Grande História

Jair Bolsonaro só tem uma agenda, e ela é golpista

03.06.2020 - Brasília/DF - Presidente Jair Bolsonaro durante reunião com a Deputada Carla Zambelli (PSL:SP) e empresários do estado do Ceará. Foto: Marcos Corrêa/PR

A agenda golpista, uma piada chamada Aras, uma ficha suja para Moro, sete motivos para impeachment, e muito mais.

Neste momento, Jair Bolsonaro possui apenas uma agenda: consolidar um golpe de Estado. Desde que o novo coronavírus chegou ao Brasil, o presidente da República não faz outra coisa além de preparar o terreno. O que implica blindar a família de investigações, aparelhar as forças policiais, espionar adversários, usar a lei contra os inimigos, armar as milícias governistas e, à base de muitas mentiras e sabotagens, provocar o conflito que daria luz a um Estado de exceção. Justamente por isso, a própria oposição tem pedido para que o público não compareça aos protestos marcados para o final de semana.

Em apenas 17 meses de mandato, o presidente e seus aliados mais próximos já ameaçaram a democracia explicitamente por pelo menos sete oportunidades. Antes, Bolsonaro levou para o Palácio do Planalto uma máquina de linchamentos virtuais que toca assassinatos de reputação sob o apelido gabinete do ódio. Ainda nos primeiros meses de governo, o presidente montou a “ABIN paralela”, uma fábrica de dossiês que, por exemplo, já rendeu uma investigação da Polícia Federal contra o governador do Rio de Janeiro, e o vazamento da autópsia do miliciano Adriano da Nóbrega em vídeo que chegou às redes sociais por Flávio Bolsonaro, senador da República e primogênito do presidente.

Piada

A única pessoa que pode investigá-lo é o procurador-geral da República. Mas o sistema é tão mal arquitetado que o titular do cargo é nomeado pelo próprio presidente. Ignorando uma lista tríplice que nesse século dava alguma independência à PGR, Bolsonaro escolheu Augusto Aras, uma figura que, de tão servil, já recebeu oferta para se tornar ministro do Supremo — e virou até piada.

Ficha suja

De tudo o que se tem contra Bolsonaro, Sergio Moro foi o nome que apresentou as provas mais sólidas. O vídeo da reunião ministerial de 22 de abril deixa claro que a intenção do presidente era interferir no trabalho da PF para se blindar de investigações. O que faz Aras na posição de quem deveria zelar pelo máximo interesse público? Reabriu a negociação por uma delação contra Moro, o que cai como luva na busca de Bolsonaro pela reeleição. Com a ficha suja, o ex-ministro não subtrairia votos da direita, o que catapultaria o presidente mais uma vez ao segundo turno.

Sete motivos

Exatas 524 pessoas e organizações já protocolaram um total de 41 pedidos de impeachment do golpista. As argumentações giram em torno de sete temas principais: os ataques à democracia, os aplausos à ditadura militar, a conduta eugenista durante a pandemia, as infindas quebras de decoro, o aparelhamento da Polícia Federal, a perseguição à imprensa e as ameaças à independência dos poderes. Até o momento, Rodrigo Maia engavetou apenas uma solicitação.

Impeachment ou cassação?

Ciente de que a lei do impeachment já derrubou dois presidentes no Brasil, e levou um terceiro a uma crise que resultaria em suicídio, o governo Bolsonaro teme que os atos convocados para os próximos dias encorpem o apoio à abertura do processo. Noutro flanco, tenta se amigar dos integrantes do TSE, pois Alexandre de Moraes finalmente percebeu que os ataques do gabinete do ódio precedem o passar de faixa de Michel Temer para o sucessor.

All in

Enquanto o STF se prepara para podar parte da inconstitucionalidade do inquérito aberto por Dias Toffoli, os principais alvos já foram para o tudo ou nada. Um deputado estadual de São Paulo, por exemplo, preparou um dossiê de quase mil páginas contra militantes da oposição. Juntamente com outros parlamentares do PSL, tem se negado a prestar esclarecimentos à PF. Mas um dos empresários atingidos pelo trabalho de Moraes admitiu que financiava manifestações governistas — que também merecem a alcunha de golpistas.

Cruzaram a linha

Só hoje, ficou claro o que Hamilton Mourão queria com o polêmico artigo de ontem. O tom duro era justo uma reação ao risco de ser sugado por Bolsonaro numa queda por cassação no TSE. Mas, apesar da ameaça dissimulada dos parágrafos finais, a notícia é boa. Pois indica que os militares estariam dispostos a se livrar do engodo que os lidera, ainda que não possam manifestar o desejo em público. E, de fato, há quem alimente a imprensa não só dos desmandos da “ABIN paralela”, mas também do que Augusto Heleno sussurra no ouvido presidencial.

Na falta de um plano melhor

Um governo Mourão não há de ser a sétima maravilha do mundo. E certamente lidaria com a alta rejeição de esquerdistas e bolsolavistas. Mas assim também era o governo Temer. E, naquele tempo, ainda havia a esperança de dias melhores, coisa que Bolsonaro reduziu a pó.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Agência Pública, BR Político, Crusoé, Congresso em Foco, Estado de Minas, Estadão, Exame, Folha de S.Paulo, G1, Haaretz, O Antagonista, O Globo, UOL, Valor Econômico e Veja.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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