Grande História

Jair Bolsonaro não vai se tornar democrata aos 65 anos de idade

24.06.2019 - Brasília/DF - Presidente da República, Jair Bolsonaro em reunião com Wilson Witzel, Governador do Estado do Rio de Janeiro; Senador Flávio Bolsonaro (PSL/RJ); Chase Carey, Diretor Executivo da Fórmula 1; e José Antonio Pereira Junior, Presidente da Rio Motorsports. Foto: Carolina Antunes/PR

Os panos quentes em Brasília, a operação Placebo, o possível vazamento, os afagos nas forças policiais, a lição ao STF, e muito mais.

A tarde já virava noite quando, ontem, Jair Bolsonaro soltou uma nota num tom sóbrio ainda desconhecido da parte do presidente da República. Nos sete tópicos, garantias democráticas que não precisariam ser dadas por um verdadeiro democrata. A jogada é manjada: após a arbitrariedade, vem um leve recuo que apenas serve de impulso à arbitrariedade seguinte. Mesmo assim, o texto dividiu o noticiário com manchetes nas quais os membros do STF abdicavam de processar Abraham Weintraub pela fala golpista da reunião ministerial de 22 de abril, e Celso de Mello arquivava a notícia-crime pelo uso não consentido da assinatura de Sergio Moro quando da exoneração de Maurício Valeixo do comando da Polícia Federal.

Raiou um novo dia e, com ele, a operação Placebo ganhou as ruas. Ou melhor, o Palácio das Laranjeiras, residência oficial de Wilson Witzel, governador do Rio de Janeiro e um dos principais adversários políticos de Bolsonaro. Autorizados pelo ministro Benedito Gonçalves, do STJ, os investigadores apuravam desvios de recursos públicos nos hospitais de campanha montados contra a covid-19. Na véspera, a PF já havia tocado uma operação para investigar a compra de respiradores pulmonares em Fortaleza.

Muita calma nessa hora

É preciso ponderar, contudo, que há dias corre rumores de que Augusto Aras deflagaria uma operação contra Witzel. O deslocamento de um avião da PF para o Rio de Janeiro ajudou a alimentar as certezas de que algo grande viria. Mas há mais mistérios entre o céu e a terra do que desconfia a vã filosofia.

Treze

O inquérito foi aberto há apenas 13 dias. Os mandados de busca e apreensão de computadores e celulares foram solicitados pela mesma Procuradoria-Geral da República que se prepara para negar a apreensão dos celulares de Jair e Carlos Bolsonaro. A mesma PGR comandada pelo mesmo Aras que, ontem, aceitou receber o mesmo presidente da República fora da agenda. Mas as coincidências não param por aí.

Dossiê

Toda a investigação bate com um dossiê que passou pelas mãos de Bolsonaro. A investigação foi instaurada “de ofício”, o que está longe de ser algo corriqueiro na PGR. Ainda ontem, a deputada federal Carla Zambelli, integrante da linha de frente dos bajuladores do presidente, garantiu em entrevista que a PF iniciaria um cerco a governadores por causa da covid-19. Segundo a Federação Nacional de Agentes da Polícia Federal, “é conhecido e notório o vínculo da parlamentar com a Associação de Delegados, desde quando era líder do movimento Nas Ruas“. O marido da deputada, inclusive, é Antônio Aginaldo de Oliveira, o chefe da Força Nacional que chamou de “gigantes” e “corajosos” os PMs amotinados no Ceará.

“O que vocês acham?”

Horas antes de a Placebo visitar Witzel, Eduardo Bolsonaro publicou nas redes sociais: “os que achavam que se aproveitariam da pandemia para roubar e ficar impunes se enganaram. E acredito que tenha muito mais operação para vir aí“. Filipe Martins, o principal elo entre o presidente e Olavo de Carvalho, há três dias respondeu a críticas de Witzel com um emoji usado para alertar que uma contagem regressiva está em andamento. Mesmo na polêmica reunião de 22 de abril, a ministra Damares Alves não só falou em prender governadores e prefeitos, como já teria adiantando alguns procedimentos.

Buscando apoio?

Toda essa movimentação veio acompanhada de afagos às forças policiais. Hoje, Bolsonaro editou uma Medida Provisória que aumenta em 25% o salário de policiais e bombeiros do Distrito Federal, além de 8% de aumento para policiais civis. Ontem, em troca da sanção do socorro financeiro a estados e municípios, o Senado aprovou uma MP que permite a criação de cargos de confiança na PF. Hoje, a corporação trocou superintendes e cargos de chefia em seis estados, incluindo o Rio de Janeiro, onde foi deflagrada a Placebo.

Ingerência

Os movimento foram tão obscenos que a Transparência Internacional já soltou uma nota preocupada com o risco de Bolsonaro ter usado a PF para perseguir adversários políticos. Para o próprio Witzel, a Placebo deixa claro que “a interferência anunciada pelo presidente está oficializada“. Para João Doria, é nítido que o presidente da República protagoniza uma escalada autoritária. Flávio Bolsonaro, como não poderia ser diferente, negou qualquer interferência na PF, chamou de traidor o governador para o qual pediu voto, e garantiu que um “tsunami” está por vir. O pai dele, contudo, apenas riu e parabenizou a PF.

Fica a lição

Um dia após o presidente da República dar garantias democráticas, e meia Brasília fingir que não viu gravidade no vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, Celso de Mello encaminhou à PGR uma notícia-crime contra Zambelli. A solicitação mira o episódio em que a deputada federal ofereceu uma vaga no STF em troca da indicação de Sergio Moro aceitar Alexandre Ramagem no comando da PF. Alexandre de Moraes foi menos protocolar que o colega de toga, e usou o “inquérito das fake news” para cobrar de Weintraub explicações pelas ofensas ao Supremo. Fica a torcida para que aprendam: aos 65 anos de idade, Jair Bolsonaro não irá se tornar o democrata que não foi por toda uma vida.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BR Político, CNN Brasil, Correio Braziliense, Crusoé, DW, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, O Antagonista, O Globo, Poder 360, Metrópoles, UOL, Valor Econômico e Veja.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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