Grande História

Isolamento? Renúncia? Impeachment? O que fazer com Jair Bolsonaro?

Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão

A queda do governo do Kosovo, a articulação pela renúncia de Bolsonaro, a adesão de Lula ao impeachment, e muito mais.

No esforço para conter o avanço do novo coronavírus na República do Kosovo, o primeiro-ministro Albin Kurti estabeleceu o confinamento de quase 2 milhões de habitantes. Mas, evitando que o presidente local, um rival político de esquerda, acumulasse mais poder, não declarou estado de emergência. Desde então, a população se entregou a panelaços semelhantes aos ocorridos no Brasil. Hoje, o parlamento votou uma moção de censura ao primeiro-ministro, resultado na queda do governo de coalizão.

O que aconteceu nessa quarta-feira na pequena e jovem nação europeia deveria fazer com que o brasileiro pensasse com carinho na proposta de o Brasil migrar do presidencialismo para o parlamentarismo. Afinal, diante da maior emergência sanitária em um século, o presidente do Brasil tem se aconselhado com o “gabinete do ódio“, um grupo de jovens assessores cuja especialidade é criar memes preconceituosos, e cometer linchamentos virtuais nas redes sociais.

Além disso, Flávio Bolsonaro estimula que as pessoas se arrisquem a pegar covid-19 nas ruas. Carlos Bolsonaro, uma espécie de “vereador federal”, foi a mente por trás do pronunciamento fascista protagonizado pelo pai há duas noites. Eduardo Bolsonaro, dois dias após o pai selar um armistício com o presidente chinês, voltou a espalhar nas redes sociais que a China, principal parceiro comercial do país, deliberadamente teria usado o novo coronavírus para provocar uma crise mundial – o que carece de qualquer sentido.

Mas, para se livrar desses problemas, ninguém em Brasília conhece uma receita simples como a parlamentarista.

Obscurantismo

Como se ainda fosse a Idade Média, o presidente brasileiro prefere enfrentar a pandemia agradando lideranças religiosas enquanto contraria consensos científicos. Por sorte, ainda há algum restinho de instituições no país, e o ministro da Saúde resiste à sabotagem presidencial. Noutro poder, Alexandre de Moraes usou a caneta de ministro do Supremo para suspender a medida presidencial que fragilizava a Lei de Acesso à Informação.

Pior do que parece

A verdade é que o brasileiro voa na tempestade às cegas. Enquanto essas palavras são escritas, o painel contabiliza 2.915 casos de covid-19 no país, com 77 óbitos. Os números mostram um início de epidemia mais ameno do que o chinês, mas pior do que na Coreia do Sul, nos Estados Unidos e na Itália. E olha que a subnotificação já é uma realidade.

Ele sabe

O governo Bolsonaro tanto compreende a gravidade da coisa que possui relatórios dos ministérios da Economia e Saúde alertando das consequências caso o problema não seja encarado com a devida seriedade. O presidente da República tanto sabe que não se trata de uma simples gripe que Rocha Lima de Barro, segurança de Jair Bolsonaro, está aos 39 anos de idade internado em estado grave por causa da covid-19.

Tentando entender

Nas tentativas de entender a bizarrice transmitida em cadeia de rádio e TV há duas noites, Rodrigo Maia disse que Bolsonaro combate o confinamento por pressão dos investidores da Bolsa. Em outras palavras, quem estaria fazendo pouco caso da morte de idosos, e pressão pelo fim da quarentena, seria o especulador que vê a fortuna exibida na Faria Lima ruir diante da crise. Foram imprudentes e, agora, cobram imprudência ainda maior da população brasileira.

Abre Aspas

“A gente foi vendo parte do mercado caminhando pra isso. Eles são assim, eles vivem de estatística, mas todos nós que fazemos política vivemos das vidas. Então é isso que a gente tem que saber equilibrar, as vidas com os empregos.”

Rodrigo Maia, primeiro-ministro, apontando o dedo para os farialimers.

Articulação por uma renúncia

Após nove noites de panelaços, a família Bolsonaro não esconde o incômodo com a sombra de Hamilton Mourão. Entregando que as noites andam curtas, Jair Bolsonaro rebateu às 2h19 da madrugada um editorial da Folha de S.Paulo que cobrava o escanteamento presidencial. Mas, antes de o sol nascer, já teve que ler uma matéria sobre uma articulação para que o presidente renuncie em troca de os próprios filhos não enfrentarem problemas na Justiça.

Lula aderiu

Seria o caminho mais curto e indolor. Mas, desde que Lula, acuado pelo estouro do Mensalão, abriu mão de renunciar em 2005 para se reeleger em 2006, o Brasil não mais deveria apostar na renúncia como solução de uma crise. Todavia, o ex-presidente finalmente aderiu à defesa do impeachment de Bolsonaro, algo que vinha evitando. E, de acordo com o monitoramento do Google Trends, essa é a semana do atual mandato em que a ideia mais ganhou força na internet

Cozinhando o jantar

Como a pandemia não permite espaço na agenda para o longo trâmite de um processo do tipo, e como o presidencialismo não permite uma moção de censura a exemplo do que ocorreu no Kosovo, cabe aos demais poderes isolar o problema e cozinhá-lo até que as condições de temperatura e pressão permitam que o presidente seja jantado. Até lá, para minimizar os estragos econômicos da covid-19, o Congresso caminha para aprovar uma renda mínima emergencial, e há iniciativas individuais para a taxação de grandes fortunas.

Desenhou

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as dicas simples

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Curtas

  1. Ao contrário do que propagou o presidente brasileiro, o Japão está, sim, aderindo ao confinamento.
  2. Os grupos de WhatsApp amanheceram assustados com as transferências e nomeações de generais do Exército feitas por Jair Bolsonaro, mas não se tratava de qualquer movimento golpista, e sim de uma mera dança das cadeiras protocolar.
  3. Causou indignação a liberação de ventiladores pulmonares, cruciais no combate à covid-19, do Brasil para a Itália, mas os italianos tinham de fato efetuado a compra dias antes de o governo brasileiro proibir a exportação de equipamentos para a saúde.
  4. Apesar de tudo o que está acontecendo, de acordo com levantamento da Quaest Consultoria e Pesquisa, por volta de 28% do país ainda avalia o governo Bolsonaro como bom ou ótimo – vai entender.
  5. Como se não houvesse uma recessão global para se preocupar com, Paulo Guedes reclamou que, diferente do que havia ocorrido com o ministro da Saúde, João Doria não o chamou de republicano – talvez porque o ministro da Economia não seja mesmo.
  6. Provando que a lei no Brasil não é mesmo para todos, Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, e o major Cid, ajudante de ordens da Presidência, ignoraram a quarentena e trabalharam ontem como se não estivessem infectados pelo novo coronavírus.
  7. Evitando desagradar o presidente, e provando que a vocação do Novo é mesmo agir como linha auxiliar do bolsolavismo, Romeu Zema foi um dos três gestores a não assinar a carta dos governadores.
  8. Enquanto até o Papa, respeitando a quarentena, reza missas pela internet, o Ministério Público do Rio recebeu 36 denúncias contra igrejas e templos locais que realizavam cultos mesmo em época de confinamento.
  9. Por causa da quarentena, já não há mais shopping center em atividade no Brasil.
  10. O filme do “ex-atleta” está tão queimado que, após comparações com Jair Bolsonaro, o presidente mexicano deixou a irresponsabilidade de lado e finalmente adotou a suspensão de todas as atividades não essenciais.

Um Pio

Vale Seguir

Guga Chacra acompanha in loco o avanço do novo coronavírus em Nova York e, desta forma, pode desmentir algumas mentiras espalhadas pela família presidencial brasileira.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BR Político, CNN Brasil, Congresso em Foco, El País, Época, Estadão, Exame, Folha de S.Paulo, G1, Jornal do Comércio, Metrópoles, O Globo, O Tempo, Pública, Reuters, Terra, UOL, Valor Econômico e Veja São Paulo.

Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 23 de março de 2020 por Isac Nóbrega, fotógrafo da Presidência da República. Nela, Jair Bolsonaro, ministros e parlamentares participam de videoconferência com Governadores da região Nordeste. Foto: Isac Nóbrega/PR

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque alta noite já se ia, mas ninguém na estrada andava.

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