Grande História

Contra impeachment, Bolsonaro topa até golpe militar

11.03.020 - Brasilia/DF - O presidente Jair Bolsonaro em pronunciamento sobre covid-19. Foto: Alan Santos/PR

A bala de prata devastadora, o medo de impeachment, a promessas de usar as Forças Armadas contra o processo, e muito mais.

No último 22 de abril, o descobrimento do Brasil completou 520 anos. Mas, para a atual geração, trata-se da data em que Jair Bolsonaro cometeu a performance que tem tudo para custar-lhe a Presidência da República. Múltiplas fontes confirmaram a múltiplos veículos que o vídeo da reunião ministerial, aquele apontado por Sergio Moro como prova da interferência do chefe na Polícia Federal, é uma “bala de pratadevastadora.

Nele, o presidente diz que, para não prejudicar a própria família, gostaria de trocar o superintendente da PF no Rio de Janeiro. E que, por aquela interferência, estaria disposto até mesmo a demitir o ministro da Justiça. Como bônus, o registro exibe ainda Abraham Weintraub, “sinistro” da Educação, defendendo que todos os ministros do STF sejam presos. E Damares Alves, “sinistra” da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, defendendo a prisão de prefeitos e governadores.

“Comanda as Forças Armadas”

Uma semana antes, a Câmara Federal havia dado 30 dias para o presidente apresentar o laudo que confirma jamais ter tido covid-19. Caso não entregue, ou entregue um documento provando que mentira, um crime de responsabilidade restará configurado, dando margem a um impeachment. Contudo, no trecho de maior gravidade, Bolsonaro diz que estaria disposto a usar as Forças Armadas contra um processo alicerçado no que chamou de “porcaria de exame“. Alegou que, assim, evitaria um golpe. Mas, na verdade, não há melhor expressão para definir o que ele, Bolsonaro, protagonizaria: um golpe militar.

Conhecimento prévio

Ontem, em depoimento menos bombástico, Maurício Valeixo contou que ouviu o próprio Bolsonaro explicitar o interesse em um diretor-geral da PF “com mais afinidade“. O ex-DG confirmou ainda que a operação que mataria Adriano da Nóbrega, o miliciano cujas mãe e esposa recebiam salário do gabinete de Flávio Bolsonaro, teve conhecimento prévio do Ministério da Justiça, com consulta inapropriada à PF. Quanto a Alexandre Ramagem, o fantoche que Carlos Bolsonaro tentou encaixar na vaga de Valeixo, disse tudo aquilo que a família Bolsonaro queria ouvir — surpreendendo exatamente ninguém.

Reação

Em resposta, Jair Bolsonaro disse que a fita deveria ter sido destruída, mas a entregou confiante de que nada tinha de errado na reunião. Certamente se fiava no fato de não ter mencionado os termos “Polícia Federal” ou “Superintendência”. Mas fontes garantem que o contexto deixa claro o que está em jogo.

Nunca teve?

Bolsonaro também alegou que não estava preocupado com o trabalho da corporação pois, segundo ele, “nunca tive ninguém da minha família investigado pela Polícia Federal“. Mas o próprio presidente havia exibido o screenshot em que aparece cobrando de Moro explicações sobre um inquérito que, no STF, avança sobre uma dúzia de deputados bolsolavistas. A conversa datava de 23 de abril, um dia após a reunião ministerial.

Trocando as bolas

Mais uma vez se confundindo com o advogado-geral da União, Augusto Aras, que deveria atuar como procurador-geral da República, prometeu recorrer ao STF caso Celso de Mello se decida pela transcrição integral da reunião. Alega que, caso outros trechos da conversa venham à público, pode haver riscos à soberania nacional. Mas já foi explicitado na imprensa que o risco maior é de o novo Geraldo Brindeiro não ser indicado pelo presidente a uma das duas vagas que abrirão em breve no Supremo. O decano do STF, contudo, deixou escapar que está disposto a derrubar o sigilo de todo o vídeo.

É nosso

Na tentativa de minimizar a crise, Bolsonaro chegou a insistir que “o vídeo é meu“. As aspas lembram outras igualmente partimonialistas, como “eu sou a Constituição” e “quem manda sou eu“.

O prazer de ver esse protoditador cair, no entanto, será todo nosso.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: DW, Época, Estadão, Exame, Folha de S.Paulo, G1, IstoÉ, O Antagonista, O Globo, TecMundo, UOL, Valor Econômico, Veja e Vortex Media.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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