Grande História

Como Jair Bolsonaro tentou sabotar o combate ao novo coronavírus

Jair Bolsonaro e Henrique Mandetta

O editorial do Jornal Nacional, a negligência do presidente, os atos golpistas, as falas repugnantes, as mortes crescentes, e muito mais.

No sábado, quando o Brasil oficialmente contabilizou 50 mil óbitos por covid-19, um forte editorial do Jornal Nacional ressaltou que “a história vai registrar também aqueles que se omitiram, os que foram negligentes, os que foram desrespeitosos“. Mesmo sem citar nomes, todos entenderam a quem o texto se referia. Mas faz-se necessário um registro mais explícito. Ou corre-se o risco de, no futuro, o passado mais um vez ser deturpado por revisionistas. Nesse sentido, nada melhor do que listar os fatos em ordem cronológica.

26 de fevereiro de 2020:
O Brasil confirma o primeiro caso de covid-19.

15 de março de 2020, 162 casos confirmados:
Ignorando o isolamento social, Jair Bolsonaro participa do primeiro de vários atos golpistas que, aos domingos, contariam com a presença do presidente da República.

17 de março de 2020, 1 morto:
Mesmo com a notícia da primeira vítima fatal da covid-19, Jair Bolsonaro não esconde que o protagonismo do ministro da Saúde o incomoda, e promete organizar uma festa de aniversário para mais de mil de convidados.

20 de março de 2020, 11 mortos:
Jair Bolsonaro argumenta que, “depois da facada, não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar“.

24 de março de 2020, 46 mortos:
Jair Bolsonaro ocupa cadeia de rádio e TV para, com um sorriso cínico, pregar contra o isolamento social. No pronunciamento, alegaria que, por possuir um histórico de atleta, estaria protegido contra o que novamente chama de “gripezinha”.

25 de março de 2020, 59 mortos:
Após Jair Bolsonaro defender um relaxamento do isolamento social, os Correios passaram a descontar parte da remuneração dos funcionários que estavam em quarentena.

28 de março de 2020, 111 mortos:
A Justiça Federal impede que o governo Bolsonaro veicule uma campanha contra o isolamento social.

30 de março de 2020, 159 mortos:
Jair Bolsonaro esvazia o comitê de crise, e endossa uma mentira que reverberava nas redes sociais sobre uma morte acidental ter inflado números da como covid-19.

1º de abril de 2020, 240 mortos:
Pregando contra o isolamento social, Jair Bolsonaro compartilha um vídeo falso sobre um desabastecimento que, na verdade, não ocorria em lugar nenhum.

2 de abril de 2020, 324 mortos:
Reclamando que os governadores estariam com “medinho” da doença, Jair Bolsonaro diz que só faltava apoio popular para assinar um decreto já pronto contra o isolamento social.

13 de abril de 2020, 1.328 mortos:
Bolsonaro veta o uso de dados de celulares no mapeamento do isolamento social.

16 de abril de 2020, 1.924 mortos:
Jair Bolsonaro demite Luiz Henrique Mandetta porque o ministro da Saúde cometia o pecado de ignorar a insanidade presidencial e trabalhar em sintonia com a OMS.

17 de abril de 2020, 2.141 mortos:
Jair Bolsonaro volta a defender a abertura do comércio, mas promete assumir a responsabilidade caso a a situação piorasse. Na mesma data, Bolsonaro pede ao ministro da Justiça para reabrir as fronteiras do país.

19 de abril de 2020, 2.462 mortos:
Em sintonia com o chefe, o pior ministro da Educação de todos os tempos promete premiar universidades que sabotem o isolamento social.

20 de abril de 2020, 2.587 mortos:
Ao ser alertado do alto número de mortes naquele dia, Jair Bolsonaro respondeu a um jornalista: “Eu não sou coveiro, tá certo?

22 de abril de 2020, 2.906 mortos:
Em reunião ministerial, Jair Bolsonaro reclama que o diretor-geral da Polícia Rodoviária, que viria a ser demitido por causa da homenagem, não destacou na nota as comorbidades de um policial morto pela covid-19.

27 de abril de 2020, 4.603 mortos:
O presidente é alertado pela Abin que a pandemia avançava com tanta força no Norte do país que já provocava caos nos cemitérios de Manaus, mas o alerta é ignorado.

28 de abril de 2020, 5.083 mortos:
Ao ouvir uma repórter citar que o Brasil superou a China no total de mortos por covid-19, Jair Bolsonaro responde: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Sou Messias, mas não faço milagre“.

11 de maio de 2020, 11.653 mortos:
Jair Bolsonaro inclui academias e salões de beleza como serviços essenciais, e cogita vetar o pagamento de auxílio emergencial às categorias, o que forçaria uma exposição dos profissionais aos riscos da pandemia.

13 de maio de 2020, 13.240 mortos:
Jair Bolsonaro finalmente apresenta o exame negativo para covid-19, uma prova que sonegava à opinião pública havia dois meses.

14 de maio de 2020, 13.999 mortos:
Jair Bolsonaro edita uma Medida Provisória isentando de responsabilidade agentes públicos que, como ele, pecavam por ação ou omissão em atos relacionados à pandemia.

15 de maio de 2020, 14.962 mortos:
O governo Bolsonaro dificulta o acesso ao auxílio emergencial condicionando o socorro à retirada de ações contra a União da parte de estados e municípios.

Nessa mesma data, por não concordar com a insistência presidencial no uso da cloroquina, medicação cuja eficácia contra a covid-19 jamais foi comprovada, Nelson Teich se demite do comando do Ministério da Saúde.

16 de maio de 2020, 15.662 mortos:
Com a pandemia no 80º dia, o governo Bolsonaro tinha enviado aos estados menos de 3% dos respiradores prometidos.

25 de maio de 2020, 23.473 mortos:
Pela primeira vez, o Brasil foi o país que, em todo o mundo, contabilizou mais mortes por covid-19 num intervalo de 24 horas.

27 de maio de 2020, 25.598 mortos:
Mesmo com a pandemia no 92º dia, o governo Bolsonaro havia pago menos de 7% dos R$ 11,74 bilhões disponibilizados para execução direta no combate à pandemia.

28 de maio de 2020, 26.764 mortos:
O governo Bolsonaro revogou uma portaria que obrigava a adesão ao isolamento social da parte de indivíduos com suspeita de covid-19.

3 de junho de 2020, 32.548 mortos:
Mesmo após cometer crimes de responsabilidade a rodo, Jair Bolsonaro usa o temor de um processo de impeachment para vetar o uso de R$ 8,6 bilhões —de um fundo que nem mais existia— no combate à covid-19.

5 de junho de 2020, 35.026 mortos:
Jair Bolsonaro pressiona o Ministério da Saúde para dificultar o acesso da imprensa e da população às estatísticas sobre o avanço da covid-19 no Brasil.

11 de junho de 2020, 40.919 mortos:
Jair Bolsonaro recomenda que os próprios apoiadores invadam hospitais de campanha em busca de provas de que estariam vazios — o que, mesmo carecendo de qualquer fundamento, resultou em tumultos nos dias que se seguiram.

Nesta mesma data, o presidente diz ter vetado o trecho de um projeto de lei que permitia a síndicos de todo o país barrar festas em condomínios.

19 de junho de 2020, 48.954 mortos:
O Brasil supera o milhão de casos, e ainda quebra o recorde mundial de diagnósticos confirmados em um único dia. Jair Bolsonaro, no entanto, estava mais preocupado em reabrir o comércio e acabar com as tomadas de três pinos.

20 de junho de 2020, 49.967 mortos:
Desde o início da pandemia, de 632 compromissos na agenda presidencial, apenas 47 tinham alguma relação com o combate ao novo coronavírus. No mês anterior, tinham sido apenas seis.

21 de junho de 2020, 50.591 mortos:
Como o governo Bolsonaro nada faz neste sentido, o Congresso Nacional se compromete a decretar luto pelos mais de 50 mil brasileiros mortos.

Nesta mesma data, Carlos Bolsonaro, que é quem de fato manda no pai, solta uma nota de pesar pela instauração do socialismo na Argentina — algo que só acontecia na mente lunática do Zero Dois.

22 de junho de 2020, 51.271 mortos:
Mesmo diante da maior emergência sanitária em um século, o Brasil completa 38 dias sem ministro da Saúde.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Agência Brasil, BR Político, CNN Brasil, Correio Braziliense, Época, Estadão, Estado de Minas, Exame, Folha de S.Paulo, G1, Jornal Nacional, Jovem Pan, Metrópoles, NY Times, O Antagonista, O Globo, UOL, Último Segundo e Veja.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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