito semanas, já matou mais brasileiros do que a H1N1, o sarampo e a dengue mataram em todo o ano passado. Só de ontem para hoje, foram 141 mortes, com o total de óbitos se aproximando dos mil, e o de casos confirmados, 18 mil.

Requentando a fritura

Na notícia mais estranha do dia, Onyx Lorenzoni e Osmar Terra, dois nomes recentemente rebaixados às séries B e C deste governo, foram ouvidos tramando a queda do ministro da Saúde em ligação não atendida pelo principal interessado no cargo de Mandetta. O vazamento pela emissora governista lembrou o episódio em que era negociado um armistício entre Bolsonaro e Gustavo Bebianno que só virou notícia após um jornalista receber uma ligação acidental de, veja bem, Onyx Lorenzoni. E nem todo mundo achou que o reaquecimento de uma fritura que amornava foi mera coincidência.

Idiotas x Especialistas

Escutem os especialistas, ignorem os idiotas.” Curiosamente, a dica certeira foi dada por um especialista em filmes idiotas. Mas, colocando a máxima em prática, descobre-se que Miguel Srougi, professor da Faculdade de Medicina da USP, avalia a postura de Bolsonaro perante o isolamento social como “absolutamente incorreta“; que Hu Ke, especialista em doenças respiratórias que trata de pacientes críticos com covid-19 em Wuhan, concorda que a China é hoje o país mais seguro do mundo justamente porque fechou as cidades em tempo hábil; e que a Organização Mundial de Saúde entende que não há informação mais segura na América Latina do que a fornecida pelo laboratório da Fiocruz.

Esperança há

Um artigo científico ainda não aprovado para publicação observou que países como Estados Unidos, Espanha e Itália, que não têm política de vacinação contra tuberculose, estão tendo dez vezes mais óbitos por covid-19. Como não é o caso do Brasil, a notícia traz a esperança de um inverno menos rigoroso. Na Austrália, inclusive, pesquisadores já testam o uso da vacina BCG contra o novo coronavírus.

Mas não pode aliviar

Contudo, mesmo notícia boa demanda cautela, ou pode incentivar o relaxamento nos cuidados. Como ocorre em São Paulo, onde, com proximidade com o feriadão da Páscoa, voltou a haver congestionamento no trânsito após quinze dias com zero quilômetro de engarrafamento.

Desenhou

Curtas

  1. Por mais absurda que seja a ideia de o presidente da República montar um gabinete para a primeira-dama no Palácio do Planalto, é melhor que Jair Bolsonaro perca tempo com isso do que sabotando o trabalho do Ministério da Saúde.
  2. Bolsonaro também poderia reservar uns dias para encontrar as prometidas provas de fraude nas urnas eletrônicas das eleições de 2018, pois o Brasil aguarda há um mês e nada.
  3. Demorou, mas a bancada do agronegócio vem pedindo a cabeça de Abraham Weintraub por ter requentado a crise diplomática com a China.
  4. Demorou, mas tanta imprudência no combate à covid-19 tem feito a classe médica finalmente desembarcar do bolsolavismo.
  5. No entanto, apenas 17% dos eleitores que votaram 17 para presidente se arrependeram do que fizeram em 2018.
  6. Como esperado por essa coluna, o TRF-1 suspendeu o desvio dos fundos partidário e eleitoral para o combate à covid-19 assinado por mais um juiz que só jogou para a torcida.
  7. O movimento negro quer que o Ministério da Saúde ajude a confirmar algo que já se observou nos Estados Unidos: a covid-19 é bem mais letal nas periferias.
  8. O novo coronavírus já atormenta também os povos indígenas.
  9. Como uma gripe oportunista, os inimigos do meio ambiente aproveitaram a pandemia para, em março, desmatar quase o dobro do que tinham feito no já problemático ano de 2019.
  10. Por mais que o trabalho da imprensa venha merecendo o reconhecimento perante a crise sanitária, não podem passar em brancos erros como o do apresentador que sugeriu a criação de campos de concentração para vítimas da covid-19, ou das redações que insistem em tratar como homofóbico o trabalho técnico dos bancos de sangue.

Um Pio

Vale Seguir

O Medicina em Debate é podcast sobre medicina, saúde e política. Em tempos de lobby por remédio sem eficácia comprovada, é bom ouvir quem entende do assunto.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BBC, CNN Brasil, Correio Braziliense, Crusoé, Estadão, Exame, Folha de S.Paulo, Gazeta do Povo, G1, O Antagonista, O Globo, UOL, R7 e Veja SP.

08.04.2020 - Brasília/DF - Pronunciamento do Presidente da República, Jair Bolsonaro em Rede Nacional de Rádio e Televisão. Foto: Carolina Antunes/PR

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 8 de abril de 2020 por Carolina Antunes, fotógrafa da Presidência da República, em Brasília, Distrito Federal. Nela, Jair Bolsonaro grava um pronunciamento em Rede Nacional de Rádio e Televisão.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque nada é como tem sido, mas talvez seja melhor assim.

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