Grande História

Há diferença entre temer e querer uma convulsão social

Governo Bolsonaro

O medo cínico de convulsão social, as false flags do AI-5, o risco à democracia, a sabotagem à renda básica emergencial, o colapso no Equador e muito mais.

Em janeiro de 2018, Marco Aurélio Mello alertava que a detenção de Lula poderia “incendiar o País“. A prisão ocorreu três meses depois e, a despeito do circo armado pelo petista, o brasileiro não viu qualquer chama consumir o Brasil.

Em outubro de 2019, foi a vez de Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército, dizer que temia uma “eventual convulsão social” com a queda da possibilidade de prisão para condenados em segunda instância. Evitou dar nome ao boi, mas era uma referência clara à soltura de Lula, que veio semanas depois, com direito a voto de, veja bem, Marco Aurélio Mello, mas sem a tão temida convulsão social.

Naquele mesmo outubro, Eduardo Bolsonaro se deu a argumentar que, se a esquerda no Brasil se portasse como a do Chile, onde protestos violentos emparedavam o presidente de direita, o governo Bolsonaro poderia sacar um “novo AI-5“. Mas, desde que Lula foi solto, a esquerda segue deitada em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo.

Agora, temendo uma instabilidade democrática que só se percebe na ala mais abilolada do Palácio do Planalto, o presidente da República prega contra o confinamento e defende que a população volte às ruas para se arriscar perante o avanço da covid-19. Para tanto, conta com o apoio de palacianos fardados e, veja bem, Eduardo Villas Bôas, aquele que temia a convulsão social que não se seguiu à libertação de Lula, e agora teme o retorno de um drama semelhante ao da greve dos caminhoneiros, aquela paralisação criminosa que contou com o apoio de, veja bem, Jair Bolsonaro.

Reprise

O Brasil já viu esse filme. Só nos primeiros oito meses de 1968, São Paulo contabilizou 29 atentados a bomba. O que os defensores da ditadura militar evitam lembrar, contudo, é que metade delas partiram de extremistas de direita. No Rio de Janeiro, essa mesma ala radical elaborou uma false flag que, largando a culpa na esquerda, mataria milhares de inocentes, mas só não foi adiante porque o plano foi desmascarado a tempo. Mesmo assim, o temor de uma convulsão social foi usado como justificativa para a assinatura do AI-5 original.

Infectando democracias

Se a tal convulsão social vem, o presidente brasileiro pode decretar o estado de sítio cujo parecer já foi pedido pelo Palácio do Planalto. Assim, a exemplo do que ocorreu com o ultradireitista Viktor Orbán, Bolsonaro poderá aproveitar a calamidade provocada pela covid-19 para concentrar poder na própria caneta. Já há quem entenda que a “lei do coronavírus” sepultou de vez o que restava de democracia na Hungria.

Sim, ele sabe

Há como reduzir o estrago. O Brasil tem que parar. Quem falou isso foi ninguém menos do que Donald Trump a ninguém menos do que Jair Bolsonaro. Como desenha a imprensa americana, o distanciamento social é eficaz no combate à covid-19. O presidente brasileiro sabe disso. Mesmo assim, amanheceu a quinta-feira pedindo para que os milhares de seguidores compartilhassem um vídeo em que uma senhora abria mão de ajuda financeira do governo, dizia querer voltar a trabalhar e, aos prantos, pedia militares na rua.

Não dá a mínima

Há como evitar a convulsão social. Tendo como trabalhar de casa, trabalha-se de casa. Não tendo, os serviços essenciais continuam tocados na rua, ainda que com cuidados redobrados. Cabe ao Estado socorrer todo o resto, mesmo que para isso precise se endividar. O auxílio emergencial aprovado no Congresso tenta resolver parte deste problema garantindo uma renda mínima mensal de R$ 1,2 mil às famílias mais necessitadas. O STF já autorizou o governo a ignorar a Lei de Responsabilidade Fiscal. O presidente da Câmara, única pessoa que pode aceitar um pedido de impeachment, concorda que o caminho está livre para o Governo Federal gastar o que for necessário. Mas, alegando que não quer cometer mais um de tantos crimes de responsabilidade já cometidos, Bolsonaro não assinou a sanção na terça. Ontem, disse ter assinado, mas não a publicou em Diário Oficial. Agora, condiciona a publicação do que já estaria assinado à análise de uma medida provisória a ser enviada, algo que, concordam especialistas, não seria necessário.

Enquanto isso

Na segunda-feira, quando o Senado aprovou o auxílio emergencial, o Brasil contabilizava 159 óbitos por covid-19. No intervalo em que o país aguardava a sanção presidencial, esse número cresceu 88%, chegando a 299 mortes. Mas o estrago é maior. A subnotificação é uma realidade num país sem condições de realizar tantos testes para novo coronavírus. Em São Paulo, estado com mais casos por aqui, a Secretaria de Saúde orientou a notificação apenas dos mais graves. E a chance de o quadro ficar menos nebuloso é remota, já que os testes rápidos encomendandos pelo Ministério da Saúde podem ter até 75% de chance de erro.

Entrou em colapso

O risco é o Brasil viver dramas como o de Guayaquil, a segunda maior cidade do Equador, onde não há mais vaga em hospital público ou privado, nem há estrutura para recolher tantos corpos. Por medo da contaminação, e na esperança de que sejam recolhidos, as famílias têm largados os restos mortais dos próprios parentes na rua. Oficialmente, a covid-19 matou 98 equatorianos, mas a imprensa local contabilizou o recolhimento de 350 cadáveres a céu aberto.

Carnificina

O mundo hoje superou o milhão de casos de covid-19. Já são mais de 50 mil mortes em menos de 4 meses de pandemia. Um mês antes, contabilizava pouco mais de 3 mil. No entanto, o presidente brasileiro achou que hoje seria uma boa data para dizer que os governadores que implementam o confinamento em seus estados têm “medinho” –sim, foi a expressão usada por ele– do vírus.

Não há escapatória

Para o Brasil, Jair Bolsonaro é um problema tão ou mais grave que o novo coronavírus. E, por uma questão até mesmo sanitária, o país precisa se livrar dele.

Um começo

Em Brasília, algumas forças se organizaram para forçar uma renúncia do presidente da República, algo que, na prática, não ocorre desde 1992 (ou desde 1961, já que Fernando Collor só abriu mão do mandato para em vão tentar evitar a queda por impeachment). Para tanto, a Justiça cercaria os filhos de Bolsonaro. Coincidentemente ou não, a desembargadora Suimei Cavalieri revogou na semana passada a liminar que suspendia uma investigação sobre o esquema de rachadinha no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj. Em paralelo, uma petição pelo impeachment do pai de Carlos e Eduardo já superou o milhão de assinaturas. É pouco ainda. Mas não deixa de ser um começo.

Abre Aspas

“Temos muitas diferenças. Mas agora não é hora de expor discordâncias. O vírus não escolhe ideologia nem partidos. O momento é de foco, serenidade e trabalho para ajudar a salvar o Brasil e os brasileiros.”

João Doria, governador de São Paulo, retribuindo o reconhecimento de Lula para com o bom trabalho realizado por governadores e prefeitos em meio à pandemia.

Curtas

  1. Além de se arriscar, Jair Bolsonaro quer que os servidores do Planalto também se arrisquem e realizem do palácio mesmo o serviço que podem fazer de casa.
  2. Provando que o mal é mesmo de família, o irmão de Bolsonaro beneficiado com a inclusão de lotéricas como serviço essencial mandou a imprensa “cuidar da sua vida“.
  3. Provando que a “segurança institucional” deste governo é mesmo questionável, Augusto Heleno tornou-se filiado do PT, sócio do Vasco da Gama e assinante do BBB após divulgar documentos pessoais no Twitter – o que pode gerar problemas na Justiça aos gaiatos caso de fato tenham aprontado o que anunciaram nas redes.
  4. O compromisso deste governo com a mentira é tamanho que mesmo um inédito pedido de desculpas do presidente por compartilhar desinformação divide as manchetes com a notícia parcialmente falsa da secretária de Cultura, e a informação falsa usada por Sergio Moro para criticar a liberação de presos.
  5. Inclusive, enquanto lança o slogan “Ninguém Fica Para Trás“, a tática da SECOM é descaradamente mentir que nunca veiculou a campanha “O Brasil Não Pode Parar” – mesmo com milhares de testemunhas.
  6. Por pura birra ideológica, Rubem Novaes, presidente do Banco do Brasil, é contra o governo socorrer financeiramente os trabalhadores que não podem exercer o ofício de casa, ou não integrem a lista de serviços essenciais.
  7. Quem pode julgar a preferência dada pela China aos Estados Unidos na venda de equipamentos médicos após a onda sinofóbica da crise diplomática protagonizada por Eduardo Bolsonaro?
  8. Aliás, a postura da família presidencial é tão tóxica que, por causa da covid-19, já há relatos de xenofobia contra brasileiros no exterior.
  9. A retribuição de João Doria ao aceno de Lula gerou um debate acalorado nas redes sociais, mas certamente nasceu de algum monitoramento que mapeou vantagem no gesto.
  10. Além de substâncias da maconha serem testadas contra o novo coronavírus, fabricantes de cigarro entraram na corrida para desenvolver uma vacina para covid-19 – seria uma forma de compensar as vidas que prejudicaram, ainda que faturando outra fortuna.

Um Pio

Vale Seguir

Criticam Monica de Bolle pelo tom dramático de alguns posicionamentos, mas ela tem sido exemplo de uma humanidade que infelizmente falta aos economistas brasileiros, e isso precisa ser valorizado com urgência.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BR Político, Congresso em Foco, Crusoé, El País, Estadão, Financial Times, Folha de S.Paulo, G1, O Antagonista, O Globo, Poder 360, Pública, UOL, Valor Econômico e Washington Post.

Governo Bolsonaro

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 1º de abril de 2020 por Marcos Corrêa, fotógrafo da Presidência da República, em Brasília, Distrito Federal. Nela, Jair Bolsonaro e alguns ministros participam de uma coletiva de imprensa.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque você sabe que todos eles fingem.

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