Grande História

Bolsonaro interferiu na PF exatamente como Moro alertou

30.04.2020 - Porto Alegre/RS - Sem máscara, o Presidente da República Jair Bolsonaro e o vice durante Solenidade de transmissão do cargo de Comandante Militar do Sul. Foto: Marcos Corrêa/PR

O cerco a Bolsonaro, o depoimento de Moro, a reação golpista, o aparelhamento da PF, a queda de sigilo, e muito mais.

Ainda que contasse com o apoio de Dias Toffoli, o cerco ao governo Bolsonaro não dava descanso nem no feriadão. No sábado, contrariando o Itamaraty, Luís Roberto Barroso suspendeu a expulsão de diplomatas venezuelanos. Nas redes sociais, a imprensa lembrava a paródia cantada na campanha de 2018 por Augusto Heleno contra o mesmo centrão que hoje Jair Bolsonaro compra com cargos públicos. E, após uma plantonista suspender por 5 dias a decisão que obrigava o presidente da República a exibir o laudo comprovando que jamais teve covid-19, o presidente do TRF-3 negou o recurso da Advocacia-Geral da União contra a divulgação dos exames.

Mas nada rendeu mais manchetes do que as nove horas em que Sergio Moro, ironicamente acompanhado do mesmo advogado que já defendeu Marcelo Odebrecht e Eduardo Cunha da Lava Jato, detalhou à Polícia Federal um total de sete provas que tinha contra Bolsonaro. Numa delas, com apenas três palavras, o presidente da República deixa claro o interesse em interferir no trabalho que a PF realizava no próprio domicílio eleitoral: “quero o Rio“.

Vídeo e testemunhas

De imediato, mensagens do acusado foram resgatadas no aparelho celular de Moro. O depoente chegou a dizer que há no Palácio do Planalto um registro em vídeo de uma reunião em que, com outros ministros como testemunha, foi ameaçado de demissão. Ao final da tarde de hoje, veio a notícia de que a defesa do ex-ministro abre mão do sigilo no depoimento colhido.

Micareta tóxica

Do lado de fora, apoiadores de Moro e Bolsonaro disputavam quem protagonizava a maior vergonha. Em outras praças, as manifestações eram mais criminosas. Em frente ao prédio de Alexandre de Moraes, três foram presos por difamação, injúria, ameaça e perturbação da ordem, mas seriam liberados após o pagamento de fiança. Em Brasília, enfermeiros que homenageavam colegas mortos pela covid-19 foram agredidos por bolsonaristas. No domingo, os alvos foram os profissionais do Estadão que cobriam uma carreata antidemocrática.

Golpismo x repúdio

Bolsonaro, que já havia provocado aglomeração na véspera, participou da manifestação golpista de domingo. Falando pelas Forças Armadas, disse que chegou ao limite e não mais admitiria interferência de outros poderes. Sem apresentar qualquer prova, atribuiria a infiltrados as agressões sofridas pela imprensa. Novamente alvo dos ataques, Rodrigo Maia se contentou em reagir com mais uma nota de repúdio – o que segue normalizando os excessos presidenciais.

Moro tem razão

Bolsonaro já sabia que, nesta segunda, nomearia Rolando de Souza, um fantoche de Alexandre Ramagem, o homem de confiança que Carlos Bolsonaro tentou emplacar no comando da PF antes de Alexandre de Moraes barrar o aparelhamento. No mesmo turno, confirmando que a denúncia de Moro tinha fundamento, o nomeado trocou o chefe da corporação no Rio de Janeiro, estado onde o sobrenome Bolsonaro divide manchetes com as milícias locais.

Que sigilo?

Em paralelo, o presidente da República já indicava a aliados que teve acesso ao depoimento dado por Moro no final de semana. E que, a exemplo do que Hugo Chávez fez na Venezuela, o Exército há de se tornar a próxima estrutura aparelhada com aliados. O general Edson Leal Pujol estaria com os dias contados porque, em meio à pandemia do novo coronavírus, trabalhou em benefício do isolamento social – uma lógica que já rendeu a queda de Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde.

Em off

A mais recente manifestação golpista de Bolsonaro nasceu após uma reunião em que reclamou à cúpula das Forças Armadas dos obstáculos impostos pelo Supremo. Mas alguns generais garantiram que não há chance de golpe, negaram em uníssono que tenham endossado o golpista, reclamaram do incômodo que as declarações geraram, e que o presidente tentou tirar proveito do prestígio que a corporação ainda nutre junto à opinião pública. Tudo sempre em off, claro.

Em on

Em on, Luiz Eduardo Ramos diz que inexiste a possibilidade de virar um fantoche de Bolsonaro no comando do Exército. Hamilton Mourão achou covardia a agressão à imprensa, mas criticou o STF alegando que cada poder tem que ficar no próprio quadrado. Fernando Azevedo e Silva, ministro da Defesa, afirmou por nota que as Forças Armadas estão “sempre ao lado da lei, da ordem, da democracia e da liberdade“. O que não ajuda, afinal, no último março, o ministro da Defesa usou o mesmo argumento para defender o golpe de 1964.

Em queda

As bolhas virtuais geram uma percepção tão equivocada da realidade que toda a movimentação golpista é feita com a popularidade de Bolsonaro em nítida queda. As pesquisas da XP Investimentos e do Ideia Big Data são os mais recentes levantamentos com avaliações positivas de Bolsonaro abaixo dos 30%, e as negativas acima dos 40 pontos percentuais. O Paraná Pesquisas, que em 2018 foi bastante generoso com as pretensões bolsonaristas, prevê que o presidente ficaria em primeiro lugar numa nova disputa presidencial, mas apenas nove pontos à frente de Moro, que já teria até lema para a eleição de 2022: “faça a coisa certa, sempre“.

Dois por um

Isso, claro, se Bolsonaro não cair antes por impeachment. Por enquanto, a ideia caminhou apenas no Amazonas, onde o governador Wilson Lima enfrentará o processo acompanhado de Carlos Almeida, vice-governador. No pedido, alegações de que a dupla foi negligente no combate à covid-19. Se a experiência funcionar, e Mourão seguir se posicionando de forma a endossar as sandices de Bolsonaro, não seria das missões mais difíceis acrescentar uma questão nacional às eleições municipais deste ano, cuja data pode ser ajustada até o próximo mês.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Band, Correio Braziliense, Crusoé, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, Money Times, O Antagonista, O Globo, Piauí, UOL e Veja.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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