27.11/2018 - Brasília/DF - Jair Bolsonaro concede entrevista à imprensa, no CCBB. Foto: Wilson Dias/Agência Brasil
Primeira Pessoa

Como será o golpe de Jair Bolsonaro

Já não há dúvidas de que Bolsonaro usará as eleições de 2022 para um autogolpe; falta explicar à opinião público como o presidente agirá

27.11/2018 - Brasília/DF - Jair Bolsonaro concede entrevista à imprensa, no CCBB. Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

Diariamente, mensagens de desconhecidos chegam a meu celular com vagas de emprego que nem se encaixam nos meus interesses, mas prometem grana fácil a quem a aceite. Semanalmente, conhecidos narram episódios em que algum familiar transfere dinheiro para estranhos certos de que socorrem algum parente em dificuldade financeira. Corriqueiramente, a imprensa reporta uma nova modalidade de golpe que causa estragos em praças lotadas de potenciais vítimas.

Enquanto as autoridades não implementam soluções que dificultem a ação dos golpistas, cabe a quem toma conhecimento compartilhar o método aos mais próximos na esperança de que identifiquem padrões e protejam suas economias do assédio dos mais variados criminosos.

A mesma estratégia tanto serve ao mundo político que foi de extrema relevância para a democracia mais importante do planeta manter-se de pé. Os passos seguintes de Donald Trump já eram aguardados por especialistas que cobriam o noticiário político. Mas, no que um opositor como Bernie Sanders antecedeu em vídeo as narrativas que o trumpismo trabalharia durante a apuração da eleição de 2020, ajudou a neutralizar os esforços republicanos para impedir a posse de Joe Biden como presidente dos Estados Unidos.

Precaução do tipo também precisa ser tomada no Brasil. E só por isso arrisco minha credibilidade em uma previsão, algo que tenho evitado em decorrência das inconstâncias do jogo político nacional.

O roteiro que certamente ocupa a mente de Jair Bolsonaro já foi iniciado com os muitos esforços para ampliar a desconfiança sobre a eleição a ser arbitrada pelo Tribunal Superior Eleitoral em 2022. Por toda a campanha, o presidente da República tentará provar que atos lotados ilustrariam (não ilustram) uma realidade distinta da captada pelas pesquisas mais relevantes. Para que o efeito visual seja mais impactante, será dada a preferência a carreatas e ‘motociatas’, eventos nos quais a presença de carros e motocicletas ajudam a preencher vazios deixados pelo público que porventura não comparecer ou nem existir. Em paralelo, pesquisas colhidas por instituições menos conhecidas, e bancadas por empresários amigos, apresentarão números que certamente destoarão dos apurados no domingo de votação — e por isso é extremamente importante que a imprensa seja mais criteriosa ao selecionar os levantamentos que reverbera, ou pode alimentar o discurso que irá lhe tolher a liberdade de ofício. Bolsonaro aposta na ingenuidade de quem não entende como estatísticos podem medir o interesse de milhões de eleitores com base em uma amostragem que não supera o total de votantes em enquetes do Facebook.

No dia da votação, Bolsonaro vai insistir para que apoiadores registrem com celulares supostos problemas flagrados nas urnas. Para o golpista, pouco importa se o erro foi cometido pelo próprio eleitor, ou se as centenas de urnas realmente problemáticas representam uma parcela ínfima do universo de meio milhão de máquinas utilizadas pelo TSE. Ele também aposta na ingenuidade de quem pouco compreende até mesmo matemática básica.

Pelo que vimos em apurações anteriores, há risco real de os primeiros números apresentarem Bolsonaro em uma liderança não prevista por institutos de pesquisa, e a vantagem de Lula ou mesmo de outro opositor só se confirmar quando as urnas do Nordeste forem ‘abertas’. Neste momento, muita xenofobia tomará conta das redes sociais contra o eleitorado da região. E Bolsonaro certamente usará a virada da oposição como se fosse mais uma prova (não é) de que o sistema não seria confiável (é, sim, confiável).

Confirmada a vitória de um opositor, Bolsonaro reprisará Trump, dirá que a reeleição lhe foi roubada, e exigirá recontagem de votos. Dada a falta de fundamento na exigência, o TSE irá se negar a recontá-los. É quando Bolsonaro tentará concretizar o golpe, negando-se a colaborar com o governo de transição ou mesmo a deixar o cargo. Por fim, convocará apoiadores para, nas ruas com as Forças Armadas, impedirem a posse do vencedor.

Vale muita atenção ao papel de Arthur Lira. O presidente da Câmara tem no STF um adversário que tenta lhe tirar das mãos o orçamento secreto, ferramenta também criticada pelos principais candidatos de oposiçao. Mais ainda, o presidente da Câmara vive localmente uma disputa acirrada com Renan Calheiros, um dos principais aliados de Lula. Em outras palavras, por mais que o centrão não veja problemas numa eventual vitória do petista, o principal líder do centrão vê. E tem total interesse em passar o próximo biênio com Bolsonaro no Palácio do Planalto.

Também vale atentar à relação de Bolsonaro com Vladimir Putin. O tirano russo já adotou uma ditadura na América do Sul. E, desde que a Casa Branca escapou das mãos de Trump, o tirano brasileiro iniciou um movimento de aproximação entre Brasília e Moscou.

Para que o golpe de Bolsonaro fracasse, é de extrema importância que a imprensa seja didática e alimente um diálogo claro e objetivo com a opinião pública. É igualmente importante que oposição e terceira via evitem os erros estúpidos que ainda cometem, e mantenham aberta a possibilidade de uma união no segundo turno.

Mas, acima de tudo, é necessário que os movimentos do golpista sejam antecipados e neutralizados. Tento com estas poucas palavras dar um primeiro passo. Todavia, se eu marchar sozinho, de pouco adiantará. Por isso este texto está liberado para ser copiado e compartilhado por quem tiver interesse. Sintam-se livres para usá-lo em vídeos no YouTube, TikTok, WhatsApp, Instagram e Facebook, em podcasts ou em sua rede social de preferência. Se você é político, sinta-se livre para usá-lo junto aos próprios apoiadores. Se você não vai com a minha cara por causa de algum posicionamento político meu, não precisa nem me dar crédito. A intenção de fato não é fazer fama em cima da história, mas evitar que tenhamos no futuro uma história ainda mais trágica do que a que já vivemos.

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