Grande História

E ocultareis a verdade, e o impeachment vos derrubará

19.05.2020 - São Paulo/SP - Centrais sindicais convocam ato contra politica do governo Jair Bolsonaro. Foto: Roberto Parizotti/Fotos Publicas.

A tragédia galopante, a maquiagem nos dados, a reação raivosa, os antecedentes de Bolsonaro, os milicos coniventes, e muito mais.

Na última quinta-feira, a cada 59 segundos, o Brasil confirmava mais um óbito por covid-19. Era um um ritmo tão alucinante que assustou até o Papa Francisco. Como esperado, Jair Bolsonaro tinha interesse em esconder do mundo a tragédia que ele próprio fomentara. Assim, para escapar do Jornal Nacional, passou a adiar em três horas a atualização dos dados da pandemia. Mas o tiro saiu pela culatra, com o jornalismo da Globo fixando um “plantão” durante a novela das nove, o que chamou bem mais atenção das redes sociais, e passou a atingir uma audiência ainda maior.

A coisa, contudo, não parou por aí. O Ministério da Saúde passou os últimos dias depenando o portal que registrava as estatísticas sobre o novo coronavírus, escondendo a faixa etária das vítimas fatais, e prometendo recontar os mortos sob o argumento de que os dados estariam manipulados — o que em nenhum momento foi provado.

Malandragem criminosa

Os militares que tomaram para si o Ministério da Saúde faziam pressão para que os técnicos da pasta acatassem uma maquiagem nos dados sugeridas por Luciano Hang, empresário que entende tanto de Saúde quanto a família Bolsonaro entende de, bem, qualquer coisa útil. A malandragem consistia em divulgar apenas os óbitos ocorridos nas últimas 24 horas. De tal forma que, se o resultado do exame atrasasse, o que tem sido comum, o morto perderia até mesmo o direito de virar estatística.

Às favas com a lógica

O presidente que sequestrou o “conhecereis a verdade” como bordão insistia que esconder o total de mortos e casos era melhor para o Brasil. Sem qualquer compromisso com a lógica, argumentava que a medida evitariasubnotificação e inconsistências“. Mas no domingo, veio a grande lambança. Um primeiro balanço da pasta citava 1.382 mortes. No segundo, “apenas” 525 óbitos, uma diferença de 857 pessoas. Hoje, o ministério alegou que alguns dados estariam duplicados.

Um genocida em potencial

As reações foram péssimas. Luiz Henrique Mandetta tachou de burro o time de militares que se prestaram a tal papel. Gilmar Mendes alertou do risco de os integrantes do governo serem responsabilizados por um eventual genocídio. A Fiocruz lembrou que a transparência nos dados é tão vital quanto a vacina. E Rodrigo Maia cobrou o fim da manipulação.

Diga-me com quem andas

A iniciativa do governo Bolsonaro só encontrava par em ditaduras como Venezuela e Coreia do Norte. A Universidade Johns Hopkins, por exemplo, chegou a excluir o Brasil do levantamento que serve de referência para todo o mundo. Mas essa não era a primeira vez que o governo Bolsonaro se dava a esconder a verdade.

Antecedentes

O exame que atestaria que o presidente jamais teve covid-19, por exemplo, foi sonegado por meses. Em 2019, de tanto contestar os números alarmantes do desmatamento, Bolsonaro demitiu o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Também no ano passado, uma estranha falha humana ocultou 6,5 bilhões de dólares do cálculo da balança comercial brasileira.

Desde o início

Ainda no primeiro mês de mandato, o Governo Federal aumentou o número de servidores que podiam decretar sigilo sobre dados públicos. Agora, ampliou o sigilo para qualquer parecer jurídico que oriente o presidente na sanção ou veto de projetos aprovados no Congresso. Mesmo com o STF derrubando a confidencialidade, o governo Bolsonaro nega o acesso aos crescentes gastos com cartão corporativo. E essa é só a ponta do iceberg.

Cerco à fiscalização

Em Brasília, vários órgãos de fiscalização, regulação e controle estão sendo assediados em ritmo de arrastão. Foi exatamente o que aconteceu na Saúde, pasta que em breve completará um mês sem ministro. Bolsonaro exigiu que as mortes diárias ficassem abaixo dos 4 dígitos. Mas a ordem não incluía o salvamento de uma única vida, e sim uma mera alteração do cálculo.

Como um cachorrinho

Caninamente, o general Eduardo Pazuello cumpriu as ordens do capitão. No que o secretário interino de Vigilância em Saúde negava-se a compactuar com a contabilidade criativa, a missão foi entregue a um nome indicado pelo centrão. Com a promessa de assumir a Secretaria de Ciência, Carloz Wizard parecia empenhado, até desinformação espalhou, mas desistiu assim que o estrago daquela insanidade atingiu as empresas que ajudara a fundar. Segundo os membros do Ministério, a ordem para ocultar informações relevantes do boletim diário partiu do próprio Bolsonaro, que segue nos bastidores tratando a covid-19 como uma “gripezinha”.

Manda quem pode

A Câmara de Direitos Sociais do Ministério Público cobrou explicações de Pazuello. A Defensoria da União exigiu que o Ministério da Saúde divulgasse os dados integralmente. Por mais transparência, enquanto seis grandes veículos de imprensa prometiam colaborar entre si para levantar os dados da pandemia, o Conselho Nacional dos Secretários de Saúde lançava um site com a mesma finalidade. Até a PGR de Augusto Aras prometeu investigar as ordens presidenciais.

Obedece quem tem juízo

Mesmo com o recuo do Ministério da Saúde, não resta dúvida de que Jair Bolsonaro cometeu mais um crime de responsabilidade. Todavia, o principal beneficiado por um processo de impeachment saiu mais uma vez na defesa do indefensável, e alegou que era só somar os números. Depois Hamilton Mourão não pode reclamar se o clamor pela queda do vice se somar ao clamor pela queda do titular.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BBC, BR Político, Correio Braziliense, Época, Estadão, Exame, Folha de S.Paulo, GaúchaZH, G1, O Antagonista, O Globo, Teleguiado, UOL, Valor Econômico e Veja.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Click to comment

You must be logged in to post a comment Login

Leave a Reply

To Top