Grande História

Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo

16.04.2020 - Brasília/DF - O presidente Jair Bolsonaro e o novo ministro da Saúde, Nelson Teich, durante pronunciamento no Palácio do Planalto. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil.

O início do colapso, a demissão de Mandetta, um novo bode expiatório, a retaliação do Congresso, o sorriso de Mourão, e muito mais.

O Emílio Ribas, hospital famoso por tratar alguns dos primeiros casos de HIV do Brasil, foi o primeiro de São Paulo a ter a UTI completamente ocupada por vítimas da covid-19. No entorno de Brasília, carentes de leitos nas cidades de pequeno porte, idosos morrem solitários a até 200 km de casa. Cidades do Rio de Janeiro e Espírito Santos receberam ofícios do Exército monitorando a capacidade de sepultamentos diários. Desde o primeiro caso, o Brasil aguardou 45 dias até que fosse confirmada a milésima morte provocada pelo novo coronavírus. Para o segundo milhar, precisou aguardar apenas uma semana.

Que a história registre: foi diante deste cenário que Jair Bolsonaro humilhou reiteradamente e demitiu o ministro da Saúde cujo trabalho vinha sendo aprovado por 3 em cada 4 brasileiros. Alegou temer o pior, mas é nítido que anseia pelo caos que justifique um estado de sítio cujo desejo já não contém. E nada indica que o pico esteja próximo. Os Estados Unidos, outra nação continental, dormiu ontem contabilizando 4.591 mil óbitos em apenas 24 horas. Para efeito de comparação, o país aceitou entrar na Segunda Guerra em 1941 quando o ataque japonês a Pearl Harbor matou 2.403 americanos.

E a vida, o que é?

Numa das frases mais infelizes desde que Paulo Maluf resolveu dar conselhos a estupradores, Bolsonaro explicou que demitiu o ministro da Saúde porque “a visão do Mandetta, muito boa, era da saúde, da vida“. Ao menos teve o cuidado de acrescentar que “a minha, além disso, englobava a economia e o emprego“. Não por acaso, Luiz Henrique Mandetta deixou o cargo fazendo uma defesa do SUS e da ciência. E, enquanto o presidente já comprava outras brigas na TV, cantou que nem o contexto dramático o impedia de dizer que a vida é bonita.

Sim, é bonita. Mas bem que poderia ter dado o exemplo e evitado tanto contato físico e aglomeração em ambiente fechado.

Bode expiatório

Como se percebe no vídeo acima, uma vez que Bolsonaro não pode mais terceirizar os próprios fracassos ao ministro da Saúde, buscou um novo bode expiatório. E Rodrigo Maia foi o escolhido. Parece insano alçar a arqui-inimigo a única pessoa que pode aceitar um pedido de impeachment, mas o cálculo talvez tenha sido justamente esse. A popularidade do maldito atinge recordes negativos. Na semana que vem, aquilo que o presidente há pouco chamava de “gripezinha” irá colapsar o sistema de saúde público e privado do país. Os panelaços, que já andam fortes e recorrentes, tendem a piorar ainda mais. Ao ponto de não mais ser possível postergar o impedimento do incapaz. Neste dia, Bolsonaro irá dilmisticamente reclamar que está sendo vítima de um golpe parlamentar – que não faz sentido, uma vez que a lei do impeachment completa seis décadas este ano.

Não é sério

Reformulando no Congresso o chamado Plano Mansueto, Rodrigo Maia tomou a frente do socorro financeiro a governadores e prefeitos. Paulo Guedes entende que as modificações feitas pelo Legislativo converteram a proposta numa bomba fiscal que empurraria o governo Bolsonaro a uma recessão profunda. O chilique de Bolsonaro no vídeo mais acima endossa o discurso do “Posto Ipiranga”. Na réplica, Maia argumentou que o cloroquiner do Planalto segue negando o estrago que a pandemia causará, e que o ministro da Economia distorce os fatos para levar a opinião pública a chantagear o Congresso. E, ainda sobre o ministro, concluiu: “ele não é sério. Se fosse sério, não tentaria misturar a cabeça das pessoas“.

Arapongagem

Bolsonaro tem procurado lideranças para dizer que recebeu da arapongagem do próprio Governo Federal um dossiê com provas de que Maia, João Doria e parte do STF tramam um “golpe” para tirá-lo do poder. Apesar de isso ter cheiro de uma articulação inicial pelo impeachment do dito cujo, nenhuma prova foi apresentada, e as chances de elas inexistirem não podem ser descartadas. Mas, ainda que existam, eis (mais) um ótimo motivo para impedir a fábrica de mentiras de seguir no comando.

Retaliação

Apesar de o faniquito de Bolsonaro poupar o restante do parlamento, a recepção em ambas as casas foi para lá de negativa. E a retaliação veio forte e de imediato. Davi Alcolumbre postergou no Senado a votação da medida provisória da carteira verde e amarela, um dos projetos de maior interesse de Guedes, e entregou a relatoria do projeto ao PT, um dos partidos mais críticos da ideia. O “orçamento de guerra” foi aprovado, mas com alterações, o que obriga o texto a voltar para a Câmara. Ao todo, seis MPs podem caducar por omissão do Congresso.

Não sabemos de quem

Os assessores não esconderam da imprensa que Bolsonaro está exausto com a crise incendiada por que ele próprio. Mas o vazamento era desnecessário, já que as imagens falam mais do que mil palavras. A antítese, contudo, parece ser Hamilton Mourão. Herdeiro legal de uma eventual queda do presidente, foi flagrado sorridente dizendo que está tudo sob controle. E arrematando: “não sabemos de quem“.

“Tudo sob controle… Não sabemos de quem.”

Desenhou

Curtas

  1. Para espanto exclusivo dos mais ingênuos, a revogação celebrada por Jair Bolsonaro de três portarias sobre fiscalização de armas e munições é benéfica a milicianos – e a traficantes, o que não favorece quem se elegeu prometendo um duro combate ao crime organizado.
  2. Além do ministro da Saúde, o governo Bolsonaro achou que a pandemia era um bom momento para demitir João Luiz Filgueiras de Azevedo, presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.
  3. Contrariando a Transparência Internacional, Sergio Moro e Deltan Dallagnol, o presidente da República deu mais uma rasteira na Lava Jato sancionando o jabuti que beneficia investigados ao mudar regras de julgamentos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais da Receita Federal.
  4. Até Silvio Santos tentou emplacar o novo ministro da Saúde – no caso, Cláudio Lottenberg, diretor do conselho do hospital Albert Einstein.
  5. Mas Nelson Teich, a indicação vitoriosa, veio pela terceira vez de uma sugestão de Meyer Nigri, empreiteiro dono da construtora Tecnisa.
  6. Curiosamente, em 2016, Teich chamou a “pílula do câncer“, outra exploração irresponsável de medicamentos que viria a ser endossada por Bolsonaro, de “populista” – e era mesmo.
  7. Fabio Wajngarten deu uma desculpa qualquer para justificar a viagem da esposa com dinheiro público no aniversário do Secretário de Comunicação, mas a Casa Civil não confirmou a reunião usada como álibi.
  8. Ampliando o cardápio de esperançosos testes iniciais, os Estados Unidos vêm obtendo bons resultados ao usar um antiviral em casos já graves de covid-19.
  9. Enquanto o ministro da Economia tenta vender por aqui a ideia de que o Brasil viverá uma recessão leve, o PIB da China sofreu um tombo venezuelano de -6,8% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período do ano passado.
  10. Ao contrário do que alimenta o governo americano contra o chinês, um artigo da Nature é categórico ao afirmar que o SARS-CoV-2 “não é uma construção de laboratório ou propositalmente manipulado“.

Um Pio

Abre Aspas

“Não posso falar em tese, já que essa é uma decisão que passa pela presidência da Câmara, mas acho que esse assunto não está na ordem do dia. A ordem do dia é resolver os problemas. Se focarmos o impeachment, estaremos atendendo ao interesse do próprio presidente, que quer levar a discussão para o ringue da política, e não para o caminho das decisões que vão salvar a vida, o emprego e a renda dos brasileiros mais vulneráveis. O que ele quer é o campo político de conflito.”

Rodrigo Maia, primeiro-ministro, novamente adiando o inadiável.

Vale Seguir

David Gilmour tem aproveitado a quarentena para homenagear Leonard Cohen em transmissões ao vivo com a Von Trapped Family.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Agência Brasil, BBC, BR Político, Congresso em Foco, Crusoé, Época, Estadão, Exame, Folha de S.Paulo, Jovem Pan, G1, Nature, O Antagonista, O Globo, Poder 360, UOL, USA Today, Valor Econômico, Veja e Wall Street Journal.

16.04.2020 - Brasília/DF - O presidente Jair Bolsonaro e o novo ministro da Saúde, Nelson Teich, durante pronunciamento no Palácio do Planalto. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil.

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 16 de abril de 2020 por Marcello Casal Júnior, fotógrafo da Agência Brasil, em Brasília, Distrito Federal. Nela, o presidente Jair Bolsonaro e o novo ministro da Saúde, Nelson Teich, fazem pronunciamento no Palácio do Planalto.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque a vida deveria ser bem melhor, e será, mas isso não a impede de ser bonita.

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