14.9.16 - Brasília/DF - Jair Bolsonaro discute com a deputada Maria do Rosário no plenário da Câmara dos Deputados. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Primeira Pessoa

Aos apoiadores de Bolsonaro interessa apenas a destruição de inimigos

É louvável o esforço para virar racionalmente o voto de qualquer apoiador de Jair Bolsonaro, mas o que o bolsonarismo demanda é mesmo a destruição de tudo o que Lula e o PT representam

14.9.16 - Brasília/DF - Jair Bolsonaro discute com a deputada Maria do Rosário no plenário da Câmara dos Deputados. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Brasileiro vota em corrupto, mas não vota em candidato apático‘. A licença poética reside na menção à apatia, aqui explorada para evitar o palavrão proferido na reta final do primeiro turno da eleição presidencial de 2018. Lançado por um futuro ex-amigo que costumava admirar a força com que Aaron Sorkin desenvolvia dilemas éticos em obras para a TV e cinema, o argumento tentava me convencer de que Jair Bolsonaro seria imbatível na disputa. Mas não era dito com o lamento que esperaríamos de quem se emocionava com The West Wing, mas com o entusiasmo de quem me provava mal ter escrúpulos. Todavia, a despeito de aquela amizade ter se provado lamentavelmente equivocada, o diagnóstico estava correto. E vinha com uma lição que custei a absorver.

Talvez só tenha compreendido quando, anos mais tarde, a terapeuta me sugeriu ler as cartas trocadas por Albert Einstein e Sigmund Freud. Não sou especialista no assunto, de forma que só posso oferecer uma noção wikipédica da ‘pulsão de morte‘. Em resumo, assim como há um instinto de sobrevivência na humanidade, há também o que tem por objetivo a destruição. Ambos possuem uma certa interdependência, pois tudo o que representa uma ameaça à sobrevivência do indivíduo, se destruído, deixa de ameaçar. Daí o prazer tanto no sexo, caminho para que uma nova vida promova a manutenção da espécie, quanto na morte, desde que seja daquilo ou daqueles que subtraem noites de sono.

Prazer sexual é fácil compreender. Para o prazer mórbido, no entanto, precisei observar as reações festivas das redes sociais à morte de Olavo de Carvalho — também para testemunhar que pulsão de morte não é uma exclusividade bolsonarista.

Tendo razão Freud, e ele costuma ter, uma percepção minha faria sentido: a de que o ódio a um alvo comum tem a capacidade de unir o que o amor por algo tantas vezes se mostra incapaz. Uma percepção que nem seria, por assim dizer, uma novidade, pois já tivemos lideranças mundiais declarando inimigos dos inimigos como aliados.

A constatação, no entanto, vem mesmo do que senti na pele.

Quando vesti a camisa do antipetismo, descobri nos meus textos um ímã para pessoas com as quais me identificava, mas também para figuras abomináveis, como os parlamentares Carlos e Flávio Bolsonaro, que passaram a me seguir e compartilhar parte das minhas opiniões.

Contudo, quando perdi o medo de linchamentos virtuais e voltei a externar a minha ojeriza ao bolsolavismo, virei persona non grata no clã Bolsonaro, e findei seguido por muitos petistas graúdos, incluindo Fernando Haddad, petista no qual votei no segundo turno de 2018, menos contrariado por optar pelo ex-prefeito de São Paulo, e mais por me sentir obrigado a quebrar a promessa de nunca mais votar no PT — hoje, percebo ser uma promessa tola, mas só porque finalmente aceitei que eleição no Brasil é mesmo, antes de qualquer coisa, um eterno esforço para conter danos.

Naquela temporada, muitos se empenharam em impedir o avanço do bolsonarismo. Virou folclore, mas achei louvável que algumas vozes mais razoáveis à esquerda tenham rumado às paradas de ônibus trocando bolo e café por uma chance de virar um voto contra Bolsonaro. Eu mesmo assinei e divulguei manifesto em defesa de Haddad. Era como se pressentíssemos no estômago a tragédia que se avizinhava. E estávamos certos mesmo sem imaginarmos que enfrentaríamos a pior pandemia em séculos sob a liderança dos mais desumanos dos seres vivos.

A argumentação tentava provar que o discurso de Bolsonaro não se sustentava. Que o deputado federal não cumpriria as promessas econômicas que fazia. Que já havia suspeitas de que era o corrupto que fingia não ser. Que a fé que tanto propagava não condizia com as próprias atitudes. E que, sim, apresentava graves riscos à democracia — além de, claro, ser uma ameaça a qualquer minoria catalogada.

Era uma argumentação honesta. Contudo, inócua. Pois, não percebíamos, eram também de fachada as justificativas dadas para o voto em Bolsonaro. Não era a economia, estúpido. Nem o combate à corrupção, o patriotismo ou a fé. Era a opção por quem se mostrava mais disposto a combater o petismo, a ‘fuzilar a petralhada’. Era a pulsão de morte apertando o 17 e confirmando. Era o instinto destrutivo.

O eleitor só confiaria a missão a quem demonstrasse força e interesse suficiente. Pela destruição, o brasileiro votaria no corrupto, mas não votaria no apático. O futuro ex-amigo tinha razão — ao menos nisto.

Na saída do churrasco, ele me segurou pelo braço e, baixo o suficiente para que ninguém ouvisse que ali ainda havia algum resquício de empatia, disse lamentar os ataques que eu sofria. Com a voz embargada, respondi que não estava nada bem — eles estavam me destruindo.

Foi a última vez que nos vimos.

Como derrotar a polarização que nos força a escolher entre a destruição de Lula ou a destruição de Jair Bolsonaro? Alguns apostam numa terceira opção que se disponha a destruir ambos. É a lógica. Mas eu, que para dormir melhor preciso acreditar na possibilidade de um mundo realmente melhor, prefiro apostar em autenticidade, empatia e principalmente espinha ereta. Ninguém com tais predicados, contudo, se apresentou à disputa até o momento. Até lá, nos resta conter danos. E ninguém é capaz de causar mais destruição ao país do que Jair Bolsonaro. Ainda que não seja o único, é o maior dano a ser contido.

Aos apoiadores de Bolsonaro interessa apenas a destruição de inimigos
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