Grande História

Para blindar Bolsonaro da Justiça, vale até reinventar ministério

10.06.2020 - Brasília/DF - O presidente Jair Bolsonaro, Paulo Guedes durante videoconferência. Foto: Isac Nóbrega/PR

As promessas de campanha, o estelionato eleitoral, o genro de Silvio Santos, o mau uso da verba publicitária, e muito mais.

Em 3 de setembro de 2018, Jair Bolsonaro disse que “não podemos continuar com essa política que busca apoio através de distribuição de cargos, ministérios e diretorias“. Vinte dias depois, assumiu o “compromisso de reduzir número de ministérios“. No 1º de outubro daquele ano, argumentou que, “se ministérios e cargos continuarem sendo distribuídos a partidos políticos em troca de apoio“, milhares de obras continuariam paradas. No mesmo dia, prometeu que “obteremos receita (…) cortando ministérios e estatais“.

O segundo turno se iniciava quando o presidenciável insistiu que “reduzir o número de ministérios” era colocar “a política a serviço do brasileiro“. Passados três dias, prometeu que reduziria o “número de estatais e ministérios” em benefício do “corte de gastos desnecessários“, e da contratação de “nomes técnicos e capacitados“. Doze dias antes de ser eleito, listou a redução da Esplanada como um diferencial dele para o único adversário que havia sobrado na disputa. Segundo o presidenciável, o governo dele teria “no máximo” 15 pastas.

Falar é fácil

Há duas noites, Bolsonaro usou as mesmas redes sociais para anunciar que tinha recriado o Ministério das Comunicações, o 23º do atual governo. Para tanto, o presidente da República precisou ignorar que Fábio Faria, o novo ministro, já apoiou os governos Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer, algo que com algum atraso vem sendo apagado das redes sociais do agraciado.

Passagem para micareta

O deputado federal também chegou a ser citado em delações da JBS e Odebrecht. E, em 2009, protagonizou um escândalo ao bancar com a cota de passagens aéreas uma viagem de Adriane Galisteu, ex-namorada do parlamentar, a uma micareta potiguar.

“Pela vida que ele tem”

Qual critério técnico o presidente usou ao escolher Fábio Faria para o comando da pasta? Segundo o próprio Bolsonaro, o deputado federal “tem conhecimento até pela vida que ele tem junto à família do Silvio Santos“. O mesmo Silvio Santos que censurou o Jornal do SBT para não prejudicar o presidente, a quem chama de patrão. O mesmo SBT que amarga uma queda brutal na audiência, e para o qual um interlocutor de Bolsonaro buscava contratar jornalistas.

Dedo de Carluxo

A mudança passou pelas mãos de Carlos Bolsonaro, o vereador “federal” que também se esforçou para que Fábio Wajngarten fosse mantido no governo como secretário-executivo do Ministério das Comunicações. O mesmo Wajngarten que, no início do ano, virou notícia por continuar sócio de uma empresa que recebia dinheiro de emissoras e agências contratadas pelo governo Bolsonaro. A tutela de Carluxo há de explicar ainda o convite para que Felipe Martins, atual assessor internacional de Bolsonaro, e principal elo com Olavo de Carvalho, acumule na agenda a comunicação digital da nova pasta.

Follow the money

No início da semana, um parecer do TCU apontava a falta de transparência do governo Bolsonaro no uso de R$ 935 milhões em verbas publicitárias só em 2019. Bolsonaro, que tem ampliado a espionagem governamental com uma Abin paralela e ilegal, soube que uma investigação avançava sobre o mau uso da fortuna. Recriar o Ministério das Comunicação seria uma forma de varrer a sujeira para fora do Palácio do Planalto.

De volta ao passado

Naquele 3 de setembro de 2018, Bolsonaro avisou que a “distribuição de cargos, ministérios e diretorias (…) é um dos principais focos de corrupção e ineficiência do Estado“. Era uma rara verdade dita pelo maldito. E a coisa nem há de parar por aí. Pois o centrão, que tanto Bolsonaro demonizava, anseia pela recriação de outras três pastas: Segurança Pública, Desenvolvimento Econômico e Cidades.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Agência Brasil, CNN Brasil, Crusoé, DW, Estadão, Extra, Folha de S.Paulo, IstoÉ, O Antagonista, O Globo e UOL.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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