Grande História

Governo Bolsonaro: o começo do fim?

11.02.2020 - Brasilia/DF - O presidente Jair Bolsonaro o vice Hamiltom Mourão durante cerimônia de Assinatura do Decreto de Criação do Conselho da Amazônia. Foto:Isaac Amorim/MJSP

As garantias de Mourão, a prisão de Queiroz, o silêncio dos militares, a articulação pelo impeachment, e muito mais.

Nem passa pela minha cabeça. O nosso presidente se chama Jair Bolsonaro, seu primeiro governo vai até 2022. E, se o povo brasileiro assim o quiser, ele prossegue até 2026“. As aspas partiram de Hamilton Mourão ao responder se estava preparado para eventualmente assumir a Presidência da República. O mais estranho, contudo, é o vice-presidente precisar oferecer esse tipo de garantia num governo que ainda não completou um ano e meio de mandato.

Durante os 65 meses em que presidiu o Brasil, foram protocolados o recorde de 68 pedidos de impeachment contra Dilma Rousseff, pouco mais de um por mês. Em menos de 18 meses, numa intensidade duas vezes e meia maior, já há 44 pedidos contra Bolsonaro. E a conta pode crescer em breve.

Acelera, impeachment

Pois o texto com mais peso ainda está em formulação. Contudo, em decorrência da prisão de Fabrício Queiroz, a OAB deu a ordem para pisar no acelerador. As 27 seccionais já estão sendo consultadas. A decisão final, no entanto, caberá aos 81 integrantes do Conselho Federal da entidade.

Da ativa e da reserva

O refúgio de Queiroz numa casa de um dos advogados da família Bolsonaro permitiu também que “setores governistas que se decepcionaram com Bolsonaro” passassem a trabalhar por um governo Mourão. A frota incluiria “militares da ativa e da reserva“.

Poetas

Os da ativa andaram tendo conversas com Gilmar Mendes, Fernando Henrique Cardoso e Rodrigo Maia. Não foram conclusivas, mas, desde a coisa chata que rolou em Atibaia, as vozes mais radicais da caserna silenciaram tanto em público, como nos grupos privados.

Antigolpismo

Juntamente com Alexandre de Moraes, Maia tem se encontrado com empresários, políticos e juristas na articulação de uma frente em defesa da democracia. Todavia, a “Abin clandestina” contou a Bolsonaro ainda em abril que a articulação entre Maia, Davi Alcolumbre e ministros do STF mirava justamente um impeachment do presidente da República.

Cravos e ferraduras

É verdade que a sabujice de Augusto Aras segue promovendo constrangimentos históricos, como o pedido para que o Ministério Público não questione ações de governo. Contudo, o inquérito que mais estrago tem feito na base bolsolavista foi aberto pelo próprio PGR, e justamente um dia após o encontro vazado pela “Abin clandestina”. Oficialmente, a iniciativa reagia ao discurso golpista do próprio Bolsonaro em frente ao Exército. Que certamente reagia à fofoca trazida pelos arapongas do Planalto.

Fala mansa

Se, no 19 de abril, Bolsonaro falou grosso, após a prisão de Queiroz, destacou Jorge de Oliveira (secretário-geral), André Mendonça (ministro da Justiça) e José Levi (advogado-geral da União) para uma fala mansa diante de Moraes. Entretanto, tudo indica que o ministro do Supremo já percebeu que Bolsonaro jamais recua, apenas “ganha tempo”. E reagiu com frieza à proposta de trégua.

Strike

No follow the money, o trabalho da PGR contra manifestações antidemocráticas já prendeu 7 extremistas, e atingiu 26 pessoas físicas e jurídicas, além de 11 congressistas bolsolavistas, com 4 deles usando cota parlamentar no financiamento dos atos.

O óbvio

Os investigadores finalmente perceberam o que todo mundo enxergava a olho nu nas redes sociais: a retórica golpista dos milicianos digitais rendia dezenas de milhares de dólares nas transmissões ao vivo dos atos que contavam com a participação de Bolsonaro. Não por acaso, os bolsolavistas já apagaram mais de 2 mil vídeos do YouTube. Não por acaso, o TCU deu dois dias para o Banco do Brasil ignorar as ordens de Carlos Bolsonaro e parar de exibir anúncios nos canais dos blogueiros sujos.

O pior do mundo

As trapalhadas de Fredrick Wassef fizeram com que Bolsonaro perdesse 25% da popularidade que tinha nas redes sociais. Dentre 53 líderes analisados em todo o mundo, o brasileiro é dono da pior avaliação no combate à covid-19. Por aqui, se um quinto da nação ainda insiste que o governo do maldito seria bom ou ótimo, cresceu de 48% para 54% a parcela que o considera ruim ou péssimo. Até a rejeição a um golpe militar saltou de 46% em 2018 para 70% em 2020.

Prova dos nove

Na dúvida, o comportamento de Carluxo, que até o foro especial há de perder, é sempre um termômetro confiável. Na sexta-feira, voltou a atacar Mourão, e não deve ter sido porque confia na lealdade do vice.

“Jamais vai falar”

O senhor se sente preparado para eventualmente assumir a Presidência da República?” A espontaneidade da questão formulada pela CNN Brasil lembra a da pergunta feita por José Luiz Datena em março a Bolsonaro: “O senhor daria um golpe?” Foi quando o presidente da República se permitiu um raro momento de sinceridade: “quem quer dar um golpe jamais vai falar que vai dar“. Da mesma forma, um vice-presidente que se sente pronto para eventualmente assumir a Presidência da República, enquanto o titular estiver com a faixa, jamais vai assumir que se sente.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Agência Pública, BBC Brasil, B9, BR Político, CNN Brasil, Congresso em Foco, Correio Braziliense, Época, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, Jota, O Antagonista, O Globo, Poder 360, UOL e Valor Econômico.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Click to comment

You must be logged in to post a comment Login

Leave a Reply

To Top