Grande História

Jair Bolsonaro há muito abandonou o combate à corrupção

20.05.2020 - Brasília/DF - O presidente Jair Bolsonaro durante videoconferência com Governadores dos Estados. Foto: Marcos Corrêa/PR

A entrevista de Moro, a realidade do bolsopetismo, o confisco da câmera, o crime de Bolsonaro, os recuos dos golpistas, e muito mais.

Em entrevista ao Fantástico, Sergio Moro confirmou o que está evidente desde meados de 2019: Jair Bolsonaro há muito abandonou a principal bandeira de campanha, o combate à corrupção. O delegado Waldir, que chegou a liderar a bancada do PSL na Câmara Federal, foi ainda mais claro, garantindo que o presidente da República “trabalhou para impedir a prisão em segunda instância” e “ajudou a colocar o Lula em liberdade”.

Não à toa, Carla Zambelli, provando que o “bolsopetismo” é mesmo uma realidade, reclamou que “durante o período em que o Sergio Moro ficou como juiz, a única pessoa que ele prendeu de fora do PT, de grande escala, foi o Eduardo Cunha. Não tivemos prisões do Mensalão tucano, de vários mensaleiros tucanos que estavam sem foro privilegiado“. Após críticas do presidente, que acompanhava a deputada federal, uma cambada de abilolados se deu a xingar os jornalistas presentes — que já deveriam receber adicional de insalubridade.

Íntegra?

O vídeo com a íntegra da reunião ministerial de 22 de abril de 2020 deixou claro, por exemplo, que Bolsonaro trocou o comando do IPHAN como punição por o instituto ter papel ativo na paralisação de uma obra de Luciano Hang. Hoje, contudo, meia dúzia de policiais federais descaracterizados apreenderam no Palácio do Planalto o equipamento que registrara o encontro. A iniciativa indica que os investigadores não confiam na lisura do registro entregue pelo próprio Governo Federal a Celso de Mello.

Crime de advocacia administrativa

De acordo com procuradores envolvidos na apuração, o material deixa claro que o presidente teria cometido “crime de advocacia administrativa“. Até o dolo estaria explícito em tela. Mais cedo, contudo, o presidente da República se convidou para uma visita fora da agenda à Procuradoria-geral da República. Sem um mínimo de respeito pelo cargo que ocupa, Augusto Aras, que sonha com uma vaga no STF desde o governo Dilma, aceitou, mas antes entoou o mantra tocado pelos golpistas do Planalto, que vivem a ameaçar a República sob o argumento de que a independência dos poderes precisa ser respeitada.

“Recuo”

O autor da mais recente ameaça à democracia, no entanto, refugou da intransigência. Augusto Heleno contava com o apoio de militares da reserva que falaram até em “guerra civil“. E de Fernando Azevedo, ministro da Defesa que preferia negar o golpismo da coisa. Mas, no domingo, o chefe do Gabinete de Segurança Institucional alegou que havia feito referência apenas à segurança institucional. O “recuo” veio na mesma data em que prestigiou mais uma manifestação golpista ao lado do chefe. Hoje, três deputados do PT protocolaram um pedido de impeachment do general que comanda o GSI.

Diga-me com quem andas

Repleto de aglomerações criminosas (na véspera, Bolsonaro chegou a ser xingado de “assassino” ao sair para comer um cachorro-quente), o ato contou ainda com a participação de Eduardo Pazuello, o interino da Saúde que, sem qualquer comprovação científica, liberou o uso da cloroquina (segundo o Conselho Nacional de Saúde, o medicamento deveria ser suspenso para casos leve de covid-19). O público foi mais uma vez minguado, mas chamou atenção pela presença de Guilherme de Pádua, o monstro que assassinou a atriz Daniela Perez com 18 tesouradas há 28 anos.

Mais “recuo”

Heleno não foi o único “recuo” do final de semana. Abraham Weintraub, que protagonizou o momento mais obscuro da filmagem de 22 de abril (o trecho no qual garantia que, por ele, “colocava esses vagabundos todos na cadeia, começando no STF“), agora diz que teve a fala deturpada, e que não responsabilizava “todos”, mas apenas “alguns“. A explicação dessa lorota terá que ser dada pelo próprio ministro da Educação ao Senado.

Abin paralela

Weintraub certamente não fazia referência a Bolsonaro, que surge no vídeo assumindo até mesmo que possui um sistema de informações particular. Ao tentar explicar o que se tratava, listou entre as fontes de informação um “sargento do batalhão do Bope do Rio de Janeiro“. Paulo Marinho havia dito em entrevista que a operação Furna da Onça fora vazada para Flávio Bolsonaro por um delegado da Polícia Federal. Em 15 de outubro de 2018, data em que o ainda presidenciável exonerou a filha de Fabrício Queiroz por força do vazamento, Bolsonaro visitou justamente o Bope no Rio de Janeiro.

Falsidade ideológica

Bolsonaro também se complicou no que veio a público que, mesmo antes da reunião de 22 de abril, escreveu a Moro que já havia se decidido pela exoneração de Maurício Valeixo do comando da PF. Hoje, a Secretaria-geral da Presidência admitiu que incluiu na exoneração nome de Moro sem a autorização do ex-ministro da Justiça. Mas justificou a prática como sendo algo comum no poder público.

Repercussão internacional

No Reino Unido, o jornal conservador The Telegraph diz que Bolsonaro caminha para ser conhecido como “o homem que quebrou o Brasil“. Também britânico, o Financial Times alerta que o presidente está arrastando o país para um desastre. Na ONU, um relatório nega ao brasileiro o direito de ampliar o desmatamento por obra da pandemia. Analistas percebem, inclusive, que a sociopatia do maldito já vem afastando investidores estrangeiros.

Esperança

Não resta dúvida de que o encurtamento de um mandato tão insano seria uma benção. Com os militares abrindo mão de garantias democráticas, uma cassação de chapa seria notícia ainda melhor. Duas ações neste sentido serão julgadas no TSE agora em junho, mas tendem a ser arquivadas. Há outras seis por serem analisadas no futuro, além de mais de trinta pedidos de impeachment na mesa de Rodrigo Maia Há esperança. Só não há mais paciência — por motivos óbvios.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: CNN Brasil, Congresso em Foco, Correio Braziliense, Crusoé, Época, Estadão, Financial Times, Estado de Minas, Folha de S.Paulo, G1, Jota, O Antagonista, O Globo, Telegraph, UOL e Veja.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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