Grande História

Quem acredita no Bolsonarinho Paz & Amor?

26.06.2020 - Penaforte/CE - Jair Bolsonaro posa para fotografia no canal de transposição do Rio São Francisco. Foto: Alan Santos /PR

A agenda positiva, as artimanhas da defesa, o novo ministro, as delação premiada de Queiroz, o apoio militar, e muito mais.

Ontem, em mais uma das transmissões ao vivo que protagoniza às quintas, Jair Bolsonaro surgiu com um sanfoneiro ao fundo. Era Gilson Machado Neto, presidente da Embratur, que no passado já tocou no Forró da Brucelose. Lamentando o cancelamento dos festejos juninos no Nordeste, o presidente da República pediu para que o músico cantasse, em homenagem aos mais de 55 mil brasileiros mortos pela covid-19, a Ave Maria de Bach e Gounod.

Hoje, Bolsonaro partiu para Juazeiro do Norte, onde sobrevoaria a Ferrovia Transnordestina, e acompanharia a chegada das águas do São Francisco ao Ceará. Na véspera, já havia nomeado Carlos Alberto Decotelli, “doutor e pós-Doutor” que promete um trabalho técnico, como novo ministro da Educação, o terceiro da gestão, ou o primeiro negro a comandar um orçamento tão alto neste governo. Em paralelo, Luiz Eduardo Ramos chegou a anunciar os valores de três parcelas extras do auxílio emergencial, mas o secretário de Governo logo apagou a mensagem assumindo que o tema ainda estava em discussão.

Um lugar silencioso

Pinçadas assim, as informações delineiam uma espécie de presidente normal, algo que o Brasil desconhece ao menos desde que a faixa verde e amarela sentou no ombro de Bolsonaro. Os posicionamentos de ontem surgiram uma semana silenciosa após o presidente se complicar comentando a prisão de Fabrício Queiroz, o antigo faz tudo da família. Um olhar mais atento, contudo, percebe o truque.

O truque

Após a estranha homenagem às vítimas do novo coronavírus, o presidente insistiu que o temor da doença não se justificava. A Advocacia-geral da União, inclusive, recorreu da decisão judicial que obrigava Bolsonaro a, como qualquer cidadão do Distrito Federal, usar máscara em público. E a intenção não é renovar o auxílio emergencial, mas transformar o Bolsa Família em Renda Brasil, o que concentraria em si os méritos de um programa social que já fez sucesso na agenda de três antecessores.

Suspeitas de fraude

O novo ministro da Educação era a sugestão dos militares desde antes de a pasta ser entregue às diabruras de Abraham Weintraub. Mas foi com Decotelli na presidência que o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação lançou em 2019 um edital bilionário que, entre outras suspeitas de fraudes, pretendia adquirir mais de 30 mil laptops para uma escola municipal que só possuía 255 alunos. O presidente do FNDE deixou o cargo uma semana após o lançamento do edital, mas meses antes de o escândalo virar notícia.

Doutor ou doutorado?

Agora, a Universidade de Rosário veio a público desmentir o título de doutor anunciado por Bolsonaro. O MEC até apresentou um certificado de conclusão de créditos para obtenção do título. No Lattes, ainda que afirme ter realizado um doutorado na Argentina, o novo ministro se diz mestre, mas não se diz doutor. Segundo Franco Bartolacci, o reitor argentino, Decotelli “cursou o doutorado, mas não o finalizou, portanto não completou os requisitos exigidos para obter a titulação“.

Mesma base

A agenda positiva de Bolsonaro não reage a uma perda de popularidade, pois ela inexiste. Ainda que com métodos distintos, Datafolha, DataPoder360 e Quaest, mesmo com o último notando uma elevação da rejeição, observam que a base minoritária de apoio a Bolsonaro não se abalou com a prisão de Queiroz.

Muito esperto

Se uma maioria de 54% dos brasileiros acham o presidente pouco inteligente, ainda há 40% do país achando muito inteligente o homem que forçou o Exército, que costumava ter munição para apenas uma hora de guerra, a produzir cloroquina suficiente para 18 anos de consumo.

Fumou, mas não tragou

Se 64% dos entrevistados pelo Datafolha acreditam que Bolsonaro sabia do paradeiro de Queiroz, uma maioria de 46% não acham que o pai de Flávio Bolsonaro estava envolvido no esquema de rachadinhas tocado no gabinete do ainda deputado estadual.

Onde perdeu

Em verdade, Bolsonaro parece reagir à perda de apoio de militares da ativa e reserva, que abriram mão da defesa incondicional de quem vinha jogando o prestígio das Forças Armadas na lama. Alguns deles já trabalham por um governo Mourão. Até Augusto Heleno, que acompanhava o chefe em cada levante antidemocrático, deu de largar o golpista mor sozinho com as próprias mentiras.

Prioridades

Enquanto o Ministério Público se preparava para denunciar Flávio por transformar o próprio gabinete numa organização criminosa vinculada até com as milícias cariocas, o Palácio do Planalto trabalhava para, no Senado, blindá-lo com cargos ao centrão.

A volta do foro

Ontem a Justiça do Rio de Janeiro conseguiu tempo para o senador ao presenteá-lo com um foro privilegiado que a primeira turma do STF já decidiu por unanimidade inexistir em casos como o dele. Um dos desembargadores que votaram a favor de Flávio tem até livro lançado contra o privilégio, mas adotou recentemente o discurso bolsonarista contra o trabalho realizado por governadores e prefeitos durante a pandemia.

Atibaia e Guarujá

Após a revelação de que mantinha contato com Queiroz desde 2018, e que também o hospedou no Guarujá, Frederick Wassef, que até então negava ter escondido o ex-faz tudo da família Bolsonaro, mudou de versão e agora admite que o escondia, mas para protegê-lo de uma eventual queima de arquivo.

Preocupado com as milícias

O STF já discute a possibilidade de o caso ficar aos cuidados de Gilmar Mendes. É verdade que o ministro chegou a beneficiar Flávio em 2019 ao suspender a investigação. Mas é também verdade que Mendes tem tido papel ativo na contenção do golpismo do clã Bolsonaro. E se tocou do risco de as milícias serem exploradas com essa finalidade.

Cenas dos próximos capítulos

Do outro lado, Queiroz já negocia uma delação premiada com o Ministério Público do Rio de Janeiro. O preso quer garantias para a esposa —ainda foragida— e as filhas. Os investigadores, claro, querem que o investigado entregue algo que a investigação ainda desconheça. Fica a torcida para que o acordo esclareça, por exemplo, o que fez Jair exonerar Nathália Queiroz no mesmo 15 de outubro de 2018 em que Flávio exonerou Fabrício. Mas, sobre isso, essa coluna já escreveu em maio passado.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BR Político, Band, CNN Brasil, Estadão, Extra, Folha de S.Paulo, G1, Jornal Hoje, Jota, O Antagonista, O Globo, Poder 360, Teleguiado, UOL, Valor Econômico e Veja.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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