Grande História

Há uma palavra que define quem atrapalha investigações: corrupto

24.04.2020 - Brasília/DF - Pronunciamento do Presidente da República, Jair Bolsonaro depois da demissão do ministro Sergio Moro. Foto: Carolina Antunes/PR

A exoneração de Valeixo, a demissão de Moro, os “tiros” em Bolsonaro, o contra-atque dos presidente, as provas do ex-ministro e muito mais.

Os investigadores tinham avançado de tal forma que estavam convictos de que Carlos Bolsonaro não só coordenava os ataques ao Congresso e ao STF, como tinha participação na manifestação golpista da qual Jair Bolsonaro participou no domingo passado. O inquérito aberto pelo Supremo também tinha notado a participação de Daniel Silveira e Cabo Junio Amaral, ambos deputados federais bolsolavistas. Foi quando, segundo integrantes da Justiça e da própria PF, o presidente da República buscou interferir no trabalho. Mesmo assim, o dia de ontem fechou com um recuo tático: Sergio Moro decidiu seguir no Ministério da Justiça mediante a promessa de que Maurício Valeixo continuaria comandando a Polícia Federal.

Ainda na madrugada, veio a notícia de que a exoneração de Valeixo, atendendo a pedido do próprio exonerado, estava publicada com a assinatura digital de Moro no Diário Oficial. Mas nem o ministro havia assinado nada, nem o demitido tinha pedido para sair. Para o comando da PF, o presidente estava decidido por Alexandre Ramagem, indicado de Carlos Bolsonaro que hoje comanda a ABIN, a agência de espionagem que, em meio à pandemia de covid-19, produzia dossiês contra o ex-ministro da Saúde. Para o Ministério da Justiça, o mais cotado era Jorge Oliveira, atual secretário-geral do governo Bolsonaro.

Demissão

Pego de surpresa pela notícia, Moro acordou disposto a se demitir, e agendou um pronunciamento para as 11h da manhã. Antes disso, Wagner Rosário, ministro da Controladoria-Geral da União, e Carla Zambelli, deputada federal, tentaram fazer com que o ministro da Justiça mudasse de ideia. Não adiantou. Ainda pela manhã, Moro entregou a Bolsonaro a carta em que formalizava a demissão. Ao falar à imprensa, confirmou o que vinha sendo publicado, entregou ao menos seis tipos de crimes cometidos pelo presidente, e explicitou o interesse presidencial em interferir politicamente na Polícia Federal.

Repercussão

De imediato, panelaços ecoaram pelo país com gritos de “Fora, Bolsonaro”. Hamilton Mourão avaliou que a demissão de Moro era um fato negativo. Alguns empresários de peso reconheceram publicamente que a base de apoio do governo tinha acabado. Uma ala do DEM defendeu que Tereza Cristina, ministra da Agricultura, pedisse demissão no embalo. Até a primeira-dama cometeu o “pecado” de curtir a mensagem de despedida de Rosângela Moro, que já havia gerado uma crise anterior ao explicitar apoio a Luiz Henrique Mandetta, desafeto do presidente. Os militares deixaram vazar que o chefe tinha se tornado uma espécie de zumbi, mas logo se reuniram com o presidente para amenizar o estrago.

Lava Jato

Por nota, a Lava Jato disse que repudiava as “tentativas de interferência do presidente da República na Polícia Federal“. Nas redes sociais, Deltan Dallagnol defendeu que “o avanço do trabalho contra a corrupção requer que as investigações sejam protegidas de ingerências políticas“. Ontem, Carlos Fernando dos Santos, ex-integrante da força-tarefa, já havia se pronunciado a favor da saída de Moro.

Impeachment

FHC deu o tom: “Que renuncie antes de ser renunciado. Poupe-nos de, além do coronavírus, termos um longo processo de impeachment“. Os crimes cometidos pelo presidente não passaram batido para membros do STF. A OAB, que vem preparando um pedido de impeachment, também ficou atenta. O PSB entregou um, o 25º protocolado contra Bolsonaro.

Rodrigo Maia

Único com poder para aceitá-lo, Rodrigo Maia recebeu um grupo de parlamentares, mas garantiu que não daria início ao processo. Alegou não haver voto para o afastamento. Contudo, o cálculo pode ser outro. É certo que a covid-19 matará brasileiros em quantidade muito maior que a já medida. O próprio Bolsonaro tem interesse em enfrentar o impeachment antes do pico, quando poderá jogar a culpa pelos óbitos na crise política. Se o impedimento vier depois, há a expectativa de que o presidente esteja com a imagem bem mais desgastada.

Mas

Mas Celso de Mello, ainda ontem, deu dez dias para Maia se pronunciar sobre uma ação que no STF acusa o presidente das Câmara de omissão. E Augusto Aras, que em campanha não assumida ao STF vinha fazendo vista grossa aos desmandos de quem pode nomeá-lo, não aguentou a pressão interna no Ministério Público Federal e pediu um inquérito ao Supremo para apurar as acusações de Moro.

Pronunciamento

Ao final da tarde, Jair Bolsonaro surgiu em pronunciamento acompanhado dos ministros que restavam e um punhado de bajuladores. Prometia “restabelecer a verdade“. Mas só conseguiu demonstrar a incapacidade de juntar lé com cré. Perguntando se os exemplos configuravam interferência na Polícia Federal, confessou que participou do episódio em que Carlos Bolsonaro contamina provas encontradas na portaria do condomínio em que mora, e que insistiu para a PF interrogar “o sargento” em Mossoró, ambas as situações relacionadas ao assassinato de Marielle Franco.

Chantagem

Bolsonaro ainda acusou Moro de usar o cargo de Valeixo para conquistar uma nomeação ao STF. De resto, emendou assuntos desconexos que de alguma forma envolveram aquecedores de piscina, INMETRO, taxímetros, Adélio Bispo e as namoradas do quarto filho.

Na tréplica

Moro negou que a permanência de Valeixo tivesse sido usada como moeda de troca para uma nomeação ao Supremo. Argumentou que, se fosse esse o objetivo, “teria concordado ontem com a substituição do Diretor Geral da PF“. E garantiu que, ao contrário do que o presidente havia alegado, Valeixo jamais pediu para ser demitido. Na sequência, o governo Bolsonaro republicou a exoneração, mas sem a assinatura de Moro dessa vez.

Provas

Antes de o dia se encerrar, o Jornal Nacional divulgou provas que o ex-ministro tinha contra o presidente da República. Eram dois screenshots. No primeiro, Bolsonaro argumentava que o fato de uma dúzia de aliados estar sob investigação era motivo para a mudança do comando da PF. No segundo, Zambelli, em troca de o indicado de Carlos Bolsonaro ser aceito como diretor da Polícia Federal, promete lutar pela nomeação do ainda ministro ao STF. Moro respondeu não estar à venda. Mais cedo, já sem ministro da Justiça, Jair Bolsonaro entregou a PF ao indicado do filho investigado.

Desenhou

Curtas

  1. Crise humanitária – Tudo isso aconteceu enquanto o Brasil confirmava as mortes de outras 357 vítimas de covid-19.
  2. Economia – Em paralelo, o dólar chegou a ser cotado acima de R$ 5,70, com a Bovespa fechando em queda de 5,45%.
  3. Milícia – Ainda ontem, em mais uma decisão a ser celebrada por milicianos, Jair Bolsonaro multiplicou por 12 a quantidade de munição a que uma pessoa pode ter acesso.
  4. Renda Mínima – Com a desculpa de que não quer cometer pedala fiscal, o governo Bolsonaro evitou antecipar o pagamento da segunda parcela do auxílio emergencial.
  5. Meio Ambiente – Enquanto todo mundo se distrai com o novo coronavírus, Rodrigo Salles, cada vez mais no papel de sinistro do Meio Ambiente, sugeriu a Bolsonaro a edição de um decreto que reduza a proteção da Mata Atlântica.
  6. Medo – Não por falta de aviso, Regina Duarte voltou a sentir medo, mas do bolsolavismo que a cerca na secretaria de Cultura.
  7. Diplomacia – Como a diplomacia brasileira não passa de um cosplay barato da americana, o Brasil ficou de fora de uma aliança que, junto à OMS, dará acesso a tratamentos da covid-19.
  8. Desinfetante – Sem ter a menor noção do absurdo que falava, Donald Trump sugeriu que o novo coronavírus fosse combatido com injeção de desinfetante.
  9. Fezes – Um estudo chinês confirmou algo que médicos brasileiros já compartilhavam informalmente: a presença de coronavírus nas fezes é ainda mais longa do que no sistema respiratório, o que demanda mais cuidados com pacientes idosos e crianças.
  10. Live – Assim como vários artistas, Dilma Rousseff fez uma “live” no Instagram, mas só porque se confundiu ao fazer uma chamada de voz com Nicolás Trotta, ministro da Educação da Argentina.

Um Pio

Abre Aspas

“A Constituição nos dá caminhos, o MDB não se omitirá em apresentar soluções e alternativas.”

MDB Nacional, partido, salivando por um terceiro impeachment de sucesso.

Vale Seguir

Além de ser um dos rostos mais angelicais que o Iraque já produziu, Ihan Haydar toca bateria com a firmeza de poucos.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BR Político, CNN Brasil, Congresso em Foco, Correio Braziliense, Crusoé, Época, Estadão, Exame, Folha de S.Paulo, G1, O Globo, O Antagonista, Poder 360, Terra, UOL, Valor Econômico, Veja e Vortex Media.

24.04.2020 - Brasília/DF - Pronunciamento do Presidente da República, Jair Bolsonaro depois da demissão do ministro Sergio Moro. Foto: Carolina Antunes/PR

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 24 de abril de 2020 pela fotógrafa Carolina Antunes, da Presidência da República, em Brasília, Distrito Federal. Nela, Jair Bolsonaro, acompanhado dos ministros do Governo Federal, se pronuncia após a demissão do ministro Sergio Moro.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque o rei está nu, ainda que o rei não seja mais bonito nu.

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