Grande História

Bolsonaro não recuou, apenas tomou ar para o próximo ataque

12.04.2020 - Brasília/DF - Presidente da República Jair Bolsonaro, chora durante videoconferência com lideranças religiosas em comemoração da Páscoa. Foto: Marcos Corrêa/PR

O flerte com milicianos, o fisiologismo contra Maia, o discurso golpista de Bolsonaro, o cozimento do presidente, o falso recuo, e muito mais.

No dia em que demitiu Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde, Jair Bolsonaro citou Rio das Pedras como um bom exemplo de comunidade carioca que estaria com o comércio em pleno funcionamento. Mas o presidente da República esqueceu de explicar que os comerciantes só estavam em atividade por pressão dos milicianos da região. No dia seguinte, após determinação presidencial, o Ministério da Defesa revogou portarias que facilitavam o rastreamento de armas beneficiando justo o trabalho das milícias. Mas essas nem eram as notícias mais revoltantes da semana que se encerrava.

“Você vai, por exemplo, no Rio de Janeiro, que eu conheço bastante…”

Tomando lá, dando cá

No sábado, aos membros da seita que o venera, Bolsonaro garantiu que “não vão me tirar daqui”. Com o debate sobre impeachment atingindo uma temperatura inédita nessa gestão, o presidente deu de ombros para o fato de ter passado toda uma campanha eleitoral prometendo que não se permitiria o que chamava de “toma lá, dá cá“, e se deu a comprar com cargos o apoio de lideranças do tão criticado Centrão. Era uma forma de enfraquecer Rodrigo Maia, única pessoa que pode dar início ao tão temido processo. Na tentativa de isolar o presidente da Câmara, rolou muito linchamento virtual tocado pelo gabinete do ódio do Palácio do Planalto, e até uma constrangedora bajulação de Davi Alcolumbre, presidente do Senado.

Manifestação golpista

No domingo, um dia após manifestações criminosas protagonizarem buzinaços nas redondezas do primeiro hospital de São Paulo a lotar as UTIs com vítimas da covid-19, outras manifestações criminosas se deram a pedir intervenção militar. Em Brasília, o espanto veio do discurso golpista de Jair Bolsonaro no ato. Nele, o presidente diz que jurou “dar a vida pela pátria“, que os “políticos têm que entender que estão submissos à vontade do povo“, e que “não queremos negociar nada“. Na sequência, o golpista ainda participou como espectador de uma transmissão em que Roberto Jefferson, o mensaleiro do Centrão condenado a 7 anos e 14 dias de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, acusava Maia de preparar um golpe contra o presidente da República.

Fritura x Cozido

Em resposta, as demais lideranças políticas do país acharam por bem seguir com o plano de isolar e cozinhar Bolsonaro em fogo brando, mas fechar o cerco a cada nova provocação. Enquanto a OAB prepara um pedido de impeachment, Felipe Santa Cruz, presidente da ordem, subiu o tom nas redes sociais. No STJ, Felix Fischer negou recurso de Flávio Bolsonaro alegando haver na investigação “fortes indícios de materialidade e autoria de crimes“. Um mandado de segurança protocolado no STF foi “sorteado” para Celso de Mello, ministro que já conteve Bolsonaro em outro episódio de apoio a manifestação golpista. E até Augusto Aras, o procurador-geral da República que atua como advogado-geral da União, despertou do sono profundo e abriu um inquérito para apurar a violação da Lei de Segurança Nacional na manifestação golpista de ontem. Mas, claro, evitou mirar o presidente que pode nomeá-lo ao STF. E ainda deu prioridade zero a uma investigação sobre… Rodrigo Maia!

Endossaram

Enquanto Congresso, STF e governadores não economizaram nas críticas, os militares, que abriam mão do silêncio quando o Supremo estava para julgar a prisão ou a libertação de Lula, preferiram apenas prometer “em off” que não têm interesse em qualquer ruptura. Mas a ala fardada do Planalto foi além, e atuou para jogar panos quentes na crise. Cobrados por Dias Toffoli a dar fim ao discurso ambíguo de Bolsonaro, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, e o secretário de Governo, Luiz Ramos, endossaram a narrativa do presidente. Ambos alegaram que a fala, gritada diante de apelos por um novo AI-5, nada tinha contra o bom funcionamento das instituições democráticas. Ou são trouxas, ou acham o presidente do STF trouxa – ou o trio acha que trouxa é o povo brasileiro.

O silêncio que precede o esporro

Como esperado, Bolsonaro amanheceu a segunda-feira negando a gravidade do discurso de ontem. E, claro, jurou não querer fechar o Congresso ou o STF. Atendia a um pedido dos generais. Mas a imprensa cometeu o erro de tratar a postura como recuo. Como é hábito, o golpista apenas toma fôlego para o próximo ataque. E o próximo ataque tem tudo para empilhar corpos de brasileiros.

Sabotagem

Porque o plano de Bolsonaro é sabotar o isolamento social, e o quanto antes. Segundo o ex-presidente em exercício, “não tem que se acovardar com esse vírus“. Ele já pediu a Sergio Moro para que comece a abrir as fronteiras do país, deu a entender que quer a volta das competições esportivas, e Abraham Weintraub, integrante do time de ministro indemissíveis (uma vez que compartilha da mesma insanidade), além de negar o adiamento do ENEM, promete premiar as universidades que seguirem em atividade durante a pandemia.

Deus definitivamente não teve misericórdia desta nação.

Desenhou

Curtas

  1. Mandetta 2 – Para evitar que Nelson Teich se destaque como o antecessor, Jair Bolsonaro quer emplacar um general como secretário-executivo do Ministério da Saúde.
  2. Descansou – Mas é difícil que Teich, que deixou a agenda vazia já no segundo dia como ministro da Saúde, consiga se destacar como Luiz Henrique Mandetta.
  3. Covid-19 – Nesta segunda, ao divulgar o boletim diário da pasta, Teich errou ao somar 270 óbitos por covid-19 aos 113 confirmados nas últimas 24 horas.
  4. Grave – Evidenciando que a subnotificação de fato anda alta, aumentou em 2.464% no estado de São Paulo o total de mortes por doenças respiratórias graves de causa ainda desconhecida.
  5. Narrativa – Usado pelos governistas como prova de que a hidroxicloroquina obraria o milagre cantado por Jair Bolsonaro, o estudo da Prevent Senior foi suspenso após a Conep descobrir que os testes se iniciaram antes de serem autorizados.
  6. SBT – É uma pena, mas Silvio Santos, que após perder um funcionário para a covid-19 lançou nota tratando Jair Bolsonaro como um chefe inquestionável, não vale a pena.
  7. Desigualdade – Como era de se esperar, por mais que a covid-19 tenha chegado ao país pelos mais ricos, é nos mais pobres que ela atinge uma letalidade assustadora.
  8. Indígenas – Na véspera do Dia do Índio, nem Hamilton Mourão, que se declara indígena, foi justo com a causa, deixando a Funai (e o Ibama) de fora do Conselho da Amazônia.
  9. Petróleo – Com a demanda em queda brutal, e em decorrência do alto custo de armazenamento, o preço do petróleo nos EUA fechou em nível negativo pela 1ª vez na história.
  10. Live – Apesar do clima fúnebre, afinal, estão morrendo de covid-19 milhares de americanos diariamente, a live organizada por Lady Gaga arrecadou 128 milhões de dólares, algo como 680 milhões de reais.

Um Pio

Abre Aspas

“O Exército é instituição do Estado. Não participa das disputas de rotina. Democracia se faz com disputas civilizadas, equilíbrio de Poderes e aperfeiçoamento das instituições. O Exército tem prestígio porque é exemplar, honrado e um dos pilares da democracia.

Santos Cruz, general do Exército, falando às claras o que outros generais só tiveram coragem de dizer no escuro.

Vale Seguir

Gabriela Biló é a pessoa por trás dos registros fotográficos mais emblemáticos do governo Bolsonaro.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BR Político, CBN, CNN Brasil, El País, Época, Estadão, Estado de Minas, Folha de S.Paulo, G1, Jovem Pan, O Antagonista, O Globo, Poder 360, UOL, Valor Econômico, Veja, Vortex Media e Zero Hora.

12.04.2020 - Brasília/DF - Presidente da República Jair Bolsonaro, chora durante videoconferência com lideranças religiosas em comemoração da Páscoa. Foto: Marcos Corrêa/PR

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 12 de abril de 2020 por Marcos Corrêa, fotógrafo da Presidência da República, em Brasília, Distrito Federal. Nela, o presidente Jair Bolsonaro chora em videoconferência com lideranças religiosas em comemoração da Páscoa.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque é preciso atacar no momento certo.

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