Grande História

Jair Bolsonaro se embolando sem parar

09.06.2020 - Brasília/DF - O Presidente Jair Bolsonaram caminha ao lado de ministro para o Hasteamento da Bandeira Nacional. Foto: Marcos Corrêa/PR

A prisão de Queiroz, o envolvimento de Wassef, o vazamento da Abin clandestina, as meras coincidências, o começo de tudo, e muito mais.

Um dia após Jair Bolsonaro, em mais uma fala golpista, prometer que estaria “chegando a hora de colocar tudo em seu devido lugar”, o Ministério Público do Rio de Janeiro achou que havia chegado a hora de colocar Fabrício Queiroz na cadeia. No presídio de Bangu, o antigo “faz tudo” da família Bolsonaro há de ter mais dificuldade para obstruir as investigações sobre a organização criminosa que atuava no gabinete de Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro.

O investigado se escondia há um ano justamente onde a filha que mais odeia Olavo de Carvalho apontava desde 2019: um imóvel em Atibaia pertencente ao escritório de Frederick Wassef, advogado que se habituou a confirmar à imprensa que trabalhava tanto para Flávio quanto para Jair, coisa que a defesa do presidente só hoje buscou desmentir (para a máxima indignação do desmentido). No último setembro, Wassef chegou a negar em entrevista que soubesse do paradeiro de Queiroz mesmo com o investigado completando o terceiro mês como morador do imóvel do próprio advogado. Há até foto de Queiroz curtindo o réveillon passado no endereço.

Máfia da ficção

Na casa, chamou a atenção um cartaz com as letras “AI-5” decorando a sala rodeado por action figures de Tony Montana, um dos mafiosos mais celebrados do cinema. Não por acaso, a operação foi batizada pelo apelido usado pelo clã bolsonarista ao se referir ao fã de Scarface: Anjo.

Caso Evandro

Wassef chegou a ter a prisão pedida em 1992, quando participou de encontros com a líder de uma seita acusada pela morte de crianças em rituais de magia negra. Os investigadores chegaram a ele pelo depoimento de 3 pessoas presas no “caso Evandro“. Mas a polícia descartaria o envolvimento do advogado no desaparecimento de garoto Leandro Bossi, no Paraná.

Cautelas

A ação de hoje também tentou pegar a esposa de Queiroz, que se encontra foragida, e decretou medidas cautelares contra Alessandra Esteves Marins, assessora que trabalha com Flávio desde antes de o Zero Um migrar do gabinete de deputado estadual para o de senador pelo Rio de Janeiro.

Soube mesmo assim

Para evitar qualquer vazamento, os policiais civis que efetuaram a prisão de Queiroz no interior de São Paulo nem foram informados do alvo. Mesmo assim, a Abin clandestina que Jair Bolsonaro mantém no Palácio do Planalto o antecipou a operação quando as viaturas já rodavam.

“Mera coincidência”

Sergio Moro demitiu-se do Ministério da Justiça no mesmo 24 de abril em que Jair Bolsonaro exonerou o diretor-geral da Polícia Federal. Dois dias antes, o presidente reclamara em reunião ministerial que só um “sistema particular” de informação vazava para ele detalhes das investigações que atingiam a própria família. Dois dias depois, Bolsonaro receberia Wassef no Palácio da Alvorada. Questionado se não seria inadequado encontrar-se fora da agenda com um presidente que decidia o próximo ministro da Justiça, o advogado respondeu que tudo não passava de “mera coincidência“.

Mera coincidência?

Na véspera, por “mera coincidência”, uma matéria reportagem adiantava na web que as rachadinhas do gabinete de Flávio financiaram a construção de edifícios irregulares da milícia de Adriano da Nóbrega em Rio das Pedras e Muzema. Foi em Muzema, por exemplo, que dois prédios clandestinos desabaram em 2019 matando 24 pessoas. Enquanto “trabalhavam” para Flávio, a mãe e a esposa do miliciano repassavam o salário às mesmas três construtoras usadas pelo Escritório do Crime na grilagem de terras da Zona Oeste carioca.

Percepção

As revelações partiram da apuração da morte de Marielle Franco. Que, por “mera coincidência”, foi mortaao trabalhar com um grupo de Rio das Pedras que tentava impedir a construção de novos edifícios no local, o que traria prejuízo a milicianos“. Ainda em 2018, o secretário da Segurança Pública do Rio explicou: “o que leva ao assassinato da vereadora e do motorista é essa percepção de que ela colocaria em risco naquelas áreas os interesses desses grupos criminosos“. Por “mera coincidência”, ao ser acusado de interferir no trabalho da Polícia Federal, Jair Bolsonaro, do nada, reclamou em 2020 que “a PF de Sergio Moro se preocupou mais com quem matou Marielle do que com quem tentou matar seu chefe supremo“.

15 de outubro de 2018

Fabrício e Nathália Queiroz foram respectivamente exonerados dos gabinetes de Flávio e Jair Bolsonaro na mesma data. E, por muito tempo, a coisa foi encarada como “mera coincidência”. Em maio passado, contudo, Paulo Marinho entregou que a operação Furna da Onça, aquela que flagraria movimentações suspeitas nas contas de Fabrício Queiroz, foi vazada por um policial federal à família Bolsonaro ainda no segundo turno da eleição presidencial, o que findaria na exoneração de pai e filha em 15 de outubro de 2018.

Denúncia anônima

O problema é que 15 de outubro de 2018 é também a segunda-feira em que um anônimo entrega que Ronnie Lessa, o miliciano que morava a três casas de Jair Bolsonaro, recebera R$ 200 mil de Marcello Siciliano para matar Marielle Franco. Durante as investigações, uma testemunha chegou a garantir às polícias Civil e Federal que o vereador planejara a morte da vereadora juntamente com o ex-policial Orlando Curicica. Mas a Procuradoria-geral da República concluiria que a execução teria sido, na verdade, arquitetada por Domingos Brazão, um conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro. Teria, inclusive, partido dele a ideia de usar um falso testemunho contra o adversário político.

Cinco suspeitos

Ao explicar a obstrução de Justiça, a PGR listou um total de cinco suspeitos. Dentre eles, Hélio Khristian Cunha de Almeida. O delegado da Polícia Federal foi justamente quem apresentou a testemunha falsa. No passado, ele já havia tentando extorquir o vereador Siciliano. Em 2013, Hélio chegou a ser condenado por um esquema de cobrança de propinas de empresários, mas a decisão seria anulada. A PF, inclusive, já descobriu ligações dele com Gilberto Ribeiro da Costa, um ex-agente da própria corporação que trabalhou no gabinete de Brazão no TCE.

Por um apelido

Sabe-se que quem vazou a operação Furna da Onça para Jair Bolsonaro é “conhecido na corporação por um apelido“. É claro que deve haver muito policial federal conhecido internamente por uma alcunha qualquer. E nenhuma hipótese merece ser descartada. Em todas as matérias referenciadas mais acima, contudo, só um nome é eclipsado pelo apelido popularizado na corporação: Hélio Khristian, conhecido como HK, o delegado que teria ligações com Gilberto da Costa, aquele ex-agente da própria PF que atuou com Domingos Brazão, o tal conselheiro do TCE que, segundo a PGR, teria arquitetado a morte de Marielle Franco.

De volta a 2020

Assim como o próprio advogado, Flávio dizia desconhecer o paradeiro de Queiroz. Agora, presidente e senador foram aconselhados a se distanciarem do “anjo”. Quanto ao mais novo presidiário de Bangu, contratou o mesmo advogado da família de Adriano da Nóbrega, miliciano cuja autópsia veio a público pelas redes sociais do senador — não sem antes passar pela Abin clandestina do pai.

Acabou nada

Em 28 de maio, um dia após a Polícia Federal cumprir mandados de busca e apreensão contra integrantes do gabinete do ódio, Jair Bolsonaro se deu a ameaçar a República aos gritos de “acabou, porra“. Mas era só mais uma mentira que o presidente tentava vender como verdade. Porque, como se percebe, os problemas dele com a Justiça estão apenas começando.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Agência Pública, BBC, BR Político, Correio Braziliense, Crusoé, Época, Estadão, Exame, Folha de S.Paulo, G1, O Globo, Poder 360, Projeto Humanos, The Intercept, UOL e Vortex Media.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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