Grande História

Para se blindar do impeachment, Bolsonaro aderiu ao “toma lá, dá cá” que tanto criticava

14.06.2005 – Brasília/DF – O deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) depõe no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. Foto Marcello Casal Jr./ABr.

O auxílio do auxílio, a compra de cargos, a cara de pau de Bob Jeff, a falta de moral dos militares, o cerco institucional, e muito mais.

No domingo, dia 19, Jair Bolsonaro protagonizou um discurso golpista em Brasília. Na terça, dia 21, o Datafolha percebeu que, em decorrência da distribuição de R$ 600 como auxílio emergencial, aquele que Carlos Bolsonaro chamou de socialista, a avaliação do presidente não vem sofrendo grandes estragos. Em outras palavras, ficou claro que, com dinheiro no bolso, a democracia que lute.

Para se blindar de um processo de impeachment, Bolsonaro aderiu ao “toma lá, dá cá” que tanto criticava. Com isso, a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e da Parnaíba foi oferecida a Ciro Nogueira, denunciado na Lava Jato por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Mas, por pressão de Davi Alcolumbre, continuou com o DEM. Gilberto Kassab, que virou réu na operação ainda em 2018, deve ser agraciado com a Fundação Nacional de Saúde. Valdemar Costa Neto, preso por graça do Mensalão, deve receber a direção e as superintendências do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes. Paulinho da Força, indiciado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, quer o Porto de Santos para si. Até o antigo PMDB está sendo cortejado. A intenção é usar verba pública para somar 190 votos, dezoito a mais que os 172 que impediriam o impedimento do presidente.

Livrou Lula

Mas nada consegue ser mais cara de pau do que Roberto Jefferson. Em 2003, entregou a Eduardo Bolsonaro um cargo comissionado que exigia presença em Brasília. Mas o Zero Três, então com 18 anos, seguia normalmente cursando direito no Rio de Janeiro. Quase três décadas após atuar como “tropa de choque” de Fernando Collor de Mello, Bob Jeff, mirando um ministério, topou o mesmo papel com o atual presidente. A principal arma é a mesma bajulação que, em 2005, ao denunciar o Mensalão, sacou para evitar que o escândalo atingisse Lula.

Roberto Jefferson, o neobolsolavista mais empenhado, garantindo que Lula era um homem inocente.

Perderam a moral

A notícia boa é que os militares, que viviam a arrotar o desprezo que sentiam pelo fisiologismo do Congresso, perderam qualquer moral, e hoje integram um governo que compra o baixo clero com verba pública. Negam que sejam golpistas, mas seguem apoiando o golpista, o que de pouco vale. E já se preparam para escantear Paulo Guedes, dando luz a uma nova era desenvolvimentista – o que há de ser justo com a penca de liberais que apostou num projeto que havia apoiado a greve dos caminhoneiros de 2018. Mas, a médio prazo, deve arruinar a economia como já aconteceu na ditadura militar.

Saiam com as mãos para cima

O pedido de Eduardo Bolsonaro para derrubar a prorrogação da CPMI das Fake News, aquela que pode convocar Carlos Bolsonaro a qualquer momento, foi sorteado para Gilmar Mendes, padrinho da CPMI. A quebra de sigilo de Flávio Bolsonaro recebeu no STJ uma contundente defesa de Félix Fischer. Provando que não está para brincadeira, Alexandre de Moraes, em nome do Supremo, autorizou a abertura de um inquérito para investigar quem estava por trás da manifestação golpista na qual Bolsonaro discursou. Ao todo, a Justiça cerca a família Bolsonaro por seis frentes.

Scripta manent?

Acuado pelas reações institucionais, Jair Bolsonaro formalizou um recuo em carta a Dias Toffoli, que só acredita no que leu se quiser passar recibo de ingênuo. Mas não deve ter acreditado. Do contrário, o PT, quem em 2019 foi desautorizado pelo próprio presidente do STF a pregar o “fora, Bolsonaro“, não teria agora finalmente decidido pela defesa do afastamento do maldito.

Previsão certeira

E tudo isso acontece na semana para a qual previam o colapso do sistema de saúde brasileiro. Que vem se provando real, ainda que as estatísticas convenientemente tardem em retratar a realidade. A situação em Manaus já rende imagens dramáticas, com cemitérios superlotados e prefeito, na ausência de um presidente interessado em ajudar, apelando ao socorro internacional. Mas os grandes centros caminham lentamente para um cenário semelhante. No Rio de Janeiro, por exemplo, a rede municipal já não mais tem leitos livres para novas vítimas de covid-19.

Desenhou

Curtas

  1. Jornalismo – O Brasil de Jair Bolsonaro tem menos liberdade de imprensa do que Angola e Moçambique.
  2. Perseguição – Tanto que essa coluna nem precisa nomear o político defendido pelo servidor processado por oferecer dinheiro a quem jogasse água em repórteres da Globo.
  3. Fugiu da quarentena – O avanço da pandemia permitiu que uma liderança do PCC aproveitasse o regime de prisão domiciliar para fugir.
  4. Pinscher diplomático – Como um bom cachorrinho de Donald Trump, o Itamaraty evitou apoiar uma resolução da ONU sobre acesso a remédios e tratamentos.
  5. Matou no peito – O governo Bolsonaro até tentou tratar como crime o drible que o governador do Maranhão deu nos confiscos brasilienses de ventiladores pulmonares, mas Celso de Mello usou a caneta do STF para dizer que crime era confiscá-los sem estados de defesa ou sítio.
  6. It’s a long way – Tudo indica que a transição do caos atual à normalidade que se conhecia antes do novo coronavírus só há de se concluir em 2022.
  7. Lambança trágica – Após tanto estudo apontando os malefícios e notícias trágicas, Fox News e Donald Trump (e Jair Bolsonaro, por tabela) estão finalmente parando de vender a cloroquina como remédio milagreiro.
  8. Recorde – Tem sido dado pouca atenção, mas o dólar quebrou mais um recorde nominal, fechando o dia cotado em R$ 5,41.
  9. Às cegas – Os números da covid-19 já não mostram mais o avanço da doença no Brasil, mas meramente a pouca capacidade de o país contabilizar os óbitos.
  10. Mau exemplo – Luiz Henrique Mandetta ao menos reconheceu que, quando se despediu do Ministério da Saúde distribuindo abraço, mandou mal por ignorar o isolamento social.

Um Pio

Abre Aspas

“O Brasil da ‘roubabilidade’: a eficiência do Estado e o avanço do Brasil dependem essencialmente do fim do toma lá, dá cá!”

Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, quase dois anos antes de aderir ao “toma lá, dá cá”.

Vale Seguir

Apesar de uma ou outra polêmica, Joel Pinheiro é uma das vozes mais razoáveis a analisar o cenário político brasileiro.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BBC, BR Político, CNN Brasil, Congresso em Foco, Correio Braziliense, Crusoé, DW, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, New York Times, O Antagonista, O Globo, Terra, Último Segundo, UOL e Valor Econômico.

14.06.2005 – Brasília/DF – O deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) depõe no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. Foto Marcello Casal Jr./ABr.

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 14 de junho de 2020 por Marcello Casal Júnior, fotógrafo da Agência Brasil, em Brasília, Distrito Federal. Nela, o deputado Roberto Jefferson depõe no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque a piscina anda cheia de ratos, e as ideias já não correspondem aos fatos.

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