Grande História

Jair Bolsonaro leva o Brasil a um trágico Estado policial

10.06.2020 - Brasília/DF - O presidente Jair Bolsonaro, Paulo Guedes durante videoconferência. Foto: Isac Nóbrega/PR

O surgimento de Abin pararela, os atos da agência clandestina, os ataques aos governadores, o apoio dos garantistas, e muito mais.

Desde 17 de fevereiro de 2019, a imprensa noticia que Carlos Bolsonaro tentava montar no Palácio do Planalto o que foi batizado de “Abin paralela”. Menos de um mês depois, o STF abriu um polêmico inquérito para apurar ameaças à própria Suprema Corte. Era uma reação institucional a uma arapongagem já percebida em Brasília por membros dos três poderes.

Quando a Vaza Jato ganhou o mundo em junho do ano passado, os mistério parecia solucionado. E, de fato, os hackers de Araraquara começaram a atacar em 2 de março de 2019, doze dias antes da abertura do inquérito pelo Supremo. Mas seriam os “ararahackers” os únicos arapongas atuando em Brasília?

A Abin paralela existe

Na reunião ministerial de 22 de abril de 2020, Jair Bolsonaro confessou possuir um “sistema de informação particular“. Só em maio, a Veja confirmou que a Abin paralela não só existia, como era comandada por Marcelo Costa Câmara, um coronel do Exército que oficialmente recebe salário como assessor especial do presidente da República. No início de junho, foi a vez de o Estadão referendar a existência da agência de espionagem clandestina, e dar nome a um segundo integrante: Márcio Cavalcante de Vasconcelos, um tenente-coronel da Polícia Militar do Distrito Federal.

Cronologia

De fato, Vasconcelos só virou Assessor-Chefe Adjunto da Assessoria Especial do Presidente da República em 27 de março de 2019, doze dias após a abertura do inquérito do STF. Mas Costa Câmara atua como Assessor Especial do Gabinete Pessoal do Presidente da República desde 21 de fevereiro de 2019. Ou seja, antes mesmo de os ararahackers atacarem a primeira vítima. E apenas quatro dias após a nota em que Augusto Heleno, o conselheiro mais próximo de Bolsonaro, surge supostamente vetando a maluquice de Carluxo.

Verba publicitária

Duas semanas antes de morrer, Gustavo Bebianno explicou no Roda Viva que, na verdade, o veto partiu dele e de Carlos Alberto dos Santos Cruz, ministro que também impedia Carluxo de fazer mau uso da verba publicitária do Governo Federal. Bebianno foi demitido no dia seguinte à publicação da primeira nota sobre a Abin paralela. E a matéria da Veja diz que o trabalho dos arapongas foi fundamental justamente na queda de Santos Cruz. Agora, ao analisar as contas do primeiro ano de mandato de Bolsonaro, o TCU alerta para a falta de transparência no uso de R$ 935 milhões em verba publicitária.

Mais vazamentos

A matéria da Veja acrescenta que a Abin paralela vazou para o presidente detalhes de uma investigação da Polícia Federal nos Correios. Em junho de 2019, três meses antes de a operação ir a campo, o presidente dos Correios realmente foi demitido por Bolsonaro.

Fritando ministros

A matéria da Veja diz também que a Abin paralela estava na cola de Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde que tentava conter o avanço do novo coronavírus no Brasil. De fato, há notícia na mesma revista denunciando que o Planalto secretamente preparava um dossiê contra Mandetta. Que, no mesmo dia, anunciou a própria demissão nas redes sociais.

Armadilha

Antes, Mandetta percebera que um dos passeio irresponsáveis de Bolsonaro durante a pandemia era, na verdade, uma “armadilha”. Pois soube que o presidente havia sido informado de que se tratava da mesma padaria frequentada pelo então ministro e a esposa.

Principal adversário

A matéria da Veja diz ainda que Bolsonaro foi o primeiro a receber a denúncia sobre os contratos atípicos de aquisição de respiradores pelo governo fluminense. E logo a repassou à Abin paralela. Aquele dossiê se tornou a operação Placebo. Ontem, por unanimidade, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro abriu um processo de impeachment de Wilson Witzel.

Ingerência na PF

A operação que pegou Witzel veio à tona três semanas após Jair Bolsonaro, confirmando as acusações feitas por Sergio Moro, trocar o comando da PF. Ou exatamente no dia em que a corporação substituiu seis superintendentes regionais, incluindo o do Rio de Janeiro, onde os mandados de busca e apreensão foram cumpridos.

Língua nos dentes

Na véspera, Carla Zambelli e um punhado de parlamentares do PSL anteciparam que a PF iniciaria uma série de operações contra governadores. Naquele 26 de maio, a deputada federal também citou o nome de Helder Bárbalho. Ontem, o governador do Pará foi alvo de mais uma operação da PF que apurava fraude na compra de respiradores.

Locomotiva do Brasil

Tentando amenizar o flagra com ironia, um macete há muito explorado pelos bolsolavistas pegos com “batom na cueca”, Zambelli adiantou que um dos próximos alvos será João Doria, outro adversário político de Bolsonaro. De imediato, o governador de São Paulo ofereceu uma resposta dura à parlamentar. Um dia antes, já tinha virado notícia que o presidente da República acionara a Abin paralela na produção de um dossiê sobre a relação de Doria com Carlos Wizard, o bilionário que findaria desistindo de assumir uma secretaria no Ministério da Saúde.

Tenentismo do século XXI

Em meio à batalha para que São Paulo deixe de ser o epicentro no país que se tornou o epicentro da pandemia em todo o mundo, o governo Doria precisa se esforçar para conter o avanço do bolsolavismo na Polícia Militar. Há quase um ano, em iniciativa elogiada por Carlos Bolsonaro, Olavo de Carvalho prometia dar cursos gratuitos a policiais militares.

Motins

O risco é o maior estado do país viver motins como o observado em fevereiro no Ceará. A carnificina foi tamanha que o Brasil terminou o primeiro bimestre de 2020 com 548 homicídios a mais do que igual período do ano passado. Dois terços dessa alta em todo o território nacional vieram dos 13 dias da paralisação cearense. Mesmo assim, Aginaldo de Oliveira chamou os amotinados de “gigantes e corajosos“. O comandante da Força Nacional é casado justamente com Carla Zambelli. Marcada pelos tiros sofridos por Cid Gomes, aquela crise teve por auge a data em que um dos principais líderes da greve criminosa almoçou com o presidente da República.

Desce mais

Os lavajatistas podem até se empolgar com a ideia de o próprio presidente da República encabeçar de dentro do Palácio do Planalto uma caça a corruptos. Mas é claro que a coisa vai bem além disso. O vídeo que Flávio Bolsonaro compartilhou com a autópsia do miliciano Adriano da Nóbrega, por exemplo, passou antes pela Abin paralela.

Legalizando o inaceitável

Em 2007, Flávio chegou a defender que as milícias fossem legalizadas. A ideia já não frequenta o discurso da família Bolsonaro. Mas, na prática, é o que o governo Bolsonaro vem trabalhando. A ampliação do excludente de ilicitude tão desejada por Jair Bolsonaro cai como uma luva nas execuções protagonizadas por milicianos nas periferias. O mesmo pode ser dito sobre a revogação de três portarias que permitiam um controle mais rígido de armas e munições. O presidente multiplicou por até 18 vezes a quantidade de munição que o brasileiro pode comprar, o que fez as vendas dispararem a 2 mil cartuchos por hora. De quebra, liberou a venda privada de fuzis do Exército.

Mais do que crime ambiental

Bolsonaro assinou até mesmo uma Medida Provisória extremamente vantajosa aos grileiros. A MP foi noticiada como uma grave agressão ao meio ambiente, uma vez que beneficiaria os criminosos que mais desmatam no país. Mas não se pode esquecer que grilagem de terras é também o crime que mais enriquece as milícias cariocas.

Questão de lógica

A pergunta a se responder é simples: se bem sucedidas, todas essas iniciativas dificultam ou facilitam a vida dos milicianos que orbitam a família Bolsonaro há quase duas décadas?

Comprando apoio

Na reunião ministerial de 22 de abril, Bolsonaro fala literalmente em armar a população contra os governadores. O Congresso Nacional, que vinha impedindo o avanço do autoritarismo do chefe do Executivo, é um obstáculo cada dia menor. Na compra de apoio do centrão, Bolsonaro está disposto até mesmo a recriar ministérios, como fez agora ao entregar o das Comunicações ao PSD de Gilberto Kassab.

E o povo?

Resta ao povo contar com o Ministério Público. Mas Raquel Dodge, que buscava ser reconduzida ao cargo mesmo sem participar de debates ou integrar a lista tríplice do MPF, nada fez a respeito da Abin paralela. Augusto Aras, que venceu a disputa com a antecessora pelo posto primeiro PGR deste século escolhido fora da lista tríplice, não só nada fez a respeito, como —atenção— cumpriu ordens da Abin paralela. Pois já se sabe que o dossiê que resultaria no processo de impeachment de Witzel, aquele que rendeu mandados de busca e apreensão com apenas 13 dias de inquérito, chegou a Aras por alguém muito próximo de Jair bolsonaro.

Qual sentido?

Ao todo, Aras tem munição contra ao menos cinco governadores. E também avança, com apoio de Jair Bolsonaro, contra caciques do centrão, como Ciro Nogueira e Arthur Lira. Que lógica há em o presidente apoiar denúncias contra os mais recentes aliados? Ou as denúncias funcionarão apenas como uma arma para que os parlamentares comprados de fato entreguem os votos vendidos?

Ampliando a espionagem

Tudo é feito sob os aplausos de Dias Toffoli, que segue defendendo Aras, um PGR tão servil que até promessa de indicação ao Supremo chegou a receber do presidente da República. Em troca, o presidente do STF conseguiu emplacar um aliado no ministério abandonado por Moro. E o que André Mendonça faz? Dois dias após o inquérito do Supremo avançar contra o gabinete do ódio, explorando brechas numa área “fiscalizada” no Congresso por —atenção— Eduardo Bolsonaro, agregou a espionagem das PMs ao Ministério da Justiça.

Nome à coisa

Há muito, a humanidade sabe definir um governo que se sustenta na repressão a opositores tocada por forças policiais e agências clandestinas: Estado policial. A expressão pode soar instigante a quem saliva pelo combate à corrupção, mas ela está na origem do que de pior a humanidade produziu, incluindo a Itália fascista, e a Alemanha nazista.

395%

Não por acaso, movimentos supremacistas festejaram a vitória de Jair Bolsonaro em 2018 ampliando em 395% a publicação de páginas neonazistas naquele outubro. Mas, sobre o caráter neofascista do governo Bolsonaro, essa coluna já escreveu no início deste mês.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BBC Brasil, BR Político, Correio Braziliense, Crusoé, Estado de Minas, El País, Época, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, IstoÉ, Metrópoles, Nexo, O Antagonista, O Globo, Poder 360, Roda Viva, Terra, The Intercept, UOL e Veja.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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