Grande História

Jair Bolsonaro conseguiu as 30 mil mortes, falta a guerra civil

15.05.2020 - Brasília/DF - Presidente Jair Bolsonaro e a primeira dama durante Lançamento da Campanha de Conscientização e Enfrentamento à Violência Doméstica. Foto: Marcos Corrêa/PR

A entrevista de 1999, o recorde de covid-19, os falsos lamentos, a prioridade do PGR, a empreiteira verde-oliva, os traidores da Pátria, e muito mais.

Em 1999, Jair Bolsonaro concedeu uma polêmica entrevista ao programa “Câmera Aberta”, da Band. De uma longa sequência de absurdos, ficou na memória o trecho no qual diz que o país só melhoraria “quando nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro, e fazendo o trabalho que o regime militar não fez, matando uns 30 mil“. Depois de citar o ainda presidente Fernando Henrique Cardoso como o primeiro a ser executado, o deputado federal acrescentou: “se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente“.

FHC continua vivo. Mas o Brasil, com mais um recorde diário, totalizou hoje 31.199 mortes por covid-19. E é preciso deixar claro para a história: o principal responsável por tamanha tragédia se chama Jair Messias Bolsonaro, que a todo tempo, em uma agenda eugenista, trabalha para atrapalhar o combate à pandemia, e se aproveitar do caos para protagonizar um golpe de Estado.

Lamenta, mas…

Provocado a enviar uma mensagem de conforto às famílias em luto, disse que “lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo“. Em outras palavras, não lamenta. O que, vindo de que vem, nem surpreende, mas garante uma dose gigantesca indignação.

6,8%

O mundo lida com o novo coronavírus há 133 dias. O Brasil, há quase cem, com os últimos 18 sem ministro da Saúde. Mesmo assim, até 27 de maio, o governo Bolsonaro gastou apenas 6,8% dos recursos disponibilizados à pasta para execução direta no combate à pandemia. Mais de trinta mil mortes depois, o Ministério Público Federal resolveu finalmente apurar o que (não) está acontecendo.

Prioridades

Antes, Augusto Aras preferiu fazer mais um afago na retórica golpista dos fardados do Palácio do Planalto, e defendeu que as Forças Armadas poderiam intervir para garantir a independência dos poderes. Hoje, após a reação extremamente negativa, o procurador-geral da República soltou uma nota para garantir que a Constituição Federal “não admite intervenção militar” — era exatamente o que um parecer da OAB havia concluído.

Entre o céu e a terra

Mas há algo estranho no ar. Na semana passada, alguém entregou à Veja o nome e sobrenome do coronel que comanda a “ABIN paralela” dentro do Palácio do Planalto. Ontem, a Crusoé ficou sabendo que Augusto Heleno funciona como uma espécie de Palpatine que tenta convencer o presidente da República a ceder ao lado obscuro da Força. E até blogueiro sujo anda espalhando que o Exército estaria traindo Bolsonaro.

Outro lado

Em paralelo, Hamilton Mourão foi enfático ao garantir que não há risco de o Brasil viver um novo golpe militar. E Rodrigo Maia qualificou de “inaceitável” mais uma participação do presidente da República em manifestação golpista. De quebra, estendeu as críticas a Fernando Azevedo e Silva, o ministro da Defesa que, no domingo, acompanhou Bolsonaro no passeio de helicóptero.

Empreiteira verde-oliva

A imprensa também atentou a um vespeiro: as obras de infraestrutura tocadas pelo Exército. Com Bolsonaro, a empreiteira verde-oliva já executa um bilhão de reais em orçamento, o que gera ciúme nas empreiteiras tradicionais que foram pegas por infindas operações da Polícia Federal. Mas os militares se permitem tais missões ao menos desde quando Lula queria convencê-los a aceitar como presidente uma senhora vista na caserna como terrorista. De lá para cá, a vista andou grossa, e só virou manchete o caso do vice-almirante da Marinha condenado a 43 anos por corrupção nas obras da usina nuclear de Angra 3.

Traidores da Pátria

Por enquanto, os fardados só precisam se preocupar com o inquérito que Alexandre de Moraes toca no STF, uma vez que já atingiu três integrantes da Assessoria Especial da Presidência. O trabalho tem potencial para derrubar não só o presidente, mas também o vice, o que certamente devolveria o Palácio do Planalto aos civis. Mas tudo indica que a queda de Bolsonaro virá por Celso de Mello, que já mandou indireta de “traidor da Pátria” à dupla que publicou nota golpista contrária à entrega dos celulares de Jair e Carlos Bolsonaro.

Ampliando a espionagem

Bolsonaro vem tentando se safar pregando que o decano do STF seria um juiz parcial. Com ajuda de André Mendonça, ministro da Justiça que age sob a fiscalização frouxa do senador Nelson Trad e do deputado federal Eduardo Bolsonaro, o presidente agregou a espionagem das polícias militares ao time que alimenta o presidente de informações.

Blindagem

Como gesto mais caro aos cofres públicos e ao próprio discurso, comprou o apoio do centrão com R$ 6,2 bilhões em emendas, um recorde. Contra Sergio Moro, tais parlamentares estão dispostos a engavetar a investigação sobre a interferência de Bolsonaro na PF. Ao mesmo tempo, calculam que não querem peitar o STF, que anda mais unido do que nunca contra o presidente.

Em outras palavras, é bom já ir se preparando.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Buzzfeed News, CNN Brasil, Congresso em Foco, Crusoé, Época, Estadão, Folha de S.Paulo, Gazeta do Povo, G1, O Antagonista, O Globo, O Tempo, UOL, Valor Econômico, Veja e Vortex Media.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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